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Friday, November 09, 2007

Ex-post

"Escrever é lembrar-se. Mas ler é, também, lembrar-se."
François Mauriac, escritor francês, Prêmio Nobel de Literatura - 1952


Chega ao fim a minha novela. Em 15 capítulos, durante dois meses, foram descritas algumas linhas de ficção, outras de não-ficção e que tem muito a ver com algumas coisas antigas, novas, recentes... em literatura, descobri que estudar a vida de um escritor significa, muitas vezes, estudar suas obras, pois elas são influenciadas pelos acontecimentos passados, presentes e muitas vezes, futuros. Pude ter a prova cabal disso nessas linhas. Acho uma mentira a frase: "essa é uma obra de ficção, e qualquer referência ou vínculo é mera coincidência". Sempre há vínculos com a realidade. Cada personagem tem um pouco das pessoas que passaram pela minha vida, cada lugar, uma semelhança com os lugares que visitei. Nada é absoluto. É uma grande salada, assim como foi a minha vida nesses últimos 10 anos.

Algumas pessoas, leitoras dos posts, podem comprovar isso e fico feliz pela audiência e preferência por nós. Aline, Ana Cláudia, Julie, Nina, Alfredo, Leonardo, Camilla, minha irmã. Valeu!

Gostei de escrever, mas não levo jeito. O meu negócio são os números e resultados. Não é a toa que sou um economista. "Cada homem tem um destino", como dizia Don Vito Corleone.

Em síntese, a história "Dobrando o Cabo da Boa Esperança" conta a estória de personagens que cometem erros e acertos em suas vidas, aprendendo pouco com o passado recente. Seria o ser humano um animal que aprende com dificuldade as lições do passado?! Pelos pressupostos econômicos da racionalidade, sim; pelos pressupostos da psicologia não-comportamental, não.

Abaixo, um índice de posts e algumas figuras ilustrando algumas semanas de audiência, estamos beirando quase novecentos visitantes! Mais uma vez, obrigado.


Índice de posts

1. O Dia de Bartolomeu
2. Antecedentes
3. O Encontro
4. Marselha, Lady Katherine, Poker e Bartolomeu
5. Fly me to the Moon
6. As cartas
7. Alea jacta est
8. A corrida e o vôo da coruja: a puzzle
9. O Psicólogo
10. Banda em fuga
11. O oceano em que navegamos
12. Meu amigo de 8 anos
13. Aquele dia de Bartolomeu
14. O desfecho do narrador
15. Considerações finais

Gráficos



Thursday, November 08, 2007

Considerações finais

"Todo homem morre; mas nem todo homem vive..."


Doença de Wilson. Quando cheguei ao Hospital na manhã do dia 6 de novembro, recebi a notícia de que meu Tio Weiss tinha falecido por uma doença rara, talvez incurável até hoje. Desde 1978, vivi só durante muito tempo. Senti falta da figura paternal de Leonard escrevendo na IBM dele em nosso apart em NYC... de suas saídas silenciosas pela manhã para camninhar no Central Park, aqui na 5ª avenida, e depois, acordar com o barulho do chuveiro de seus banhos matinais para, depois, sentar na cadeira e voltar a escrever seus livros. Não eram bons, sabia que não seriam publicados, mas incentivava ele.

Nunca disse isso, mas seus livros tinham um conteúdo sem drama, sem aventura, sem força motriz que me levasse a ler cada vez mais ele... Ele nunca escreveu nada sobre sua vida, apenas essas notas que aqui publico e suas memórias no sanatório (um dia a serem publicadas), e cuidou de mim durante os desessete anos precedentes, de 1958 a 1973... tive que me virar, tive que buscar minha mãe sozinha, não consegui... mudou de nome e nunca se casou... tive que escrever livros desmotivados e que me feriam, pois eram o leque que estava abrindo para todos os que folheavam e liam as páginas marcadas de meu sangue, do sangue de meus parentes e de meus amigos.

As boas lembranças dele sempre ficaram guardadas comigo. Sinto não ter sido mais solícita, não ter sido mais carinhosa, não ter acreditado mais na sua figura como meu protetor, de uma pessoa que realmente me amava, com todas as letras, os sons, os fonemas, e toda a poesia necessária para me encantar, e, que, eu não me encantei... encantei-me com seus gestos, com sua alegria, com seu positivismo, com sua força de viver na maca, tentando me mostrar que ainda demente era uma pessoa que acreditava na vida e na suplantação dos obstáculos, mas disso, aprendi, ele herdou de meu pai biológico.

A amizade de meu pai, Bartolomeu, com Weiss tornou esse último uma pessoa admirável. Bartolomeu com sua frieza transformou-se também. Meu pai fora pior, segundo relatos e cartas de minha mãe, que herdei de Weiss após ter sido internado no Hospital. Analisei os escritos e notara que era uma pessoa apaixonada por minha mãe, mas que essa não lhe correspondia a altura. Por que Bartolomeu não era o homem ideal?! Por que Bartolomeu era frio?! Por que Bartolomeu era feio?! Creio que não. Creio que por medo. Creio que por covardia. Creio que por força de vontade em ser feliz...

Digo isso por experiência própria. Ao largar Rubens, uma pessoa apaixonada por mim durante os tempos em que vivi no Brasil com meu Tio, tive arrependimentos. Escrevia sem parar em meus diários, a fim de ninguém ver meus sentimentos reprimidos e devastadores sobre a besteira que eu fiz. Mas passou. Rubens se casou, foi ser feliz bem longe de mim. Sequer quis contato. Morri para ele. Casei-me com o primeiro que me apareceu, logo depois. Foi frustante. Foi frustante saber que uma pessoa te amava tanto, que era capaz de dar a vida por você, mas que a que você dá a sua vida, quando se casa com ela, não daria sequer uma rosa colhida no jardim do Central Park para você... Perdi uma oportunidade, errei como minha mãe errou. Procurei por mais duas vezes o caminho da felicidade, naufraguei nas duas. Vivo hoje a deriva.

Se for genes, devo estar perdoada. Se for por falta de sabedoria, também. Mas se for por covardia, não me perdoaria nunca. Evito pensar sobre para não me convencer sobre isso. Quando a culpa é nossa, a carga torna-se um fardo enorme sobre nossos ombros de forma que não mais vivemos com essa culpa eterna. Vivo assim.

Fiquei triste demais. Sai do hospital e fui caminhar, sentei num banco qualquer. Contei isso tudo a um velho homem, oriental, baixo, de cabelos brancos, barba branca, e de olhos tão fechados que sequer via sua pupila. Ele virou-se para mim, tomou minhas mãos, fez um esforço sobrecomum para abrir as pálpedras, e lá, vi os olhos pretos e cansados daquele homem, veterano de guerra, na pracinha do Parque Central:

- Há duas coisas na vida que devemos aprender: uma é viver, outra é morrer. Morrer é saber fechar as portas, é saber ter coragem para para dizer 'não' para as oportunidades; e para que fechamos as portas?! Para abrir outras. Esse é o viver. Abrir portas. Uma aberta corresponde a uma fechada. Um 'talvez' não significa um 'não', mas o tempo costuma interpretar como tal. Se você reclama da morte de muitas pessoas, é porque quis abrir outras portas; quis viver de outra forma. Mas lembre-se: todo homem morre, mas nem todo homem vive...

Larguei suas mãos e continuei a caminhar... confesso que nunca entendi o real significado daquela fala...

* * * * * * *


Hoje, dia 8 de novembro de 2007, estou com 66 anos, os cabelos ruivos já não mais são tão ruivos, fio brancos são abundantes; meus olhos ficaram ainda menores; algumas marcas de expressão se tornaram inevitáveis também; meu pescoço passou a ter marcar singelas também, contrastando com força dos diamantes imutáveis que Weiss me presenteou... sinto-me mais velha do que a idade me diz, sinto que os atalhos que tomei para fugir dos caminhos que considerava difíceis tonaram minha vida mais rápida, mais frugal, mais entediante... sinto falta da aventura de meu pai, sinto falta de Rubens, sinto falta de Weiss, sinto falta de fazer coisas grandes, como traçar um grande plano marítimo e dobrar um Cabo, sinto falta de depois saber que vou morrer de velhice, mas não de aventuras...

* * * FIM * * *

Tuesday, November 06, 2007

O desfecho do narrador...

"Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

[Fernando Pessoa - Mar Portuguez]


Não descobri plenamente, mas minha doença consistia em uma série de sintomas que me arrastaram por toda a década de 70.

Primeiro, passei a ter Hepatite... bebia, mas não era muito... apenas Whisky. Isso foi em 1968. Aprofundou. Transformou-se em cirrose hepática. Tive vários problemas renais, arritmia e por último, a catarata em 1971, quando consegui cirugia nos Estados Unidos. Já morávamos lá, desde de janeiro de 1969. Consegui amainar as doenças que me consumiam. Passei a tomar remédios controlados, em 1973, para problemas psicológicos e minha mão treme muito ao tentar escrever essas duras linhas para você, meu caro leitor. Foi duro para Kathy me aturar todos esses anos. Pedi a internação. Encontro-me internado. Uns cinco anos num sanatório, sempre acompanhado por médicos; agora, mais uma vez, numa maca de um hospital. Tentando vencer doenças que consomem meu corpo e minha cabeça. Sofro por cinco anos, piorando dramaticamente.

Fiquei perambulando pelo sanatório do distrito do Queens. Por irônia, o sanatório chamava-se Charles' Hospice, em homenagem a Carlos II, rei da Inglaterra, esposo de Catarina de Bragança, daí, o nome do condado - Rainha.

Conheci vários loucos. Conheci uma porção deles. A primeira era engraçada. Protadora de distúrbio obsessivo-compulsivo tinha manias frequentes de agarrar-se a um urso de pelúcia que o namorado dava-lhe em verão de 1914. Sim, ela era muito velha e dormia com ele atestando ser seu amado eterno.

O segundo, travei um diálogo memorável, aliás, com todos eles houveram diálogos que me fizeram saber que meu problema não era uma psicose, neurose, nem doença orgânica... talvez, mais uma doença fisica, que não haviam descoberto. Perguntei para ele:

- What do you have?!
- Me?!
- Yes, you...
- I think I have some kind of mental illness...
- Of course, all of people, here, are said crazy, but I think some of them are it.
- No, all of us.
- I'm not crazy, I think have some of physic illness, not besides this.
- Wow... you think... it seems to me you aren't totaly crazy, because always ones said to me: "I'm not crazy, I'm fine"... you accepted some kind of illness... - sorriu ironicamente para mim...

Mas continuou:

- You probably have some type of... schizophrenia... maybe...
- Oh, merci, je pense que il est vrai... je suis Napoleon Bonaparte, n'est pas?! - Ele me deu de ombros e foi embora... corri até ele e toquei-lhe o ombro esquerdo, perguntando sobre a indiferença...

Ele prosseguiu:

- Well, if somebody arrives to you and said "I'm Napoleon..." what would you do?!
- I'm probably said to him that isn't it!!!
- If someone said to me this, I would say nothing...
- Why?!
- If I argued with him, I would be too crazy as him... - deu-me de ombros e foi embora... parabéns para ele, fazia todo o sentido aquela minha gracinha... aprendi a ser menos irônico naquele ambiente.

Mas como disse, surgiram vários diálogos que anotei em meus cadernos de notas para possíveis livros sobre isso. Atualmente, Katherine vem recebendo cada um deles e escrevendo em forma de livro...

* * * * * * *


Quando você olha para o vidro, observa chuva ou neve, sente o frio, o silêncio, não dá vontade de sair de casa... mas certas vezes, ao pensar sobre sua situação nesse extato momento, nesse exato instante, você pára e pensa: "por que estou aqui?", "por que quero sair daqui?", "o que há de tão interessante para eu querer sair daqui?", será a falta de algo?! será a falta da pátria?! ou simplesmente um desejo de não querer mais permanecer nesse quarto?! Mas o que fazer lá fora?! Saudades de alguém?! de quem?! Passei todo o dia 5 de novembro a pensar; e tudo começou por olha minha mão esquerda e aquela cicatriz no polegar... lembranças vieram do tempo de jovem, lembranças que não me destroem, mas me fortaleceram na noite fria e sombria do hospital do sanatório... dessa, só lembro minha visão sobre o parapeito da janela, e uma borda preta, em degradê, fechando o meu campo de visão lentamente, bem lentamente, depois, mais nada...

* * * * * * *


Hoje, dia 5 de novembro de 1978, enquanto lia o Washington Post, do lado de minha maca, o médico invade meu quarto, mais uma vez, como no Principado de Mônaco a vinte anos atrás... ainda lembro, apesar de minha memória estar se esgotando aos poucos nesses últimos dias daquela aventura mágica de fuga para o Brasil... anuncia outro problema para eu vencer: hemólise, destruição das hemácias... estou morrendo aos poucos e ainda não sei qual minha doença... voltei ao meu jornal, inconformado com a a medicina, com os políticos, com minha situação, com minha ex-mulher e com o mosquito que estava preso entre os dois vidros da janela, debatendo-se loucamente par sair do quarto e do Hospital, assim como eu clamava por vida e pelo ar do Central Park... estava chegando ao fim meu sofrimento...


[Apesar de estar longe do Central Park, as memórias dele continuavam vivas em minha cabeça... talvez, o meu desejo era sentar no banco que ficava perto da ruazinha que dava acesso a minha avenue, a quinta, perto do laguinho... o desejo era me definhar aqui, coberto, com os flocos de neve caindo sobre meu rosto e clamando por desejos finais...]

Friday, November 02, 2007

Aquele dia de Bartolomeu...

Morrer é duro. Sempre senti que a única recompensa dos mortos é não morrer nunca mais
[Nietzsche]



... o meu Impala chega ao fim da Avenida José Bonifácio a direita, tomando por inteiro a Rua José Reinaldo. Estaciono. Tomo o meu guarda-chuvas. Abro a porta. Abro o guarda-chuvas. Um carro qualquer preto passa molhando minha capa e os meus pés. Fecho a porta. Atravesso a frente do veículo, em direção a calçada. Alcanço-a. Subo os degraus, tomando a porta aberta, como de costume. Invado a casa. Procuro Bartolomeu na sala. Não o encontro. Vou ao quarto. Não o encontro. Dirijo-me a janela, vejo os pingos de chuva atingindo-a, fracos, sem vontade, batendo no vidro, escorrendo por esse material, até a esquadrilha, misturando-se a poça no parapeito de madeira de lei, jacarandá, acho... afasto-me. Viro-me a esquerda. Uma meia volta. Noto o guarda-roupas aberto, com uma das portas prensando uma roupa. Acredito que uma calça comprida. Aproximo-me. Abro a porta. Um corpo desaba no chão. Aos meus pés, com o rosto para o piso. Surpreendo-me. A cabeça ensanguentada tornava ainda mais vermelhos os seus cabelos castanho-avermelhados. Puxo-o pelos fios, noto a face familiar. Ponho o meu indicador e meu dedo médio direito sobre o pescoço. Não encontro pulsação. Bartolomeu estava morto.


* * * * * * *


Assim foi o dia 29 de Maio de 1958, na pequena Rua José Reinaldo. Duas viaturas policiais estacionadas chamavam toda a atenção da vizinhança. Contacto Katherine, e alguns minutos depois, ela vem numa terceira viatura, descendo em desespero, chorando interminavel e inconsolavelmente. Rubens partira para a Europa. Estávamos apenas nós dois. A menina perdera o pai que nunca conhecera direito a filha.

Acompanhei-a até o Instituto Médico Legal. O Hospital não mais cabia. Era necessário autópsia. Duas semanas depois, o laudo: lesões no pescoço, pernas, órgãos genitais e cabeça. Diziam lesão corporal. Para mim, tortura. Custou-me saber porque, mas Bartolomeu era ligado ao regime Fascista de Mussolini, o que causou alvoroço naquela pequena cidade, apesar de sua atividade silenciosa. O fato era que envolver a Interpol para localizá-lo, por intermédio de Clement, levou a revelá-lo a grupos rivais locais. Pena.

Antes das duas semanas, choros de Katherine. Tentativas de contato com a mãe, Christine Valentine Mond. Sem resposta. Provavelmente recebera a carta e sofrera, mas sem demonstrar. Mas desde então, mãe e filha nunca mais conseguiram se falar. Nunca mais...

O enterro foi realizado na mesma cidade, num cemitério local. Uma cerimômia curta e com padre católico, no dia 14 de Julho. Katherine tinha 17 anos e era de menor, sem tutela. Entrei com processo de tutela na Justiça. Em 1965, em nossa residência em Brasília, recebi o resultado em 1965, indeferido - pouco importava, ela atingia a maioridade.


* * * * * * *


Durante todos os anos seguintes, cuidei de Katherine. Catrina, como passei a chamá-la. Tornou-se uma filha para mim. Espacialmente no ano de 1960 e 61, passamos em Chicago. Estimulou-me a publicar meus livros, que recebera excelente elogios dela. Sabia que eram de pouco valor. Não consegui publicá-los. Nenhuma editora estrangeira aceitava, nem nacional.

- O público detesta romances psicológicos. De psicologia, apenas auto-ajuda...

Era o que sempre ouvia.

Voltamos ao Brasil em 62, após a Copa do Mundo que o Brasil ganhava. Rubens passou um tempo conosco. Tempo necessário para namorar Catrina por três meses, apenas três meses... viam-se todos os dias... terminaram por decisão de Catrina, infelizmente.

Infelizmente porque Rubens era o cara certo para Catrina, e Catrina, a mulher certa para Rubens; mas nem sempre duas peças do mesmo quebra-cabeça fazem sentido... era preciso esperar...

Enquanto isso, encontrei John Smile. O desgraçado, chamado de João Sorriso em Brasília (sim, moramos dois anos em Brasília, de 1963 a 1965, quando nos transferirmos para o Rio), apresentou-se para mim, sabendo de minha existência e nome. Fingi não conhecê-lo. Ficamos amigos. No primeiro porre da inauguração de um prédio público em Brasília, em 1964, levei ele para o mato e disparei as oito balas do calibre 38 que guardara de Bartolomeu, logo após ter feito o inventário do mesmo em 1959. Morrera. Joguei-o na primeira vala comum que encontrei, sem cerimônias para um verme de tamanha estirpe.

Mas também encontrei Rudolph. Outro que tinha ligações com João Sorriso. Tinha também trepado com minha mulher, por informações, claro. Na virada do ano de 1968, durante o festival de fogos, do calçadão de Copacabana, apunhalei uma faca em seu estômago, com todos presentes na praia de Copacabana olhando os lindos fogos que cruzavam o céu. Ele caiu, e todos pensaram que estava bêbado. Sai tranquilamente pelo calçadão; no dia seguinte, viajava para Nova Iorque com Katherine.

O mais importante não em si a vingança, mas a mudança de atitudes num ser humano é fundamental. Pensar que todos aqueles canalhas fizeram aquilo com minha mulher era de pouca importância se levasse em conta que pude colocar tudo num caminho de correção: eles precisavam de uma lição, e eu dei; mas confesso que não precisava ser eu que aplicasse a lição.

Mas voltando a Catrina, digo que foi a maior das minhas companhias... era meiga, era carinhosa, era branca, muito branca, lábios lindos, olhos pequenos, cabelos vermelhos da cor da cereja. Tinha gosto pelas artes, matriculei-a num curso de artes plásticas no ano de 1971, tinha trinta anos aquele linda menina. Eu, tinha 47. Aprendeu artes cênicas, também. Chegou a ser atriz, mas desistiu pelo gosto da escrita, não sei, mas provavelmente era de família, e eu tinha pouca influência nesse processo.

Acho que a arte beirava aquela que seria uma família, se tudo aquilo que acontecesse no dia 29 não tivesse acontecido. Sim. Talvez. Nesses dias, antes do fim da década de 60, pude constatar isso por meio de várias cartas lidas de Bartolomeu. Como dissera, pegava-as no armário, assim que o corpo caiu sobre meus pés. Aliás, diga-se de passagem, Bartolomeu sabia que lia suas correspondências, e, talvez, soubesse que um dia poderiam servir de algo, como para algum marinheiro de primeira viagem que não soubesse dos encantos das sereias e nem dos monstros que aboninávam o mar do sul do Cabo... Bartolomeu talvez fosse um gênio, mas fora covarde, talvez, tanto como eu fui um... mas aprendi, e isso é o que mais importa na vida de um homem, a mudança de atitudes...

Fechando esse bloco, lanço uma das mais importantes cartas de Bartolomeu que li... foram muitas, muitas sem sentido, muitas excessivamente emotivas e desmotivadas, Bartolomeu talvez tivesse ficado louco, ou enloqueceram Bartolomeu, mas a grande verdade é que ele impressiona a todos, talvez até ele mesmo, mesmo depois de morto...

"Trento, Itália, 2 de Novembro de 1943

Minha doce Christine,

Tudo poderia ser melhor, tudo poderia ser a mais louca e bela aventura de nossas almas nessa cidade mágica. Tudo, tudo mesmo! Mas, não foi, não é, e duvido que vai ser... a moldura quando se quebra, quebra e ponto! Ela era pronta e acabada para uma única tela, mas a moldura quebrou... ou quebraram?! Não convém eleger culpados... o problema é que nunca teve tela... no máximo uma gravura, um desenho, que imaginávamos existir, não é mesmo?! Que cruel! Imaginar é cruel demais... não quero nunca mais imaginar... nunca mais! Nunca imagine! Nunca sonhe! Nunca faça nada além do que está a luz de seus olhos. Há o perigo de tomar decisões em cima da hora, mas melhor assim. Do contrário, você vai querer sumir no azul infitino do mar... Droga! Imaginei de novo... o mar está a quilometros de distância daqui, em Mirnyj, e até queria ouvir as ondas quebrando nessa noite fria, bem fria, diga-se de passagem, enquanto escrevo..."

O mundo vive mudando e dando voltas. Aprendi isso com Bartolomeu. Os ventos nem sempre sopram para um lado; mas o mais importante é que as velas de nossa embarcação sempre podem ser içadas a fim de chegarmos ao destino que almejamos... Bartolomeu, mesmo louco, acho que você me ajuda. Ainda me ajuda...

* * * * * * *


Ajudou tanto quanto Katherine. Essa, principalmente, fisicamente. Ajudou-me em todas as etapas de minha doença terminal... eu passei a me definhar a partir de 1969... nessa data...

[Campanário, Trento - norte da Itália: as mais importantes batalhas brasileiras na Segunda Guerra Mundial fora realizada em Monte Castelo, norte da Itália. Lá Bartolomeu aprendeu o português, junto a amigos brasileiros. A cidade também é importante para a Igreja Católica, sendo nela realizado o Concílio de Trento, responsável pela Contra-Reforma.]

Saturday, October 27, 2007

Meu amigo de 8 anos...

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world...

[Louis Armstrong - What a wonderful world]



O tocar suave do DC-3 em São Paulo num céu ensolarado no dia 26 era meu consolo para as notícias que teria que dar para Katherine... Rubens devia nos deixar numa pensão em São Caetano do Sul, onde Bartolomeu foi encontrado... fomos de trem e depois de ônibus para lá...

Permanecemos por lá, localizando Bartolomeu, por uns dois dias, até encontrá-lo no dia 28 de Maio de 1958. Chovia muito, o tempo mudou assim que chegamos, isso foi curioso para mim. Após localizarmos Bartolomeu, Katherine e eu fomos a um café... tinha de revelar o conteúdo das cartas lidas, mas não tive coragem... fiquei atônito com a possibilidade de ela não aguentar tamanha carga... tive a idéia de primeiro falar com Bartolomeu, em separado e escondido... esperei a noite chegar.

Lady Katherine, sempre com livros e livros sobre a cabeceira da cama, tomava um deles para a leitura antes de dormir. Já de camisola, bati duas vezes na porta de cerejeira e a vi deitava sobre a cama de mesma madeira...

- Vou me ausentar por uns instantes...
- Para onde vai?!
- Apenas comprar cigarros, nada mais.
- Ok, deixe a porta encostada, fecharei depois.

Deixei a porta encostada e decidi ir a Rua José Reinaldo, 86. Entrei no seu sobrado, de telhas avermelhadas e com a já dita porta de jacarandá... sim... voltamos ao início da trama toda... o leitor pode relê-lo, se desejar... Leafar e Bartolomeu eram as mesmas pessoas... e toda aquela nota refletia seu grau de desespero por saber da verdade e não saber se portar diante dela... queria fuga, queria paz para pensar... mas fui lá conversar com ele... e aquela nota refletiu todo o meu medo, e toda a confiança de Bartolomeu, éramos apenas uma pessoa, com nossos traumas intrísecos, completávamos: Bartolomeu, ferido, adotava aquele comportamento distante, como sempre eu tinha antes de conhecer Emmanuelle; eu, alegre com minha esposa, adotava um comportamento alegre, otimista, positivo, tal como Bartolomeu tivera ao lado de Christine...

Aquela nota refletia tudo isso, mas de forma poética... absmava-me, pois todos os meus amigos escreviam melhor que eu... não gostava de minha escrita. Bartolomeu escreveu tudo o que passou ali, de forma triunfal...

"- Licença é a primeira coisa que pedimos em qualquer lugar - introduziu, delicadamente o Sr.

- Licença para quê? Tu sabes o que isso por acaso significa? Licença pedimos para quando estamos invadindo algum espaço alheio ou algo privado, esse espaço é público - corajosamente respondeu ao Sr.

- É, é por isso que não cresces. Devia ter um manual, essa juventude, para entender como se começa os primeiros passos, caso vivam sozinhas.

- Calma... primeiro, quem disse ao Sr que sou um jovenzinho qualquer? Segundo, como sabes que vivo só? Por acaso me vigia?

- Não, não vigio ninguém, se me permite responder a segunda questão antes da primeira. Sei porque vejo solidão em seus olhos e falta de direção em suas pernas. é um jovem diferente, sim, nisso admito.

- Você é um pedante. Que diabos de solidão está falando? Vivo só, mas me dou bem comigo mesmo, não preciso de ninguém.

- Precisa, precisa sim. Todos nós precisamos de alguém, nem que seja para contar nossas tristes experiências.

- Isso é para os fracos! Não sou como você.

- Eu preciso de você. Juro que preciso. Não está vendo que a chuva cai sobre você e não cai sobre mim?! Você precisa de proteção, e eu preciso de forças como as tuas.

- Sim, eu sou forte e pouco me importa se precisa de mim, pois eu não preciso de você. A chuva que cai em mim é temporária, pois ela lava minhas questões não resolvidas e me isola de questões fúteis e históricas que vocês fracos se entregam.

- Pode ser verdade a segunda parte, apesar de discordar da primeira. Acho que um dia precisaremos nos unir...

- Unir para quê?! União trás fraqueza, sua fraqueza me incomoda, você é incapaz de resolver seus problemas, seus desafetos e agora fica a me amolar... estás protegido, mas contra quem?! Uns fracotes?! Eu me protejo sozinho dos meus... páre de dar importãncia a eles que eles falecerão no seu subconsciente...

- Bem que gostaria - continuou o Sr. - eu queria esse otimismo contra meus desafetos mesmo. Estás vendo que podemos nos ajudar?!

- Eu não sei onde quer chegar...

- Você não tem idéia de como estás perdendo sua vida isolado naquele sobrado... acha que porque todo mundo te inveja, és o melhor?! Estarás sempre protegido?! Saiu de sua casa, você pega chuva...

- Mas... - pensou um pouco Bartolomeu: de fato quando ele saia de casa, ele pegava chuva, sempre... o céu sempre foi claro para ele e o Sol sempre brilhou para ele, mas a chuva sempre o acompanhou... por que será que acontecia aquilo? Aquela alma penada não tinha refletido sobre isso, pois passava tão pouco tempo fora de sua casa, que mesmo seu grau de observação apurado não lhe dizia nada sobre aquilo. - Mas... eu sempre pego chuva?! Pego... por quê?!

- Porque você deixou de entender o mundo e estou lhe oferecendo a minha mão para caminharmos juntos agora. Chega de você matar todos os que lhe passam pelo seu caminho e cair chuva sobre sua cabeça, que é a minha também. Eu também não quero mais ficar de capa de chuva, mesmo sabendo que nunca vai cair chuva em cima de mim e meu céu ser sempre nublado e sem estrelas... vamos agora acabar com isso e termos o que nunca tivemos, uma união.

- Mas eu não entendo... união de quê?! Vamos morar juntos?! Sermos amigos?! O que me propões?! Seja direto e franco...

- Não posso... você tem que começar a acreditar primeiro em si próprio e dizer para você que você que é capaz disso...

- Eu sou capaz de tudo, menos de entender isso tudo que está acontecendo... maldita hora que sai de casa...

O Sr. olha para os lados, a chuva parecia engrossar e mais carros ficavam empacados nas ruas, papeis corriam para todos os lados, a calçada da praça começava a encharcar, mesmo sendo mais elevada que as demais... algumas lamparinas começavam a falhar e as poucas luzes que iluminavam aquele local sombrio estavampor apagar... algo era anunciado como uma grande mudança na Rua José Reinaldo... o que tinha resevado aquele Sr para Bartolomeu?! Qual era sua grande parceria que ajudaria a ambos?! Será que não causaria dor a Bartolomeu... confesso que vi Bartolomeu com medo pela primeira vez... sentia frio, muito frio naquela noite e sua manta era incapaz de segurar o calor, o pouco calor que ainda possuia em seu corpo... não tinha proteção contra mais nada... e não mais podia mais lutar contra as leis da natureza, parecia que um fim devia ser anunciado...

- Não é uma maldita hora... é uma bendita hora. Quando trocamos nossas experiências, aproximamo-nos mais um do outro... nos conhecemos, mas não nos falamos... o que isso pode significar?! Não importa: se você não acreditarm nada vai adiantar, eu vou sumir e a natureza vai nos dar o cabo de nós mesmos, assim como nós viemos ao mundo... tudo depende de uma ação sua e minha, a de cooperar... o que acha?!

- Eu não sei... tudo é tão estranho..."



Não foi a toa que escrevi:

"Bartolomeu talvez tivesse ficado louco, ou tinham deixado ele louco. Todas as noites, ele sentava em frente a uma Olivetti e começava a escrever não mais sobre sua tese, mas sobre o que ele achava que era certo. Discutia com ele próprio."

Ele escrevia de forma trágica, de forma dramática, de forma que sangrava junto ao seu sofrimento, entendia aquela situação, depois de Emmanuelle me traiu de forma tão rasteira e crua; mas nesse lago de sangue que criava, ele assinalava que tudo iria mudar em nossas vidas, a partir daquele momento... e assim foi... apenas tive acesso a essa nota na noite do dia seguinte ao dia 28, quando tomei as seguintes atitudes:

Primeiro, conversei com Lady Katherine sobre Bartolomeu. No café da manhã do dia 29, fomos a Padaria Portuguesa, pedi dois croissants e Kathy, um café forte, sem açúcar, além de um Malboro. Confesso que nunca deixaria minha filha fumar, nunca mesmo... mas pouco importava, apesar de gostar tanto de Kathy, ela não era minha filha, não a tinha.

- Preciso lhe dizer algo de importância
- Diga - dizia ela om tranquilidade, tomando um gole de café e tomando o cigarro pela mão esquerda para acendê-lo com a mão direita.
- Sobre Bartolomeu... ele... ele... é...
- O quê?!
- Ele é seu pai...
- O quê?!?! - perguntava ela, arregalando os olhos, e pondo as duas mãos sobre a pequena mesa de alumínio escovado da Padaria do Português.
- Sim, ele é seu pai, por isso que foge da gente, por isso que o ama tanto...
- Sim, amo-o, não sabia disso... talvez seja por isso que tenha recusado meu beijo no autódromo... quero vê-lo - dizia ela com insistência.
- Calma, ele concordo vê-la essa noite... terá que esperar
- De acordo. Mandarei cartas para mamãe...

Fomos para casa, estava aliviado. Tinha a segunda tarefa: fui ter com Bartolomeu um almoço e ele concordara em um encontro, não informava quem estaria presente, mas ele já devia saber...

E a noite, iria a casa de Bartolomeu, buscá-lo em meu Chevrolet Impala, tomado por um amigo de Rubens.

Mas naquela noite do dia 29, apesar de estar estrelada, tudo mudou... tudo mudou mesmo, porque faltou tomar uma atitude chave... rezar para que tudo desse certo... acreditar... e faltou isso em mim, crença para que as coisas dêem certo... deixei de fazer uma boa ação em vida... e assim foi minha vida, vivendo de tropeços...



* * * * * * *



Quando nós olhamos para trás e vimos a longa jornada que fizemos, temos saudades de tudo. Eu tinha saudades daquela época. Estamos em quase 1979. Muita coisa passou: o Papa foi substituído pelo polonês Karol Józef Wojtyła, tornando-se João Paulo II, em 1978; Brasília foi construída, com o esforço de muitos, em 1960; a ditadura começou a endurecer no Brasil, em 1974 (mas a sorte é que vivi uns nove anos na América, entre 1969 a 1978); morreu JK, em 1976; morreram muitos vietcongues no Vietnã, de 58 a 75; o homem pisou na Lua, em 1969; morreram muitas pessoas com as drogas em Woodstock, em 1969; os Beatles se separaram, em 1970; Elvis morreu no ano passado, em 1977... o que mais me chocou, contudo, foi a morte de Louis Armstrong... talvez nunca amei tanto o Jazz pela voz rouca de "What a Wonderful World", quando soube de sua morte em 1971, um ano depois da descoberta de minha doença. Tomei uma garrafa de Johnnie Walker, 8 anos, e tomei até a metade... daria para cobrir mais uma metade, se a outra não tivesse ido por outros motivos... repeti a dose, a eterna música nos mais altos volumes permitidos pela minha vitrola, quantas vezes fossem necessárias para acreditar nas palavras do velho mestre negro... apenas para acreditar nele...

Fiz isso num apart-hotel na esquina da Quinta avenida com a Rua 55, em Manhattan, Nova Iorque... morei lá, com Lady Katherine durante esses anos citados... lembro-me do colar de diamantes, pequenos, mas de diamantes, que comprara na manhã do dia 3 de maio de 1974, quando caminhara numa das minhas caminhadas ao longo da 5th Avenue, em direção ao Central Park, passando pela Tiffany & Co, iámos a uma peça de Teatro sobre o famoso Watergate do Nixon... as coisas mudaram muito, as lembranças me vem e vão sobre os dias de minha agonizante vida... e assim foi naquele mês de Maio de 1958, dia 29...



["Tomei uma garrafa de Johnnie Walker, e tomei até a metade... daria para cobrir mais uma metade, se a outra não tivesse ido por outros motivos..." - Essa foi a minha noite: a vitrola toca a voz rouca de Armstrong, o meu amigo de oito anos não tinha mais gelo, e era servido quente para eu mesmo tomar; brincava com meus pertences sobre meu criado mudo, o relógio de papai, a coruja eterna, os cents de dollar, o meu retrato ao fundo e um olho... um olho que nunca párou de me espiar, muito menos de me ler...]

Tuesday, October 23, 2007

O oceano em que navegamos...

Aqui é o meu país
Nos seios da minha amada
Nos olhos da perdiz
Na lua, na invernada
Nas filhas estradas de vias que vão
Do céu ao coração

Aqui é o meu país
De sonhos em cabimento
Aqui sou Passarim
Que as penas estão no vento
Por isso aprendi a cantar
Voar, voar, voar...

[Ivan Lins & Victor Martins - Aqui É O meu país]




[A decolagem de nosso avião em Orly, Paris]



Ahhh... Paris... tudo começara ali. O encontro, o namoro, o casamento, e as primeiras brigas... eu estava feliz por estar ali, pois apesar de todos os meus traumas terem sidos gerados ali, eu conseguia superá-los. É como domar os maus espíritos numa época em que só existe a fé, como nas cruzadas... os mals gerados pelos traumas e complexos são nossas doenças de hoje, elas não tem remédio a não ser a terapia - método pouco eficaz...

Chegamos pelo RER, tomamos o metropolitano para atingir Orly. Nas margens da Bd. de L'Europe, ficamos instalados numa espelunca de quarta categoria. O quarto ficava num prédio com banheiro central, por andar. Não havia banheiros individuais por apartamento - uma coisa comum aos apartamentos europeus tradicionais. A porta, um tanto puída, era ainda forte; junto aos móveis de jacarandá: um armário alto, de uns 2,10 m; uma biblioteca que reunia alguns exemplares de Proust e Sheakspeare, em francês, claro; e uma escrivanhia, que reunia grandes papeladas de luz, água e condomínio, além do aluguel. Enquanto vistoriava o apartamento com Katherine, Rubens acertava com o conciergie do prédio. Apesar de ter dormido a viagem toda, chegamos às 2h da madrugada no apartamento e estava exausto, não tinha tempo sequer para observar muito o movimentado aeorporto de Orly, dentro de Paris.

Dormi. Amanhã pela manhã, tínhamos que comprar as passagens que Rubens esquecera, o que foi um grande problema. Horas na fila de duas companhias, a brasileira Varig e a francesa Air France. Enquanto Katherine ficava na fila, fui a janela observar o pátio do aeroporto e notar os novíssimos Lockheed L-188 Electra americanos da Varig e Air France; os já quase-aposentados Douglas DC-6 da American Airlines, juntamente com os DC-7 da Pan Am. Não haviam aviões de turbina naquela época, apenas hélices. No máximo, existia o chamado turbo-hélice, uma combinação de hélice e turbina para o vôo. Apenas em outubro desse mesmo ano que a American Airlines faria o primeiro vôo de Paris a Nova Iorque com um dos aparelhos mais modernos e promissores do mundo em termos de aviação, o Boeing 707...

Chega a vez de Katherine na fila. Tomo a frente e peço três passagens num Electra da Varig, com escala em Recife e não no Rio, como queria! Ela discutiu comigo por uns instantes que desejava observar o Rio, nem que fosse por cima da cidade. Não quis. Tinha meus motivos. Sempre gostei de São Paulo. E assim foi. Ficamos esperando nas confortáveis poltronas o sábado inteiro; eu arrumando os papeis na minha pasta, os de Katherine, os de Rubens e Clement sobre minha mulher e sobre Bartolomeu... encontrei aquele papel, li, vi as iniciais novamente, C.V.M., uma carta de Bartolomeu para ela... li rapidamente, pois o nosso vôo, às 1h30 da manhã foi anunciado em inglês...

- Atention, misters to the flight 1807 of Varig Airlines, present yourselves to the gate 7 to check-in, please.

Depois do check-in e da gentileza incomum das brasileiras comissárias, embarcamos nas poltronas..., e tinha cerca de 100 passageiros no vôo, para uma aeronave que comportava 127. O vôo foi tranquilo. Pousamos em Recife.










[Agora, de DC-3 para Sampa]



Tivemos problemas para a escala, foi-nos oferecido um vôo da Varig num DC-3 para São Paulo, aceitamos. O DC-3 foi um dos principais aviões que determinaram a vitória aliada na Segunda Guerra e Katherine sabia disso, ao discursar sobre... lembrou que aquele dia 26 de maio de 1958 era também comemorado o Memorial Day, o dia dos americanos para os mortos durante a Guerra Civil americana, sim a do E o Vento levou...... contou que sua mãe rezava muito para o pai dela estar vivo, rezava e acendia velas nesse dia para ele, depois da vitória dos EUA e Grã-Bretanha sobre a Alemanha Nazista... dormi um pouco durante o vôo.

Rubens continuou a conversa, queria saber mais sobre Katherine, e conseguiu... estava muito interessado nela, desde o primeiro olhar, mas pouco demostrava. Queria se informar antes.

- Nunca conheceu seu pai?!
- Nunca, minha mãe fala muito pouco sobre ele, acredito que tenha me posto num colégio interno a fim de eu não perguntar sobre ele...
- Teve muitos namorados?! Você namora algum deles hoje?!
- Não, não muitos. Sou pacata e recatada. Tive várias decepções. Busquei homens diversos que não me adaptaram, talvez por que não tenham tido os mesmos ideais de meus pais, possivelmente, Leonard, como profundo conhecedor da Psicologia bem disse sobre... - continuei com os meus olhos fechados, fingindo dormir, enquanto ela me seduzia para a conversa...
- Nossa, mas que compicação!
- Sim, minha vida é complicada.
- Não me referia a isso: a nossa vida só é complicada porque nós a complicamos. Aqui nós estamos, tentanto resolver um problema seu, buscar a pessoa que você diz amar... - Rubens era manipulador, sempre gostei de seus jogos de conquistar as minhas amigas...
- Certo, estou tentando acreditar nisso e agradeço desde já o carinho e a atenção dispensada a mim e aos meus objetivos... mas a que se referia, então?!
- A sua mãe, ela deve ser muito complicada...
- Ah, sim, ela é... bastante.
- Ela parece com você?!
- Bastante, deixe-me mostrar... veja nessa foto, com Gene Kelly...
- Uau, ela conheceu Gene?!
- Sim, ela quase dirigiu alguns musicais com ele na Broadway...
- Que bom... como ela se chama mesmo?!
= Christine Mond, adoro ela, chamava ela de CVM; ela chama-me de imperatriz russa...

Nesse momento, eu parei de escutar o que quer que fosse que estavam discutindo, lembrei-me da carta de Bartolomeu a C.M.V, veio-me a mente o texto completo:

"Monte-Carlo, 18 de Maio de 1958

C.V.M.,

Obrigado por enviar minha Princesa, ela é linda..."

Numa outra mensagem, que também li depois, para conferir o que estava pensando, já no toilete da aeronave, dizia:

"Monte-Carlo, 10 de Maio de 1958

Amor,

Você me destrói com essas suas palavras dizendo-me que me quer e não me quer... a única coisa que desejo é estar bem longe, mas também não consigo... tudo para que olho é seu rosto que lembro e isso torna-me fraco diante do maior obstáculo que é você... és minha sereia, és algo me atentando... que me impede de dobrar o Cabo...

Mas a única coisa que desejo é saber da minha Imperatriz russa..."

As datas, as palavras diziam tudo o que suspeitava ao ter ouvido aquelas palavras a respeito do nome da sua mãe e do carinhoso apelido... mesmo antes de conferir essa última carta... eu, fingindo estar dormindo, não consegui fingi minha emoção, uma lágrima escorre do meu rosto, atravessando minhas maçãs, minha barba que crescera depois da fuga do hospital, e pingando, de um dos cabelos de meu cavanhaque, na minha blusa azul social... abrindo uma mancha escura, úmida na minha gola, espalhando-se, umedecendo aquela pequena parte de minha gola... uma gota num mar azul, uma gota num oceano azul... não somos nada...


* * * * * * *

Sunday, October 21, 2007

Banda em fuga

In the town they're searching for us ev'rywhere
but we never will be found...
Band on the run, Band on the run...

[Band on the Run, Paul McCartney]


... ao baixar-me a fim de ler as iniciais ao fim do documento, ouço a voz de Rubens, desesperado, com muitos e muitos papeis entrando pela porta de meu quarto, fugindo da segurança, tropeça no fio que alimentava os aparelhos de medição cardiaca e todos os papeis voam em meu colo... e se misturam... o que poderia ser descoberto com rapidez, agora, Rubens fizera atrasar a minha sabedoria a cerca da verdadeira situação...

- Desculpa, meu amigo, aqui estão mais papeis sobre Emmanuelle, Clement enviou para eu entregar-te, estou fugindo da segurança, estou fora do...
- HORÁRIO DE VISITA. Queria o Sr acompanhar os seguranças!

O guarda do andar falava em tom taxativo para Rubens... que teve de ir. Aquela bagunça demorou muito tempo para ser limpa. Era quase horário de almoço, não tinha horário de visita na quarta-feira. Fiquei só analisando os papeis, tentei catar alguns sobre a cama, forçava um pouco minha flexão em meu ventre e a costela doía ainda, os ligamentos estavam doloridos ainda... continuei a forçá-los, a me estender para pegar os papeis sobre o chão, catei um, que acreditava ser de Bartolomeu, abri, quase com a cara no chão, pelo meu estendimento, e vi as seguintes letras:

"Emmmanuelle,

You're a sex pot girl that I've seen, a perfect bitch that I've got in Cotê D'azur; your stamp bitch, you'll always have all my secrets in the CIA, I'll give all if you be mime, only mime! And tell this to a crickhold husband!

John Smile Newton"


Cai no chão de desgosto de ler aquilo... alguns dos fios que me ligavam aos demais aparelhos se soltaram de meu peito, o que fez chamar a atenção da equipe de plantão de quarta... pensaram que estava indo, sem motivos, mas indo... na realidade, cai em loucura ao ler aquilo, não aturava que minha mulher tivesse me traído ou que um canalha desses falasse disso dela. Talvez seja comum aos homens de boa índole: não querer que suas 'mulheres' sejam insultadas, maltratadas por vagabundos quaisquer... queria saber quem era John Smile... Clement jamais me diria, teria que descobrir sozinho...


* * * * * * *


Passei o restante da quarta sedado e na quinta-feira acordei num divã do Hospital. Enviaram-me um psiquiatra para me analisar, a pedido de Clement. Dissera ele, Clement, que Bartolomeu fora localizado no Brasil, no interior do Estado de São Paulo; mas que não devia me preocupar... Lady Katherine ficara fora da estória, afastaram ela de mim. O meu único contato era Rubens. Apenas ele seria capaz de diblar o front e me fazer conexão com o mundo externo. E ele conseguiu...

Não piorei devido a queda, mas enloqueci, e o Psiquiatra me dizia isso... a sorte era que a minha loucura era a de vingança de pelo menos encontrar John Smile. Passei o dia 22 me revelando para uma pessoa que dizia saber Psicologia. Fingi entender as regras do jogo... contei algumas mentiras.

Rubens, de alguma forma, ficou sabendo do ocorrido, aliás, fora ele que fez a bagunça e deixara mil papeis para serem lidos por mim. A sorte é que consegui colocar os mais importantes numa sacola perto da maca. Rubens conseguiu entrar no meu quarto na noite de quinta... conversamos... expus a minha situação: teria que passar por sessões de terapia por sete dias corridos, o que atrasaria meus planos! Quais?! De encontrar com Bartolomeu e levar Lady Kathy comigo... precisava mais do que nunca da ajuda de Rubens.

- Fugiremos!
- O quê?! Ficou maluco?! Como eu tiro você daqui desses Hospital?!
- Roupa suja...
- Ahã?!
- Há um container de roupa suja que passa por aqui na sexta, amanhã. Você entra disfarçado de funcionário do hospital... está vendo aquela sacola ali?! Pegue-a.
- Uma roupa de funcionário, ou melhor, funcionária?! Todo mundo vai saber que não me chamo Elianne...
- Tire o bordado em casa, sei lá, faça o possível. Entro no container de roupas com você me levando... pegue algumas roupas antes, nos quartos vizinhos, apenas para disfarçar. Despistamos o motorista do carro da lavanderia, e vamos pegar Lady Katherine. Com o carro de serviço, conseguimos atingir Nice em algumas horas e de lá, vamos de trem para Paris. Compre passagens com aquele seu amigo em Paris para o Rio de Janeiro, teremos que fazer escala lá, antes de ir para São Paulo capital...
- Você é louco, completamente... não posso retirar você daqui dessa forma, não dará certo!
- Dará sim, observei todos esses detalhes depois da desgastante sessão de terapia, se não quiser fazer isso por mim, faça por Lady Katherine, ela precisa de ajuda...
- Vou tentar...
- Não tente, faça! Nós temos poucos segundos em vida para decidir boas ações, tome essa como boa e vamos ver o que acontece, faça valer a pena!
- Ok...

Ele tinha saído pela porta, mas tinha entrado por outro quarto, pela janela, a fim de conversar comigo... se meu plano não era inteligente; o dele não era mesmo! Todo mundo devia ver um homem escalando o primeiro andar do Centre Hopitalier de Monaco...

Ficamos combinados assim... arrumei minhas coisas e me preparei para partir amanhã pela manhã... achava que estava bom para caminhadas, talvez menos para corridas, mas amanhã era o dia da verdade...


* * * * * * *


Tudo começou de forma diferente. É impressionante como o que combinamos nunca dá certo! Foi assim. Rubens entra no horário de visita do Hospital, eu estava arrumado e me espanto com tamanha cara de pau de não estar vestido de funcionário!

- O que aconteceu?! - Perguntei.
- Cale-se. - Disse-me. Fechou as persianas para a janela de fora e para o pequeno vidro que dava para o corredor do Hospital. Trocou-se. Entrou no quarto, logo, depois, a enfermeira. Ela diz para me arrumar para a terapia, pois uma cadeira-de-rodas estava a chegar para me levar parao divã do Dr. Hamilton. Aceno positivamente, ela sai da sala. Começo a reclamar de Rubens: "não vai dar certo..."

- Cala a boca, volto logo. - Então, ele traz, no lugar do container, uma cadeira-de-rodas... não sei como, mas ele conseguiu... me carrega até um quarto no térreo, onde o bendito container estava... ele me põe lá. Durante a descida do elevador, uma criança me observa atentamente. Tenho sangue doce para as crianças, tal como aquela vez que estivera em Marselha e na descida do elevador, uma criança tenta falar comigo... dessa vez, ela dá um sorriso e provavelmente achava estranho eu estar naquela cadeira de rodinhas... No dito quarto, enquando Rubens voltava a se trocar para por a roupa de funcionário da lavanderia, atrás da divisória existente no quarto, chega um guarda... eu estava dentro do container, com a tampa fechada, ele abre - eu sabia que ia acontecer isso... ele arregala os olhos quando me vê, se aproxima e fico bem quieto... plaft! acerto o rosto dele em cheio, há tempos não faço isso... tiramos a roupa dele, deixando-o de roupa de baixo... por que?! bem, o que mais poderia ser valioso que ter uma roupa de policial e ainda tê-lo nú... sabiámos que ele colaboraria conosco não indo a lugar nenhum...

Rubens me leva a lavanderia. Chega com o container perto da perua que estava estacionada no subsolo do Hospital, na traseira. O motorista salta da cabina. Abre o container, olha para mim, eu dou um tchau, ele se vira para Rubens e ele o acerta. Colocamos ele no container e esse num quarto escuro do subsolo. Tomamos o veículo e saimos do Hospital.

Não sabia, mas Rubens tinha tudo isso em mente. Conseguiu planejar isso com destreza.

- Planejou tudo isso?!
- Sim, eu planejei... acha-me burro?!
- Não, não, eu não sei porque você sempre me surpreende.
- Claro. A surpresa não advém apenas do fato de subestimarmos as pessoas, mas vem de não esperarmos isso. Às vezes, quando não esperamos, nós mesmos somos os burros de não termos pensado isso antes... - olhou para mim, enquanto dirigia numa risada irônica... Rubens era agora um parceiro e tanto nessa nova aventura.

Saimos do Boulevard Charles III, tomamos o Boulevard Rainier III e finalmente a Rue Grimaldi. Pela Avenue de La Costa, chegamos ao Café Paris, onde ficava o Hotel Paris, onde Lady Katherine estava. Como Rubens preparara tudo, ela apenas aguardou a nossa chegada. Saimos de Mônaco e tomamos La Provençale, a auto-estrada que dava a Nice. Durante o caminho, passamos por uma batida policial, o que deixou-nos muito nervosos dado que não estávamos preparados para uma frustação em nossos planos. Mas nada aconteceu.

Chegamos em Nice e tomamos o trem de superfície em direção a Paris, ainda na sexta-feira; mas só chegamos no sábado. Nosso vôo estava marcado para segunda, dia 26 de maio; mas o amigo de Rubens acabou não marcando nada! No trem, dormi a viagem toda enquanto Rubens tentava algo com aquela pobre Srta, sim, pobre, mal esperava o que o futuro lhe reservava... aquele papel que devia ter separado quando Rubens entrava no meu quarto, tropeçando, e misturando tudo, também definiria tudo... pena não ter aberto ele antes...

Mas pouco importava, éramos um bando em fuga, era a aventura de nossas vidas ali acontecendo, não tínhamos The Beatles nem o Sir Paul McCartney antes do álbum de 1973, mas essa era a música nossa...


Stuck inside these four walls, sent inside forever,
Never seeing no one nice again like you,
Mama you, mama you.
If I ever get out of here,
Thought of giving it all away
To a registered charity.
All I need is a pint a day
If I ever get out of here.

Well, the rain exploded with a mighty crash as we fell into the sun,
And the first one said to the second one there I hope youre having fun.
Band on the run, band on the run.
And the jailer man and sailor sam were searching every one

For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run

Well, the undertaker drew a heavy sigh seeing no one else had come,
And a bell was ringing in the village square for the rabbits on the run.
Band on the run, band on the run.
And the jailer man and sailor sam, were searching every one

For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run

Well, the night was falling as the desert world began to settle down.
In the town theyre searching for us every where, but we never w ill be found.
Band on the run, band on the run

And the county judge, who held a grudge
Will search for evermore
For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run

[Band on the Run, Paul McCartney & The Wings, do álbum de mesmo nome, 1973]




[Mapa de Mônaco e o Hotel Paris. A fuga estava armada por Rubens. Guardei esse mapa mesmo não vendo a corrida e ganhado o prêmio, o que serviu para comprar as passagens da Air France para o Brasil. Pelo menos, era essa a expectativa... Fonte: Google Maps]

Thursday, October 18, 2007

o Psicólogo...

You can exert no influence if you are not susceptible to influence. [Carl Gustav Jung, Psiquiatra Suíço]


A manhã ensolarada no Hospital de 20 de Maio era quente, as persianas esquentavam além do normal, e o mormaço não era coibido pelo ar-condicionado central. Estava quase sentado, um pouco reclinado e o espelho da farmácia pregado na parede anunciava meus loiros cabelos curtos, os meus olhos castanhos escuros, claros agora, de enxergarem luzes de todas as partes, mas que não brilhavam para mim. Era um homem observador, de poucas palavras, marcado pelos meus traumas, pelos meus complexos do frio, sobretudo... o frio tem uma representação: a solidão, o sofrimento isolado do mundo... era como estava... estava só naquele Hospital, sem esposa, sem amigos...

Clement invade o meu quarto e num diálogo rápido e sem delongas me disse como chegou a tentativa de minha mulher em trair o Ocidente. Ela tinha entrado para a KGB pouco depois de casarmos e tinha a missão de usar minha inflência e amizade com personalidades para chegar a descobrir projetos do Ocidente, como armamento e ações contra a URSS... que ilusão! Fui usado! Esse era outro dos meus traumas... aprendi a conviver com eles, e como dizia Jung, a controlar minhas "constelações"... Clement era amigo de várias pessoas na Interpol, e o fato de ter ganho o prêmio incentivou as autoridades a vasculharem minha pacata vida, incluindo a da minha mulher... o que me agradou, pois pude saber muitas outras coisas desagradáveis... não contarei aqui, talvez numa outra nota ou livro... a verdade é que Clement me ajudou numa das mais importantes missões: a de entender minha mulher... e depois, a de encontrar Bartolomeu. Isso foi um erro que confesso hoje...

Mas isso me levou ao desfecho da história, mesmo que a tragédia tenha sido causada por eu mesmo. Algo que consome minhas duras noites de outubro nesse ano de 1978, apesar de minha doença terminal.

Katherine chega no horário de visitas da tarde. Tenho um leve espanto pela quantidade de bolsas e sacolas que tinha em mãos. Algo era necessário ser revelado, ou mais do que isso: algo era pretendido pela moça naquela tarde de maio.

- Bom dia, M. Weiss. Espero que o Sr esteja melhor.
- Ficaria melhor se dispensasse as formalidades, sente-se, por favor...

A primeira entrevista com Katherine no dia anterior, pedida por mim, a Rubens, funcionara. Ela viria no dia seguinte. Melhor, ela viria todos os dias se soubesse fazer as perguntas certas e os comentários pertinentes, aqueles que ajudassem ela a resolver seu maior problema...

- ... estou bem melhor, os médicos reduziram meu castigo para dez dias, no lugar de duas semanas exatas! Acho que saio daqui dia 28.
- E o que pensa fazer?!
- Bem, minha mulher está presa em Nice por espionagem, não tenho família na França, talvez vá a Suíça ou a Londres com Clement. Ele vem se dando bem como político trabalhista.
- Hmmm... que bom que o Sr tem um destino em mente... - virava-se para as persianas do quarto e passava a mão direita sobre a testa, em direção aos cabelos ruivos e ondulados, um respirar sonoro mostrava sua vontade de chorar ou algo do tipo, tinha algo a me contar, queria me contar algo...

- Algum problema?! Gostaria de vir comigo?!
- Gostaria de que me ajudasse...
- Em que, precisamente...
- Sou uma pessoa só, tenho problemas que são me próprios e insisto em meus dramas para mantê-los vivos, pois é isso que me faz viva.
- Não sabia que era uma pessoa dramática, não me parecia assim, nos poucos encontros que tivemos, parecia-me uma pessoa bem distante e pouco emotiva, uma quase jogadora, ou uma rainha num tabuleiro de xadrez que consegue se movimentar sozinha...
- o Sr se lembra de nossa promeira conversa... ops... você.
- Sim, lembro sim.
- Que bom... que bom seria se os homens fossem atenciosos como você. Tenho admiração pelo... por você...
- Tanta admiração que chega a travar várias vezes no 'Sr'... - discontrai um pouco aquele rosto entristecido por mágoas passadas...
- Sabe... (caminhava ela pelo quarto, em direção a farmácia e ao espelho pregado na parede), o... você tem características próprias de uma pessoa que pode me ajudar, queria compartilhar minha vida com o Sr... desculpa... com você para me ajudar...
- Bem, serão todos ouvidos... qual seu problema principal?! - Quando disse isso para ela, cometi um erro: propunha-me a escutá-la, e nesse caso, os conselhos são inevitáveis, devia ter deixado meu 'ego' na sala-de-espera, como a psicologia moderna ordena, não devia me envolver emocionalmente com ela, pois poderia por tudo a perder para mim e ela...
- Bartolomeu... na verdade, os homens... tive alguns deles, mas poucos me chamaram a atenção como Bartolomeu. Tive algumas experiências diferentes com homens, como ter namorados com esteriótipos diversos...
- Em que sentido?!
- Bem... gostaria de evitar, sabe?!
- Entendo...
- É dificil para mim... sabe?! O Sr não devia fazer essas perguntas!
- Bem, estou aqui para ajudá-la, não me veja como um vilão ou alguém que lhe que seu mal...
- É que é difícil me confessar! Sabe?!
- Perfeito, mas diga apenas o que acha conveniente.
- Ele foi sacana!
- Quem?!
- Um desses homens, sei lá, não era homem...
- Bem, parece que não há muita importância, vamos voltar para Barolomeu...

Sabia perfeitamente do que se tratava, mas evitei desgastá-la dessa experiência diferente... não se deve incitar traumas ou complexos. As forças de um complexo podem ser tamanhas na psique humana que podem afetar seriamente o núcleo de nosso consciente, o 'ego'. Devia evitar. Parecia que meu profissionalismo agora era a regra naquela conversa.

- Quero-o.
- Gostaria de ter novamente Bartolomeu?!
- Sim, gostaria de encontrá-lo novamente.
- Por que a obsessão?!
- Porque eu o quero, porque ele me faz bem!
- Claro, mas tudo tem um motivo...
- Para você tudo tem um motivo! Tem um motivo para eu estar aqui, tem um motivo para estarmos nesse ponto da conversa, tem um motivo para você estar nessa maca! Always are there fucking reasons for all?! - Estava muito nervosa...
- Ok, não há motivos. Pode ser que tudo esteja errado...
- Como?!
- Pode ser que eu esteja aqui nessa maca por nenhum motivo e gostaria que assim fosse, mas o fato é que tomei excessivos chás no Café Paris e me joguei num carro quando saia do estabelecimento... pode ser um acaso eu ter feito isso, mas eu sei que meus problemas pessoais são tantos que isso foi como uma fuga de meus problemas com minha mulher, que reprime meus desejos em tê-la e faz-me de bobo todas as santas horas que estamos juntos. Por ser obra do acaso também termos casado, mas na verdade trata-se de uma perfeita explicação o fato de ela se parecer muito com minha mãe e minha tia, pessoas, mulheres que admiro muito e que a Psicologia moderna diz que trata-se de um anima, um esteriótipo de mulher baseado nas caracteríricas femininas que eu as desejo, advindas, principalmente de nossas mães... para as mulheres, o animus, advindo dos pais... mulheres buscariam nos homens o esteriótipo do pai; homens buscariam nas mulheres o esteriótipo das mães... eu gostaria disso tudo ser uma grande mentira, mas não é... não há comprovação empírica, nem dados estatísticos que comprovem isso, mas é a realidade... tudo tem um bendito motivo, isso só é um exemplo, mas...
- Eu entendo... já ouvi falar disso... na verdade, não conheci meu pai... - era aqui que eu tomavas as rédeas no consultório e levava adiante a carruagem...
- Tudo começou em 1941...

"em 1941, eu nasci, segundo minha mãe; estávamos na Europa, na época da segunda Guerra... até onde sei, minha mãe após saber que estava grávida entrou num cargueiro inglês que saiu de Le Havre, na França, em direção a Escócia, em Glasgow. De lá, eu em sua barriga e ela partimos para a América. Apesar de ser americana, ela teve que ficar dias em Ellis Island, lugar da imigração nova-iorquina, para ficar em quarentena... foi o tempo que tive para nascer. Nasci na dita Ilha, na cidade de Nova Iorque. Não sou de Los Angeles... morei por lá, assim que minha mãe começou a mexer com cinema e literaura. Teve sucesso em escrever para musicais da Broadway e fora chamada para trabalhar na Industria cinematográfica de Hollywood... conheceu várias pessoas, como Gene Kelly e o cantor Sinatra - aqui, o Sr pode notar os dois na foto com ela (mostrou-me a foto, de fato, parecia muito com a sua mãe), mas facassou em alguns projetos, o que lhe remeteu para Nova Iorque. Fui assistindo a tudo isso, até que ela passou a por a fama e o dinheiro acima de tudo, matriculando-me num colégio internato... passava a semana inteira sem ver minha mãe e tive várias amigas e amigos. Mas nada substituiu minha mãe... a imagem de seus cabelos pretos ondulados, seus olhos pequenos e sua média estatura me faziam alegre, apesar de ela mesma me por ali... de meu pai, nunca o conheci... minha mãe falava pouco dele, colocava-me no colégio interno a fim de eu pouco perguntar sobre ele... mas amava-o... nunca dissera com essas palavras, mas em cada texto revelava esse seu fascínio por ele... li alguma de suas correspondências, sempre com destino ou a Suíça ou o Norte da Itália, onde fora soldado... nunca falou da nacionalidade dele... nunca falou de como o era, mas falara que era culto, inteligente, astuto e atencioso, como o Sr ou como Bartolomeu... não descarto os seus motivos...

Tive alguns infortúnios, alguns amigos tiveram que abandonar-me antes do fim da escola... foram morar na Europa ou, como alguns, entrar para bandos do crime, indústria vantajosa na América nesses tempos. A importação ilegal de bebidas, cigarros e drogas alimentava todo o esquema de bandidagem na Big Apple. Tive que saber me virar após minha fuga da escola... um amigo chamara-me para trabalhar em Atlantic City, numa casa de jogos... não, não me prostituia, apesar de ter sido aliciada para isso. Roger nunca deixara isso acontecer sem minha total certeza. Fui juntando dinheiro e cheguei a fazer viagens, como essa, a seu pedido... sim, estou a serviço... tinha de verificar a tecnologia usada em Monaco para repassá-la a Roger o quanto antes... acompanhei-o até o nosso encontro no casino, nosso primeiro encontro. Juro que achei o Sr muito atraente, mesmo com esses seus loiros cabelos... gostei de Clement também, quando o avistei no baile e na corrida... é um homem culto e de poucos cabelos, de barba sempre cerrada e escura. Como disse, sou frustada com os homens, poucos me entendem, poucos me dão importância, e o fato de ser dramática torna-me interessante, mas possuem suas desvantagens, asseguro.

Não cheguei a conhecer sua mulher, mas vejo nessa sua foto que ela é linda... loira, com olhos grandes, castanho claros, pele branca... lindo vestido esse vermelho. Será que já seria esse um indício de seu envolvimento com os soviéticos?! (ela brincou comigo para desfazer o clima ruim que eu estava me envolvendo...).

Mas seria isso... não sei o que acontece em minha vida, não gostaria de que acontecesse o mesmo com minha mãe..."


Parei um pouco, minha cabeça estava muito afetada por todo esse depoimento, os meus complexos constelavam, jorravam fontes absurdas de energia sobre meu ego, dominado-me por completo... precisava de tempo para raciocinar, e foi me dado esse tempo, assim que o doutor e sua equipe invadem meu quarto com remédios e análises... era o fim da sessão de visitas vespertina... amanhã o show devia continuar... mas antes, devia ler os papeis que Lady deixava em meu quarto...

[Sir Clement Raphael Freud (1924-) - escritor britânico, radialista e político, nasceu em Berlim, apesar de sua família ter se movido da Alemanha Nazista para a Grã-Bretanha; é neto do famoso neurologista, destacando-se como chef no seu restaurante Sloane Square, além de ter trabalhado no Dorchester Hotel. Sempre foi muito ligado a sua família, tendo dito na TIMES a seguinte frase: "I suppose that if your name is Freud, it is better to be related to Sigmund than not. It must be frustrating to have to keep denying family connection." Fonte: wikipedia]

* * * * * * *


Há certos papeis na vida da gente que páram sobre nossas vidas em momentos ideais... e assim foi com aquele pequeno papel que Rubens trouxera no dia anterior ao dia 21 de maio de 1958. Era uma manhã menos ensolarada, estava meio nublado e o Principado estava bem vazio depois da Formula 1, a estória apontava o seu desfecho e faltavam mais sete dias para voltar a ganhar vida; tive depois de 1958, uns doze anos de relativa saúde, até saber que em 1970 da gravidade de minha doença...

A vida é curta e demasiadamente curta para errarmos e pensarmos sobre os erros, confesso que passei todos esses anos pensando em erros, deixei de viver intensamente após o 1958...

Ao abrir o pequeno papel branco, digno das notas de Bartolomeu, notei uma carta a uma pessoa que não estava na história, ou que aparecera apenas na carta que eu li antes de receber minha mulher, no dia do baile, uma sigla... ao abaixar a cabeça para lê-la...

Sunday, October 14, 2007

A corrida e o vôo da coruja: a puzzle

Uma piada é uma coisa muito séria
[Winston Churchill, primeiro-ministro Britânico]

O telefone e a aparelhagem chegaram cedo na manhã de 18 de maio de 1958. Liguei para o hotel e pedi para que ligasse para o quarto reservado para ela.

- Allô?!
- Olá, c'est Weiss, ma chérie...
- Oi, meu querido, como vai?! Soube do acidente hoje pela manhã, ia já te ligar.
- Parece que não é nada grave, apenas uma costela quebrada, rompimentos nos ligamentos...
- Credo...
- É, acontece... principalmente quando a mulher vai para Paris e te larga só...
- Não acredito que estás assim por minha causa, quanta besteira sua... devia sequer ter saído do baile para me receber...
- Talvez isso não tivesse acontecido...
- Verdade, verdade...
- Mas que o Rubens deveria entrar para o Mi6, isso devia...
- MI6???? mas como?!... (hesitação) o que é... o que é isso?!
- Nada...
- Bem, esse assunto está estranho, daqui a pouco falamos, beijos.
- Até mais...

Minha mulher tinha um ponto fraco... re-escutei várias vezes essa pequena conversa...

Quando chegou no hospital, travamos um diálogo frio, sem muitas delongas, e achei que ali era o fim... entre ela e eu, mas não foi...

A coisa mais importante do dia 18 de maio foi Rubens. Ele me surpreendeu e levando-me com uma das mais belas observações já feitas por um escritor amador. Forneceu-me um relato completo e detalhado sobre o que acontecera...

"18 de Maio de 1958, Monaco,

A corrida esperada começa e eu aqui estou. Na área de personalidades observo muitas pessoas importantes dos vários governos europeus, com destaque para as casas reais que estiveram presentes na festa do Príncipe. O Sol está intenso, mas sem óculos-de-sol pode-se observar tudo. Mantenho o meu por pura discrição. O meu alvo é Bartolomeu e Lady Katerine. Como os dois conseguiram se encontrar no baile, essa é a pergunta de Leonard quer que eu aqui responda a ele nessas poucas linhas.

Depois da largada, alguns carros se enroscam na primera curva, noto uma singela preocupação dos amantes da Ferrari, dado que a equipe Italiana não está muito bem... Maurice e Tony Brooks travam um duelo grande ao longo da corrida, com muitas paradas nos boxes e muitas abastecidas e trocas de pneus. Os 'charutinhos', como ficaram conhecidos os modelos de carros de corrida, correm bastante, levantando poeira e emoção para quem está na área VIP.

O curioso, nesse primeiro relato, é a não-presença de Bartolomeu. O jovem de cabelos castanho-avermelhados e branco na pele estava muito interessado na corrida em suas 30 primeiras voltas. Lá pela 33ª volta, ele sumiu. Tentei ter com ele. Mas isso foi de pouca serventia. Desci pelos toiletes e não encontrei, subi ao alambrado para verificar, e não encontrei. Notei muitas pessoas e dentre elas, Lady Katerine. Ela é formosa, tendo um belo par de pernas e um gosto exótico para roupas, sempre bem-coloridas e com um lenço no pescoço, de cor grená. Quando volto os meus olhos para a pista ver o acidente provocado por um retardatário, Katerine some aos meus olhos, assim que os volto para a arquibancada. Foi curioso notar isso, o sumiço de ambos.

Andando sem muito rumo pelo corredor que dá acesso às arquibancadas, noto nossos atores contracenando, algumas carícias, e quase um beijo, algo parece ser dito pela moça ao pobre rapaz, ele se afasta, passa as mãos aos olhos e dá-lhe as costas... a moça não entende nada, assim como eu..."

- Bem, está aí... tive que parar de escrever, a vitória de Maurice me lembrou que a metade do prêmio de 25.000 francos é minha!
- Que ótimo, Rubens, maravilhoso!
- Sim, o dinheiro é belo!
- Não, o relato seu... falta-me saber o que tanto assustou Bartolomeu...
- Realmente você é uma pessoa estranha. Quem se importa com ele?!
- Eu.
- Você?!
- Eu.
- Parabéns.
- Obrigado, mas quero mais favores, chame Bartolomeu aqui; sim, primeiro ele, depois ela...
- Ok, mas saiba que quero rever Casablanca hoje.
- Não, com o prêmio você assiste até no estúdio, por favor, chame Bartolomeu.

Segundo os relatos de Rubens, após ele deixar o Hospital, ele foi ao apartamento de Clement, com dificuldade, as ruas de Mônaco estavam ainda cheias pela comemoração da vitória francesa em Mônaco. Quando chegou no apartamento, alguns papéis no lixo e nenhum vestígio de Bartolomeu mais no quarto... ele havia sumido misteriosamente.

- Como misteriosamente?!
- Não consegui identificar nada. Guardei os papeis para você depois analisar. Parecem ser cartas. Um pouco meladas de café, mas são cartas...

Algumas consegui identificar como aquelas que tinha lido, mas nada além disso... já eram 17h e muito da bagunça continuava. Conversamos durante mais umas 5h e ficou tarde para trazer Katerine ao hospital. Tinha vacilado. Demorei para tomar uma decisão que poderia ter resolvido todo o mistério da saída desmotivada, aparentemente, de Bartolomeu... por que fugiste?!

* * * * * * *


Dormi e só acordei às 10h do dia 19. Algumas coisas novas haviam ocorrido. Clement entra no meu quarto com dois oficiais da Marinha inglesa. Alerta-me que minha mulher está em sério perigo. Não imaginava nada além de ter acontecido algo a sua saúde e entro em pânico quando me é noticiado isso. Clement me conforta. Diz-me que minha mulher está traindo o Ocidente e que era preciso calma...

- Relax?! How?! You've ccome to my room and tell me that my wife is bertraying me?! West?!
- Yes... you're wife is a spy...

Uma espiã... bem, bem que ele hesitou na brincadeira que fiz de Rubens sobre o MI6... ela estava agindo contra alguém, mas Clement não tinha informações. Como tinha chegado a essa conclusão?!

Outro acontecimento foi a visita de Katerine...

- O que aconteceu com o Sr?! Fiquei sabendo de um atropelamento!
- Sim, fui atropelado, tive problemas com minha mulher e perdi a atenção.
- Que trágico!
- Decerto. Fiquei sabendo que esteves no baile e na corrida... gostou?!
- Para falar a verdade, nem assisti a corrida, tive alguns problemas...
- Quais?!
- Não são importantes...
- Se deixou de ver a corrida e comentou comigo, devem incomodar...
- Sim, incomodaram-me...
- E o que vem a ser?!

A expressão de desânimo era grande, mas a vontade em se confessar era maior...

- Nunca fui boa amante ou namorada... tenho meus problemas pessoais.
- Bem, todos nós temos, o que nos move é a força de vontade de vencê-los.
- Sim... é que... é que....
- Sim...
- Eu gosto de você...
- De mim?!
- Sim, apesar de casado, eu gosto de você, admiro sua cultura e inteligência...
- E Bartolomeu?!

Saiu sem querer, mas foi...

- Quem?!
- Bartolomeu... não o conheceu?! Disse sobre você... - Tive que mentir.
- Disse?! Onde ele está?! Ele sumiu da cidade...
- E eu?! Dizia que gostava de mim, vejo que o interesse é passageiro ou algo como um PLANO B, deveras...
- Desculpe, pareceu isso, mas não foi a intenção...
- Mas aconteceu. Na vida é assim: você magoa as pessoas sempre, sem querer, você me magoou. Eu entendo e perdoo você; mas você queimou a largada.
- É... sim, queimei...
- Onde está Bartolomeu?!
- Pensei que soubesse, não está com você?!
- Não, não está, sumiu da cidade, não disse ainda pouco?!

Sim, disse... a verdade mesmo era que eu era o plano B e sempre notamos isso, de uma forma ou de outra. Para mim, pouco importava. Apesar das belas pernas e rosto, e o fato de ser solteira; o 'queimar a largada' era ponto-chave: ninguém gosta de ser considerado um plano de escape da curva. Sentia assim. Como disse, tinha minha mulher, e mesmo ela sendo a mau-caráter que se averigou, gostava dela - possivelmente ela, estava me usando de outra forma, alguma forma profissional e não daquela Lady, que me usava a fim de choramingar o que não conseguiu com Bartolomeu. Mas ainda era cedo para chegar às conclusões corretas... tinha que ler mais para saber quem era Lady Katherine e porque Bartolomeu fugira de Mônaco.

Tomei três iniciativas: uma foi ter com Clement uma conversa que consistiu em usar seus conhecimentos de Interpol. Era amigo de alguns policiais que trabalhavam nas sedes de Lyon e de Vienna, podia saber porque minha mulher era espiã. Outra foi ler os papeis de Bartolomeu que Rubens me trouxera. E a final, era conhecer Katerine. Alguma coisa estava relacionada.

Depois dessa longa conversa com Katerine a tarde, do encontro com Clement sobre minha mulher e a Interpol e mais papeis que Rubens me trouxera, fui dormir... tudo era um jogo, e precisava de muita calma e descanço para montar todo o quebra-cabeça...

* * * * * * *

Na manhã do dia 20 de Maio, novas revelações, Clement entra no meu quarto com novidades...

[Centre Hopitalier de Monaco - Depois batizado como Hospital Princesa Grace, em homenagem a esposa de Rainier III, morta em 1982, num acidente de carro]

Sunday, September 30, 2007

Alea jacta est

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
[Clarice Lispector]

Mais alguns papéis sobre o Hemingway de Bartolomeu me diziam mais coisas ele... mas como dissera, minha mente de investigador estava longe de conseguir fixar-me nas provas e nos autos do processo, tinha problemas maiores a tratar, tinha que ter com minha mulher uma conversa séria...

Saira para um café para tomar um chá... pedi um de casca de bergamota, depois um de maça, outro de limão siciliano... meu estômago, enojado de tanta descrença, de tanta água, estava ligeiramente 'afogado' nos meus pensamentos apodíticos... mas tinha fé na mudança, tinha fé que tudo era para ser ou que deveria ser, num futuro próximo, bem melhor do que era... ilusão.

Perdia para Bartolomeu. Dos três a um, passara a três a dois, a iguais e depois perdera o game. Se tudo tem um começo, tudo parece ter um fim, diz a lógica, dado a necessidade de reiniciar novas tarefas e planos... outra ilusão. A lógica me abandona. A sorte me abandona. As pessoas me abandonam, zombam de mim, depois se fazem de indiferentes, ignoram-me novamente, e reinicia outro ciclo de desespero e pensamentos antigos... saio do café, e a única lembrança que tenho depois é um carro me atropelando, pegando-me em cheio...

* * * * * * *


- Leonard?! Leonard?! Sou eu, Rubens, seu amigo...

A imagem de Rubens veio-me a mente como algo angelical. Algo como o fim de tudo. O fim de um sofrimento intenso.

- O que aconteceu?!
- Atropelamento. Quebrou a perna esquerda, ligamentos quebrados na altura do joelho e... a rib bro... quebrada... o que é rib?
- Costela.
- Isso, costela, está aqui em francês, do outro lado da plaqueta.
- Bem, e quanto tempo fico aqui?!
- O necessário... quase duas semanas...
- Duas semanas?! E como vou trabalhar?! E minha mulher?!
- Bem, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é... provavelmente, a bebida lhe largou sobre um carro, e, agora, sobre a maca...
- Não sei o que dizer...
- Não diga nada, nessas horas, o melhor que se tem a fazer é ficar calado, escutar, e viver feliz. O segredo da felicidade é não pensar determinadas vezes. Isso estraga o processo.
- Preciso de caneta e papel. Preciso escrever. - Dizia eu...
- Ok, vou providenciar.
- Rubens, preciso de sua ajuda, quero sua total confiança em mim, preciso que converses com Bartolomeu, preciso que faça um 'serviço sujo'...
- Com aquele carcamano?! De novo, você não larga disso nunca?! Deixa isso para lá...
- Preciso, Rubens! São pessoas ideiais para a leitura de meus livros... isso é coisa rara hoje em dia!
- Mon dieu... o que quer que eu faça?! E por que disseste "pessoas", no plural?!
- Errrr... deixa eu te contar: tem uma mulher chamada Katarine... ela é a outra pessoa que preciso manter contato. Ela é tão misteriosa quanto Bartolomeu, quero que os dois se conheçam, preciso também dos feed-backs de ambos... preciso que converse com essa Lady e me traga alguns papeis de Bartolomeu...
- Conversar com mulheres é um prazer, mas 'trazer papeis'?! Roubar?! Serviço de espionagem?!
- Errrrr... bem... éeeee... deixa eu te expli...
- Ótimo! Fechado! Eu também quero saber o que aquele desgraçado tem que eu não tenho. Filho da mãe, tinha um Royal Straight Flush e ficou calado!

Foi impressionante como Rubens aceitara minha atitude rasteira de roubo de correspondência... mas, tudo pelo conhecimento. Como dizia Bartolomeu, as decisões mudam de acordo com o ambiente...

- Claro! Se estiver certo, ele tem alguma coisa que você não tem! Talvez, alguma manha nova, esses carcamanos sabem de uma série de novas técnicas...
- Perfeito, Leonard! Gosto que esteja do meu lado, vamos acabar com eles...

- Rubens, espere... - Ia eu me levandando a fim de ele me escutar no portla da porta do quarto.
- Minha mulher... visite-a no Hotel de Clement... ela já chegou?!
- Ontem,
- Ontem?!
- Sim, ontem.
- Que dia é hoje?!
- Dia 17. Dia de treinos para a classificação.
- Perdi o baile?!
- Hahahahah... se perdeu! Dancei até com vossa esposa! Heheheheh... Bartolomeu dançou também, se deseja saber, odeio aquele cara, deve ter um imã para mulheres e o jogo!
- Faça-me o favor?! Peça uma linha telefônica para meu quarto. Preciso de aparelhos de escuta acoplados. Isso. Telefone, escuta, papel, caneta e... bem... se eles tiverem suco de laranja concentrado, eu gostaria de um a cada hora...
- Eu entendo quase tudo, mas o suco... bem... vou providenciar... quer uma TV?! Isso é meio difícil, mas consigo com o Clement, ele sabe alguém das equipes que possa instalar um terminal de vídeo para você acompanhar a corrida...
- Não, quero que você me faça um outro favor: pegue meu suit no meu quarto, no apartamento de Clement. Há 3.500 francos no bolso direito. Aposte tudo no Trintignant, ele é francês...
- 3.500 francos franceses num piloto francês?! Está sob efeito de algum remédio?! Deixa eu ver aqui...
- Não, Rubens, sem brincadeiras! Aposte nele!
- O Tony Brooks está na pole position, você quer apostar em alguém sem expressão alguma?! Aposte no Fangio!
- Faça isso, Rubens, por favor, sim?!
- Ok... dá pena isso, se me emprestasse, eu poderia pagar meu carro e poderia reembolsar você com juros.
- Metade do prêmio é seu, se eu ganhar, certo?!
- Fala isso porque vai perder! Bem, farei os pedidos. Cuide-se.

Perdi alguns detalhes importantes do dia 16. Agora, eram 4 horas da tarde do dia 17. Quase o dia 18. O que será que aconteceu?! E minha mulher?! Ela que me mandou apostar num francês... seguia os seus 'conselhos'... tinha agora que acompanhar de longe, bem longe de Bartolomeu e Kathy, o desenrolar da estória...

Tony Brooks... será que aquele inglês iria me trair, vencendo?! Será que o francês ganha para mim?! Os jornais diziam que estava contra a maré:

"Monte-Carlo, Monaco - 17 Mai de 1958: Aujourd'hui, nous a eu la grande Fête de la vitesse, la Formule 1. Le jour de qualifiez a ête très bon et les équipes a présenté une grand dispute entre eux. En outre, il y aura une belle dispute entre les nationalités anglaises et françaises pendant la course. Par exemple, le pilote anglais Tony Brooks a ête plus vité que les autres pilotes, avec une recouvrement de 1'39.8. Il sera le pole position. La BRM du français Jean Behra a ête le deuxième et Jack Brabham a ête le troisième du Grid. Les autres pilotes plus vitesse sont ête: 4me, Roy Salvadori (anglais); avec Cooper-Climax; 5em, Maurice Trintignant (français), avec une Cooper-Climax; 6em, Mike Hawthorn (anglais), avec une Ferrari.

Les Ferraris sont la grand atraction de la Formule, tout les italiens vient de Modena pour voir "La Scuderia", comment les tifosi adorent.

Mais les pilotes italiens n'a pas eu un bon jour. Luigi Musso (Ferrari) et Giorgio Scarlatti (Maseratti) sont dixième et quatorzième du Grid.

Se tout las prévisions se maintiennent, l'anglais Tony Brooks (Vanwall) vas gagner. Il a ête deuxième en le Grand Prix de Monaco, en 1957, seulement derrière de le grand pilote argentine Juan Manuel Fangio qui n'est pas en cet Grand Prix. Mais, Trintignant aussi a gagné en 1955. Alors, alea jacta est..."


[L'anglais Tony Brooks - Vanwall]


[Le français Maurice - Cooper-Climax]


Será que eu ganharia algo?! Será que o placar está a meu favor?! O fim da notícia dizia tudo na frase latina alea jacta est, a sorte está lançada...
Era preciso esperar um pouco Rubens chegar com novas informações... o dia 18 de Maio se aproximava, com cautela e euforia...

* * * * * * *


"Weiss tem uma fraqueza que todos os escritores possuem para ter o que escrever. Mas confesso que mesmo os que não possuem capacidade de escrever belos textos tem também a fraqueza diante de certas pessoas, para mim, a minha amada; para ele, Emmanuelle. Até as mulheres que vejo, tendo buscar as características de minha amada. Curiosamente, notei, no baile do Príncipe que havia uma mulher de beleza singular, que, confesso, tinha feições características e modo de se vestir semelhante a CVM... O primeiro contato apenas se restringiu a isso e nada além. Noto que poderia ser uma boa possibilidade de ter uma nova chance em minha vida, a chance de me libertar, assim como falei da boca para fora para Weiss. Tenho dificuldade de por em prática o que penso, mesmo sendo boas idéias... esse é o maior defeito de um sujeito teórico, a falta de impusividade...

Bartolomeu
"

- Bem, o quê acha?!
- Acho que Ian Fleming vai incluir você no novo dueto: os agentes secretos de Sua Majestade Real!
- Eu não quereria ser um agente britânico do MI6...
- Amigo, se tudo correr certo, a Guerra Fria vai fornecer o maior e melhor pano de fundo para o escritor birtânico escrever sobre James Bond, já foram cinco livros! Casino Royale, Live and let Die, Moonraker, Diamonds are forever, From Russia with Love e Dr. No... Eu invejo Fleming... aposto que a Indústria Cinematográfica vai entrar a fundo nisso... se os livros já são bons, imagine o filme disso?!
- Pode ser...
- Claro que vai ser! Fleming, quando escreveu Casino Royale, escreveu sobre suas experiências de Casino em Portugal, perdendo muito, daí, criou um agente secreto do Serviço Britânico, o Ministry of Inteligence 6 (MI6), para diminuir a culpa de suas perdas quando jogar... você cria um herói para se passar de vencedor!
- E você?! Cria muitos heróis?!
- Meus livros são de conteúdo diferente... por sinal, entrou em contato com Katerine?! Fez minha aposta?!
- Fiz a aposta... Mas que bela dama... mas entrei sim em contato... ela é solteira?!
- Não vamos começar a falar de mulheres, Rubens... Continuemos sobre a família de Fleming... seu irmão era escritor e escreveu sobre expedições no Mato Grosso, no Brasil, sabia?! Aliás, seu pai, Valentine Fleming, já era major das forças armadas, o que mostra que a espionagem e aventuras sempre estiveram ligadas a família... mas sobre sua mãe...

Adorava conversar com Rubens quando eu comandava a conversa, ele tinha bons insights, mas tinha um só assunto... precisava guiá-lo, certas vezes...

Eu tinha bons insights na naquela época... conseguia prever muitas coisas, James Bond teve a maior quantidade de filmes sobre um só personagem até hoje... e Rubens nunca passou de um araponga de segunda... Bem, c'est la vie...

Eu só não imaginava o que tramava minha mulher... os dias no hospital me fizeram uma pessoa mais responsável, pois podia pensar mais sobre a minha vida, relembrar os erros cometidos e pensar em boas soluções em não mais cometê-los, mas a sombra e sabor do acaso, eu sabia que iria cometê-los de novo... como foi com minha mulher assim que ela me visitou... ela conseguiu comprar o mesmo peixe por um preço ainda menor... sentia-me reduzido por isso... talvez fosse a fraqueza que Bartolomeu me disse, em carta... sentia que todos continuavam zombando de mim... já eram 22h33 e estava com sono... tinha que dormir, quem sabe não conseguia resolver meus problemas nos meus sonhos?!

O meu cansaço de esperar era evidente nauqela maca...


* * * * * * *

Thursday, September 27, 2007

As cartas...

One's philosophy is not best expressed in words; it is expressed in the choices one makes. In the long run, we shape our lives and we shape ourselves. The process never ends until we die. And, the choices we make are ultimately our own responsibility.
[Eleanor Roosevelt, Roosevelt's wife]


Depois de sair do Café, minha esposa veio a minha mente. Não conseguia imaginar o que Clement me dizia... estava confuso. Fui ao Hall do Hotel da esquina e fiz uma reserva para ela assim que ela chegasse de Paris. Paguei e mandei o motorista do Hotel pegá-la em Nice. Queria conversar com ela a sós. Na volta, via uma Igreja, entrei...

Fiz o sinal da cruz e ajoalhei-me num dos bancos. Comecei a Ave maria... mas desisto no meio... pensava nela. Ela era minha fortaleza que me fazia forte para protegê-la de tudo, de todos... não imaginava isso, ela, de mim. Era doce, mas estava me tornando diabético com isso! Depois de dois anos de casados, as lembranças boas vinham a tona, do nosso namoro, de nossos bons momentos juntos no pequeno Citroën de seu pai em Paris... a noite da cidade nunca deixava de nos acolher, de permitir que minha boca pregasse junto a dela, que minhas mãos escorregassem sobre suas pernas, sobre suas costas, enquanto meu rosto viajava pelo seu pescoço e busto beijando-lhe, enquanto o respirar dela tornava-se sonoro aos meus ouvidos, enquanto ela retorncia-se pelas minhas carícias e mimos no banco traseiro do carro, e me acariciava com prazer e vontade, me consumindo, assim, como eu, ela... as janelas 'suadas' pelo vapor de nossos corpos em chamas cobriam e resguardavam nosso contato íntimo... lembrava-me disso como se fora ontem... tinha saudades disso... combinávamos... tentei várias vezes isso nos últimos meses, mas em vão... estava fria comigo... teria cansado de mim?! Perdia os pensamentos por alguns instantes... pensava em céus, azuis infinitos em minha mente... tinha perdido a vontade de pensar nessas boas lembranças, pois para mim, eram parte de um passado que não mais me pertencia... minha mulher tornava-se outra...

Sai da Igreja... fui ao apartamento de Clement... lá estava Rubens, pronto e muito elegante para o almoço com o Príncipe. Iniciei um diálogo...

- A viagem de ontem fora dura... muito cansativa...
- Duro é perder o que não se tem, olha aqui, aquele seu amigo de uma figa me extraiu toda a grana que devia ter para pagar o restante do carro... estou possesso com isso, terei que trabalhar mais horas extras para aquele desgraçado nadar em meu dinheiro!
- Calma, Rubens, tudo tem seu tempo... aposto que serás amigo de Bartolomeu como eu sou o dele... as decisões mudam de acordo com o ambiente e tempo.
- Não vou mudar nada e dane-se ele, ok?!

Deu-me os ombros e fora para o quarto ter com Clement os últimos acertos para o almoço. Bartolomeu, no banheiro de sua suíte, estava também terminado de se aprontar. Fui ter com ele a conversa inaugural...

- Elegante! Pareces que vai até encantar uma donzela!
- Já encantei algumas, isso não é tanto o problema. A maior das problemáticas é que as mulheres tem um tempo que a maior parte dos homens não está disposta a aceitar para a espera, daí, finda-se um excelente relacionamento.
- Poderia explicar com maior cuidado?!
- Assim: você se apaixona por uma pessoa, entrega-se a ela, e mesmo assim, ela não te corresponde... nós sabemos do que estamos falando. E o que acontece, quando damos uma, duas, três chances, desistimos, e sabe por que desistimos?! Porque o desgaste é grande e um homem não é capaz de sofrer desgastes quanto uma mulher. Isso é biológico e uma hora estouramos, libertamo-nos. Cada homem possui esse tempo e a disposição a se desgastar, de acordo com a paixão que possui. Eu, por exemplo, sou de pouca duração...

E eu, de muita... que droga! Ele sabia de coisas incríveis mesmo sendo uma pessoa tão anti-social e arrogante, era muito observador.

- O que representa um 'estouro'?!
- Representa o fim. Representa que você, por mais apaixonado que esteja, está de saco cheio de tudo, uma força de dentro diz isso. As mulheres tem a faca e o queijo nas mãos com os homens apaixonados, mas mesmo assim, preferem os que não as amam... é um drama cruel que os livros não descrevem, esqueça esses romantismos e obras esdrúxulas, não te levam a nada... apenas a sofrimento de imaginar que alguém pode te salvar. O primeiro e mais importante pecado é a 'sinceridade', o dia que for sincero com uma pessoa que disse que não te ama, sofrerás, por culpa própria.

Bartolomeu tinha uma sinceridade pétrea comigo. Tinha uma verdade que tocava-me profundamente em nossos diálogos. Sentia-me que estava sendo aconselhado por um amigo de longa data, que conhecia Emmanuelle, que conhecia a mim e o nosso casamento. Será que apenas eu não enxergava isso?! Será ele, apenas ele que conseguia ter o distanciamento ncecessário para me aconselhar em tão grande estilo?! Sofria. Sofria bastante com toda essa situação embaraçosa. Mas uma coisa de diferente de "Noites Brancas" era que eu não me fazia de vítima. Tinha uma parcela de culpa pelos meus mimos excessivos a minha mulher desde o início e que ela não foi capaz de compreender que eram de bom agrado pela sua presença. Ela ignorava isso.

Após a leve reflexão, fomos ao almoço com o Príncipe Rainier. A mesa gigantesca, contando com várias personalidades do velho continente davam o tom de que seria o dia 16 de maio de 1958: um dia da aristocracia européia. Dava-me um pouco de nojo aquilo tudo; os assuntos eram interessantíssimos: o caso de Anna O. e o Dr Breuer, amigo do avô de Freud; a Psicoterapia de Carl Jung e a briga teórica com Freud, os novos conceitos de Animas e Animus; o cinema e a atuação da Princesa e atriz Grace Kelly em seu último filme High Society, de 1956; a Política britânica para com a partilha da África; a doença do Papa Pio XII; além da possível entrada do Gen. de Gaulle para a Política Francesa e os impactos disso sobre a soberania do Principado e a mudança da Política americana para com o mundo, expressa nas ações de Eisenhower.

Mas eu tinha tantos problemas na minha cabeça que não suportava conversar com todos e os verdadeiros assuntos que me chamavam a atenção estavam pairando sobre minha cabeça, sem saída, tentando encontrar alguém que eu possa desabafar... Mas não... Ficavam ali, cerrados em minha cabeça.

A única coisa que tinha para me distrair eram duas coisas que na verdade eram uma: Bartolomeu e suas conversas pertinentes, motivadas e bem argumentadas com todos na mesa; e um outro papel branco que conseguia pegar sobre seu bureau...

"Mônaco, 15 de Maio de 1958

Amor,

você pode realmente ter me abandonado. Pode realmente ter me esquecido, mas uma coisa que aprendi é viver só, por mais que isso pareça melancólico, mantenho-me bem. Você desperdiçou a chance de sermos felizes, você desperdiçou a chance de nos amarmos. Eu fiz a minha parte. Você não correspondeu com a sua. A sua falta de força de decisão me leva a trilhar por caminhos que desconheço e que não sem onde darão... se é essa a sua decisão, se é essa sua escolha: a falta de escolha, então, a sorte está lançada. A sorte de você no futuro me ter ou me perder definitivamente. As minhas escolhas estão feitas, e é você; mas se amanhã ou depois chover, fazer Sol, vou ter que abrir o guarda-chuvas para me proteger, vou ter que tomar outras decisões que não serão as mesmas que estou tomando agora.

Mas se é assim que deseja, se é assim que mais uma vez quer, aceito a sua 'não-decisão' sem ressalvas. O dia que mudar de idéia, continuará tendo meus contatos; poderá me chamar. O único problema é que o tempo não pára...

L. Bartolomeu"


Xeque-mate. Até os mais rudes e fortes tem sentimentos. Quem era o 'amor' de Bartolomeu?!

* * * * * * *

O maître me chama em francês para uma chamada de Nice. Retiro-me.

- Alô?!
- Alô... c'est de Nice, je m'appelle Rodolph et je suis choufer de Madame Weiss, et je voudrais savoir quelle hotel est-ce que vous reservez?!
- Je reservé Dorchester Hotel...
- Ah, oui, je sais. Merci Monsieur, à bientôt.

Minha mulher estava perto. Poderia tirar a limpo com ela o desgaste e tudo mais.

Voltei ao apartamento de Clement pegar um casaco extra para ela; passei do bureau de Bartolomeu e dentro de The Old Man and the Sea dele, encontrei uma carta:

"New York, NY - 1° de maio de 1958

Sinto a sua falta... sinto falta de seus beijos, sinto falta de seus afagos, de seu cheiro, de seu suor, de seus mimos e carinhos... queria você aqui agora, mas não posso ter-te. Nossos eternos bons momentos, seu eterno amor a mim serão lembranças que não passarão de minha memória, não saem de minha cabeça, influenciam meu escrever, a roupa que visto, o meu falar com as pessoas. Você é o homem que me deu atenção, sobretudo, e soube me amar como nenhum outro. Teve coragem de dizer isso, ter coragem de manter isso quantas vezes fossem necessárias. Agora, você se foi e no meu viver se fazem vivas ainda tudo o que passamos juntos no Mediterrâneo. Amor, tenho medo de te perder, tenho medo que nunca mais volte; mas tenho medo de estarmos juntos, não sei se amo, as confusões em minha cabeça são ainda muitas e tenho medo de estarmos de volta, de nosso futuro, de nossos planos... mas saiba que você é a pessoa que considero em cada olhar nessa cidade...
Beijo no seu nariz, que amo...
Cuide-se
C.V.M.
PS: Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. "

Agora, quem se confundira ainda mais, era eu...


["Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." - Clarice Lispector]