O telefone e a aparelhagem chegaram cedo na manhã de 18 de maio de 1958. Liguei para o hotel e pedi para que ligasse para o quarto reservado para ela.
- Allô?!
- Olá, c'est Weiss, ma chérie...
- Oi, meu querido, como vai?! Soube do acidente hoje pela manhã, ia já te ligar.
- Parece que não é nada grave, apenas uma costela quebrada, rompimentos nos ligamentos...
- Credo...
- É, acontece... principalmente quando a mulher vai para Paris e te larga só...
- Não acredito que estás assim por minha causa, quanta besteira sua... devia sequer ter saído do baile para me receber...
- Talvez isso não tivesse acontecido...
- Verdade, verdade...
- Mas que o Rubens deveria entrar para o Mi6, isso devia...
- MI6???? mas como?!... (hesitação) o que é... o que é isso?!
- Nada...
- Bem, esse assunto está estranho, daqui a pouco falamos, beijos.
- Até mais...
Minha mulher tinha um ponto fraco... re-escutei várias vezes essa pequena conversa...
Quando chegou no hospital, travamos um diálogo frio, sem muitas delongas, e achei que ali era o fim... entre ela e eu, mas não foi...
A coisa mais importante do dia 18 de maio foi Rubens. Ele me surpreendeu e levando-me com uma das mais belas observações já feitas por um escritor amador. Forneceu-me um relato completo e detalhado sobre o que acontecera...
"18 de Maio de 1958, Monaco,
A corrida esperada começa e eu aqui estou. Na área de personalidades observo muitas pessoas importantes dos vários governos europeus, com destaque para as casas reais que estiveram presentes na festa do Príncipe. O Sol está intenso, mas sem óculos-de-sol pode-se observar tudo. Mantenho o meu por pura discrição. O meu alvo é Bartolomeu e Lady Katerine. Como os dois conseguiram se encontrar no baile, essa é a pergunta de Leonard quer que eu aqui responda a ele nessas poucas linhas.
Depois da largada, alguns carros se enroscam na primera curva, noto uma singela preocupação dos amantes da Ferrari, dado que a equipe Italiana não está muito bem... Maurice e Tony Brooks travam um duelo grande ao longo da corrida, com muitas paradas nos boxes e muitas abastecidas e trocas de pneus. Os 'charutinhos', como ficaram conhecidos os modelos de carros de corrida, correm bastante, levantando poeira e emoção para quem está na área VIP.
O curioso, nesse primeiro relato, é a não-presença de Bartolomeu. O jovem de cabelos castanho-avermelhados e branco na pele estava muito interessado na corrida em suas 30 primeiras voltas. Lá pela 33ª volta, ele sumiu. Tentei ter com ele. Mas isso foi de pouca serventia. Desci pelos toiletes e não encontrei, subi ao alambrado para verificar, e não encontrei. Notei muitas pessoas e dentre elas, Lady Katerine. Ela é formosa, tendo um belo par de pernas e um gosto exótico para roupas, sempre bem-coloridas e com um lenço no pescoço, de cor grená. Quando volto os meus olhos para a pista ver o acidente provocado por um retardatário, Katerine some aos meus olhos, assim que os volto para a arquibancada. Foi curioso notar isso, o sumiço de ambos.
Andando sem muito rumo pelo corredor que dá acesso às arquibancadas, noto nossos atores contracenando, algumas carícias, e quase um beijo, algo parece ser dito pela moça ao pobre rapaz, ele se afasta, passa as mãos aos olhos e dá-lhe as costas... a moça não entende nada, assim como eu..."
- Bem, está aí... tive que parar de escrever, a vitória de Maurice me lembrou que a metade do prêmio de 25.000 francos é minha!
- Que ótimo, Rubens, maravilhoso!
- Sim, o dinheiro é belo!
- Não, o relato seu... falta-me saber o que tanto assustou Bartolomeu...
- Realmente você é uma pessoa estranha. Quem se importa com ele?!
- Eu.
- Você?!
- Eu.
- Parabéns.
- Obrigado, mas quero mais favores, chame Bartolomeu aqui; sim, primeiro ele, depois ela...
- Ok, mas saiba que quero rever
Casablanca hoje.
- Não, com o prêmio você assiste até no estúdio, por favor, chame Bartolomeu.
Segundo os relatos de Rubens, após ele deixar o Hospital, ele foi ao apartamento de Clement, com dificuldade, as ruas de Mônaco estavam ainda cheias pela comemoração da vitória francesa em Mônaco. Quando chegou no apartamento, alguns papéis no lixo e nenhum vestígio de Bartolomeu mais no quarto... ele havia sumido misteriosamente.
- Como misteriosamente?!
- Não consegui identificar nada. Guardei os papeis para você depois analisar. Parecem ser cartas. Um pouco meladas de café, mas são cartas...
Algumas consegui identificar como aquelas que tinha lido, mas nada além disso... já eram 17h e muito da bagunça continuava. Conversamos durante mais umas 5h e ficou tarde para trazer Katerine ao hospital. Tinha vacilado. Demorei para tomar uma decisão que poderia ter resolvido todo o mistério da saída desmotivada, aparentemente, de Bartolomeu... por que fugiste?!
* * * * * * *
Dormi e só acordei às 10h do dia 19. Algumas coisas novas haviam ocorrido. Clement entra no meu quarto com dois oficiais da Marinha inglesa. Alerta-me que minha mulher está em sério perigo. Não imaginava nada além de ter acontecido algo a sua saúde e entro em pânico quando me é noticiado isso. Clement me conforta. Diz-me que minha mulher está
traindo o Ocidente e que era preciso calma...
- Relax?! How?! You've ccome to my room and tell me that my wife is bertraying me?! West?!
- Yes... you're wife is a spy...
Uma espiã... bem, bem que ele hesitou na brincadeira que fiz de Rubens sobre o MI6... ela estava agindo contra alguém, mas Clement não tinha informações. Como tinha chegado a essa conclusão?!
Outro acontecimento foi a visita de Katerine...
- O que aconteceu com o Sr?! Fiquei sabendo de um atropelamento!
- Sim, fui atropelado, tive problemas com minha mulher e perdi a atenção.
- Que trágico!
- Decerto. Fiquei sabendo que esteves no baile e na corrida... gostou?!
- Para falar a verdade, nem assisti a corrida, tive alguns problemas...
- Quais?!
- Não são importantes...
- Se deixou de ver a corrida e comentou comigo, devem incomodar...
- Sim, incomodaram-me...
- E o que vem a ser?!
A expressão de desânimo era grande, mas a vontade em se confessar era maior...
- Nunca fui boa amante ou namorada... tenho meus problemas pessoais.
- Bem, todos nós temos, o que nos move é a força de vontade de vencê-los.
- Sim... é que... é que....
- Sim...
- Eu gosto de você...
- De mim?!
- Sim, apesar de casado, eu gosto de você, admiro sua cultura e inteligência...
- E Bartolomeu?!
Saiu sem querer, mas foi...
- Quem?!
- Bartolomeu... não o conheceu?! Disse sobre você... - Tive que mentir.
- Disse?! Onde ele está?! Ele sumiu da cidade...
- E eu?! Dizia que gostava de mim, vejo que o interesse é passageiro ou algo como um PLANO B, deveras...
- Desculpe, pareceu isso, mas não foi a intenção...
- Mas aconteceu. Na vida é assim: você magoa as pessoas sempre, sem querer, você me magoou. Eu entendo e perdoo você; mas você queimou a largada.
- É... sim, queimei...
- Onde está Bartolomeu?!
- Pensei que soubesse, não está com você?!
- Não, não está, sumiu da cidade, não disse ainda pouco?!
Sim, disse... a verdade mesmo era que eu era o plano B e sempre notamos isso, de uma forma ou de outra. Para mim, pouco importava. Apesar das belas pernas e rosto, e o fato de ser solteira; o 'queimar a largada' era ponto-chave: ninguém gosta de ser considerado um plano de escape da curva. Sentia assim. Como disse, tinha minha mulher, e mesmo ela sendo a mau-caráter que se averigou, gostava dela - possivelmente ela, estava me usando de outra forma, alguma forma profissional e não daquela Lady, que me usava a fim de choramingar o que não conseguiu com Bartolomeu. Mas ainda era cedo para chegar às conclusões corretas... tinha que ler mais para saber quem era Lady Katherine e porque Bartolomeu fugira de Mônaco.
Tomei três iniciativas: uma foi ter com Clement uma conversa que consistiu em usar seus conhecimentos de Interpol. Era amigo de alguns policiais que trabalhavam nas sedes de Lyon e de Vienna, podia saber porque minha mulher era espiã. Outra foi ler os papeis de Bartolomeu que Rubens me trouxera. E a final, era conhecer Katerine. Alguma coisa estava relacionada.
Depois dessa longa conversa com Katerine a tarde, do encontro com Clement sobre minha mulher e a Interpol e mais papeis que Rubens me trouxera, fui dormir... tudo era um jogo, e precisava de muita calma e descanço para montar todo o quebra-cabeça...
Na manhã do dia 20 de Maio, novas revelações, Clement entra no meu quarto com novidades...
[Centre Hopitalier de Monaco - Depois batizado como Hospital Princesa Grace, em homenagem a esposa de Rainier III, morta em 1982, num acidente de carro]