One's philosophy is not best expressed in words; it is expressed in the choices one makes. In the long run, we shape our lives and we shape ourselves. The process never ends until we die. And, the choices we make are ultimately our own responsibility.
[Eleanor Roosevelt, Roosevelt's wife]
Depois de sair do Café, minha esposa veio a minha mente. Não conseguia imaginar o que Clement me dizia... estava confuso. Fui ao Hall do Hotel da esquina e fiz uma reserva para ela assim que ela chegasse de Paris. Paguei e mandei o motorista do Hotel pegá-la em Nice. Queria conversar com ela a sós. Na volta, via uma Igreja, entrei...
Fiz o sinal da cruz e ajoalhei-me num dos bancos. Comecei a Ave maria... mas desisto no meio... pensava nela. Ela era minha fortaleza que me fazia forte para protegê-la de tudo, de todos... não imaginava isso, ela, de mim. Era doce, mas estava me tornando diabético com isso! Depois de dois anos de casados, as lembranças boas vinham a tona, do nosso namoro, de nossos bons momentos juntos no pequeno Citroën de seu pai em Paris... a noite da cidade nunca deixava de nos acolher, de permitir que minha boca pregasse junto a dela, que minhas mãos escorregassem sobre suas pernas, sobre suas costas, enquanto meu rosto viajava pelo seu pescoço e busto beijando-lhe, enquanto o respirar dela tornava-se sonoro aos meus ouvidos, enquanto ela retorncia-se pelas minhas carícias e mimos no banco traseiro do carro, e me acariciava com prazer e vontade, me consumindo, assim, como eu, ela... as janelas 'suadas' pelo vapor de nossos corpos em chamas cobriam e resguardavam nosso contato íntimo... lembrava-me disso como se fora ontem... tinha saudades disso... combinávamos... tentei várias vezes isso nos últimos meses, mas em vão... estava fria comigo... teria cansado de mim?! Perdia os pensamentos por alguns instantes... pensava em céus, azuis infinitos em minha mente... tinha perdido a vontade de pensar nessas boas lembranças, pois para mim, eram parte de um passado que não mais me pertencia... minha mulher tornava-se outra...
Sai da Igreja... fui ao apartamento de Clement... lá estava Rubens, pronto e muito elegante para o almoço com o Príncipe. Iniciei um diálogo...
- A viagem de ontem fora dura... muito cansativa...
- Duro é perder o que não se tem, olha aqui, aquele seu amigo de uma figa me extraiu toda a grana que devia ter para pagar o restante do carro... estou possesso com isso, terei que trabalhar mais horas extras para aquele desgraçado nadar em meu dinheiro!
- Calma, Rubens, tudo tem seu tempo... aposto que serás amigo de Bartolomeu como eu sou o dele... as decisões mudam de acordo com o ambiente e tempo.
- Não vou mudar nada e dane-se ele, ok?!
Deu-me os ombros e fora para o quarto ter com Clement os últimos acertos para o almoço. Bartolomeu, no banheiro de sua suíte, estava também terminado de se aprontar. Fui ter com ele a conversa inaugural...
- Elegante! Pareces que vai até encantar uma donzela!
- Já encantei algumas, isso não é tanto o problema. A maior das problemáticas é que as mulheres tem um tempo que a maior parte dos homens não está disposta a aceitar para a espera, daí, finda-se um excelente relacionamento.
- Poderia explicar com maior cuidado?!
- Assim: você se apaixona por uma pessoa, entrega-se a ela, e mesmo assim, ela não te corresponde... nós sabemos do que estamos falando. E o que acontece, quando damos uma, duas, três chances, desistimos, e sabe por que desistimos?! Porque o desgaste é grande e um homem não é capaz de sofrer desgastes quanto uma mulher. Isso é biológico e uma hora estouramos, libertamo-nos. Cada homem possui esse tempo e a disposição a se desgastar, de acordo com a paixão que possui. Eu, por exemplo, sou de pouca duração...
E eu, de muita... que droga! Ele sabia de coisas incríveis mesmo sendo uma pessoa tão anti-social e arrogante, era muito observador.
- O que representa um 'estouro'?!
- Representa o fim. Representa que você, por mais apaixonado que esteja, está de saco cheio de tudo, uma força de dentro diz isso. As mulheres tem a faca e o queijo nas mãos com os homens apaixonados, mas mesmo assim, preferem os que não as amam... é um drama cruel que os livros não descrevem, esqueça esses romantismos e obras esdrúxulas, não te levam a nada... apenas a sofrimento de imaginar que alguém pode te salvar. O primeiro e mais importante pecado é a 'sinceridade', o dia que for sincero com uma pessoa que disse que não te ama, sofrerás, por culpa própria.
Bartolomeu tinha uma sinceridade pétrea comigo. Tinha uma verdade que tocava-me profundamente em nossos diálogos. Sentia-me que estava sendo aconselhado por um amigo de longa data, que conhecia Emmanuelle, que conhecia a mim e o nosso casamento. Será que apenas eu não enxergava isso?! Será ele, apenas ele que conseguia ter o distanciamento ncecessário para me aconselhar em tão grande estilo?! Sofria. Sofria bastante com toda essa situação embaraçosa. Mas uma coisa de diferente de "Noites Brancas" era que eu não me fazia de vítima. Tinha uma parcela de culpa pelos meus mimos excessivos a minha mulher desde o início e que ela não foi capaz de compreender que eram de bom agrado pela sua presença. Ela ignorava isso.
Após a leve reflexão, fomos ao almoço com o Príncipe Rainier. A mesa gigantesca, contando com várias personalidades do velho continente davam o tom de que seria o dia 16 de maio de 1958: um dia da aristocracia européia. Dava-me um pouco de nojo aquilo tudo; os assuntos eram interessantíssimos: o caso de Anna O. e o Dr Breuer, amigo do avô de Freud; a Psicoterapia de Carl Jung e a briga teórica com Freud, os novos conceitos de Animas e Animus; o cinema e a atuação da Princesa e atriz Grace Kelly em seu último filme High Society, de 1956; a Política britânica para com a partilha da África; a doença do Papa Pio XII; além da possível entrada do Gen. de Gaulle para a Política Francesa e os impactos disso sobre a soberania do Principado e a mudança da Política americana para com o mundo, expressa nas ações de Eisenhower.
Mas eu tinha tantos problemas na minha cabeça que não suportava conversar com todos e os verdadeiros assuntos que me chamavam a atenção estavam pairando sobre minha cabeça, sem saída, tentando encontrar alguém que eu possa desabafar... Mas não... Ficavam ali, cerrados em minha cabeça.
A única coisa que tinha para me distrair eram duas coisas que na verdade eram uma: Bartolomeu e suas conversas pertinentes, motivadas e bem argumentadas com todos na mesa; e um outro papel branco que conseguia pegar sobre seu bureau...
"Mônaco, 15 de Maio de 1958
Amor,
você pode realmente ter me abandonado. Pode realmente ter me esquecido, mas uma coisa que aprendi é viver só, por mais que isso pareça melancólico, mantenho-me bem. Você desperdiçou a chance de sermos felizes, você desperdiçou a chance de nos amarmos. Eu fiz a minha parte. Você não correspondeu com a sua. A sua falta de força de decisão me leva a trilhar por caminhos que desconheço e que não sem onde darão... se é essa a sua decisão, se é essa sua escolha: a falta de escolha, então, a sorte está lançada. A sorte de você no futuro me ter ou me perder definitivamente. As minhas escolhas estão feitas, e é você; mas se amanhã ou depois chover, fazer Sol, vou ter que abrir o guarda-chuvas para me proteger, vou ter que tomar outras decisões que não serão as mesmas que estou tomando agora.
Mas se é assim que deseja, se é assim que mais uma vez quer, aceito a sua 'não-decisão' sem ressalvas. O dia que mudar de idéia, continuará tendo meus contatos; poderá me chamar. O único problema é que o tempo não pára...
L. Bartolomeu"
Xeque-mate. Até os mais rudes e fortes tem sentimentos. Quem era o 'amor' de Bartolomeu?!
* * * * * * *
O maître me chama em francês para uma chamada de Nice. Retiro-me.
- Alô?!
- Alô... c'est de Nice, je m'appelle Rodolph et je suis choufer de Madame Weiss, et je voudrais savoir quelle hotel est-ce que vous reservez?!
- Je reservé Dorchester Hotel...
- Ah, oui, je sais. Merci Monsieur, à bientôt.
Minha mulher estava perto. Poderia tirar a limpo com ela o desgaste e tudo mais.
Voltei ao apartamento de Clement pegar um casaco extra para ela; passei do bureau de Bartolomeu e dentro de The Old Man and the Sea dele, encontrei uma carta:
"New York, NY - 1° de maio de 1958
Sinto a sua falta... sinto falta de seus beijos, sinto falta de seus afagos, de seu cheiro, de seu suor, de seus mimos e carinhos... queria você aqui agora, mas não posso ter-te. Nossos eternos bons momentos, seu eterno amor a mim serão lembranças que não passarão de minha memória, não saem de minha cabeça, influenciam meu escrever, a roupa que visto, o meu falar com as pessoas. Você é o homem que me deu atenção, sobretudo, e soube me amar como nenhum outro. Teve coragem de dizer isso, ter coragem de manter isso quantas vezes fossem necessárias. Agora, você se foi e no meu viver se fazem vivas ainda tudo o que passamos juntos no Mediterrâneo. Amor, tenho medo de te perder, tenho medo que nunca mais volte; mas tenho medo de estarmos juntos, não sei se amo, as confusões em minha cabeça são ainda muitas e tenho medo de estarmos de volta, de nosso futuro, de nossos planos... mas saiba que você é a pessoa que considero em cada olhar nessa cidade...
Beijo no seu nariz, que amo...
Cuide-se
C.V.M.
C.V.M.
PS: Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. "
Agora, quem se confundira ainda mais, era eu...
Agora, quem se confundira ainda mais, era eu...

["Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." - Clarice Lispector]