Sunday, September 23, 2007

Fly me to the Moon...

A suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados
[Victor Hugo]

Antes de discar o número, abri cuidadosamente o papel branco, a fim de não rasgá-lo, e com uma tinta preta forte, li o seguinte texto:

"O que me faz ser humano é fazer o que me diverte. O que me leva a fazer o que me diverte é o pulsar de minha veia. O que faz pulsar o sangue em minhas veias é um coração que bate. O que faz um coração bater é a emoção de viver bons momentos...

Não tenho emoções..."

Era um jogo de palavras e construções lógicas que tinham um fundo moral: ele tinha pouco a ver com um ser humano, ou se considerava um não-humano. Talvez pela frieza, talvez pela força de superar tudo e todos. Era Bartolomeu.

Disquei para a telefonista e ela me passou para Paris, o telefone no quarto de Emmanuelle, no apartamento dos seus pais.

- Bonsoir, chèrie, c'est moi, Leonard...
- Salut, mon chèr, ça vá?!
- Non! tu ne s'est pas renvoyé de moi... Eu sinto sua falta!
- Sinto também sua falta... queria estar em Monaco com você...
- Venha para cá, amor, há quartos suficientes na casa de Clement e amanhã teremos a cerimônia do Príncipe para ir...
- Não sei... não estou muito certa de ir...
- Poucas vezes esteve certa juntos! Você tem que ter em mente que perde importantes encontros com tanta indecisão... se me amas, tem de vir...
- Amo muito, muito, muito você, completa minha pessoa, és a pessoa ideal para continuar toda minha vida: você está sempre por perto cuidando para que nunca eu esteja para baixo e querendo meu bem, poucas pessoas em minha vida tiveram tanto esmêro por mim, amor...
- Mas não vens! Arrume tuas malas, passe pelo menos o baile ao meu lado!
- Ah sim, o baile! Vou então preparar minhas coisas e tentar chegar em Monaco por avião na tarde de hoje... mas agora, são 1h, tenho que dormir....
- Boa noite, linda, vejo-te amanhã...

Era uma conversa doce, como viste... era a última conversa doce...

Após a conversa com minha mulher, fui a sala-de-estar em penumbra. Um tapete persa quadrangular longo e pesado forravam o chão de madeira, alguns lustres à século XIX iluminavam das paredes onde se encontravam ao meio da sala. A pequena mesa, no centro do grande tapete, era rodeada de um canapé grande e umas cinco cadeiras à la Luis XIV. No fundo, havia uma biblioteca com livros de psicologia, economia, história natural, artes, sobretudo o movimento impressionista, o qual Clement adorava. Mas havia sobre o fauvismo, sobre o cubismo e também sobre o movimento de Salvador Dali, o surrealismo. Ainda, notava os livros de Gaetano Mosca, Teoria das Elites, sobre Ciência Política; e Wilfredo Pareto, Trasformazione della democrazia, em italiano.

Clement era um burguês típico, um aspirante a político britânico, apesar de ter nascido na Alemanha. Amigo de Winston Churchill, primeiro-ministro britânico na II Guerra e Prêmio Nobel em 1953, e da alta cúpula do Partido Liberal Britânico. Era um homem versátil. Conhecia a Rainha Elisabeth II, desde sua coroação, em 1952, ainda quando a mesma participava nas forças de resistência britânica, como enfermeira. Havia, a direita da biblioteca, fotos em um aparador que comprovava isso - o bom relacionamento dele com o poder da Ilha de Sheakspeare... à esquerda, um brasão de armas da família real, numa bandeira, e mais a esquerda, nesse mesmo fundo e abaixo da penumbra criada pelo pequeno lustre de luz fixado na parede, havia uma cristaleira, para onde me dirigi. Algumas bebidas, e lá, meio companheiro de 12 anos. Servi-me, sem gelo.

Sentei numa cadeira de leitura, com um pequeno iluminador de pé a minha esquerda. Retiro meus sapatos, com os pés, e relaxo desafroxando minha gravata. Após um leve gole, abaixo minha mão direira com o copo, e levo minha mão à cabeça. Chega Clement na sala...

- Tired?!
- I think so.
- Rubens is worried about game... he said to me that he needed the money. So, I lent some to him.
- He neeeds give value to things... he gets things very easy and it's so difficult to him give value to little things...
- You want tell me about?!
- About what?!
- I don't know, but you are a little annoyed... it's Emmanuelle?!
- No, she'll come tomorrow, errr... today, in the afternoon.
- And so... it could be Bartolomeu?!
- More or less... I don't think how a man is so cold, like him... he doesn't have girlfriend, friends, he is a man that walk alone... it's sad.
- Leonard, there are people that love to do this, it does him happy, but I don't sure about... An possible answer to our doubt is test him.
- Test him?!
- Yes, test him.
- How?!
- If he is an alone guy, maybe you could put a person in his life...
- A woman?!
- A complex woman. An enigmatic woman, a good player to his strategies, man! Like... like... your wife!

Sim, Clement era assim. Começava quieto, com idéias mediocres e vinha com grandes loucuras que faziam ele pular do chão e ter um prazer quase que sexual com o nascimento de suas teorias... Mas o que seria que ele estava dizendo?!

- A player?!
- Hmmm... not exactly, but I think she could be a more lovely woman with you.
- Ok, but give me another example...

Não gostava que falassem de minha mulher, até mesmo Clement. Eram problemas nossos, apesar de concordar com ele... desde que nos casamos, seu ego consumia minha alma e, apesar de todos os momentos bons, tinha me desgastado bastante... o que poderia ter sido amainado com maiores mimos, talvez como os que a mulher de Clement dava a ele... sentia que poderíamos ir além, talvez, se ela fosse além, se ela se soltasse, se ela tivesse realmente me amado.

- I don't know, Leonard. You must find one. Now, I'll go to bed, it's a quarter to three and we have a great party afternoon... don't we?!
- Yes... I'll go too... good night.

Mais uma questão para mim: encontrar uma mulher complexa para Bartolomeu, além de responder a questão principal - o que levava Clement dizer isso de minha mulher?!

* * * * * * *


Acordei. Estava dormindo ainda na cadeira de leitura e meu drink ainda estava no copo. Atrasava-me para o café com Lady Kathy. Tinha de ser ágil para chegar ao Café Paris...

Cheguei no Café. Aguardo um pouco. Na bancada do Café, um homem trajado a passeio serve os clientes da mesma. Sempre com um francês muito culto e gentil. Algumas mesas estavam cheias, com gente de todos os tipos. Ao fundo, Frank Sinatra canta, numa vitrola, Fly me to the Moon...

Fly me to the moon
Let me play amoung the stars
Let me see what spring is like
On jupiter and mars

In other words, hold my hand
In other words, baby kiss me

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore

In other words, please be true
In other words, I love you

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore

In other words, please be true
In other words
In other wordsss, I love you


Na bancada de madeira de lei, haviam alguns charutos cubanos, e resolvo acender um. Durante o processo, chega Katerine. Jogo o charuto na lixeira.

- Bom dia, Srta.
- Bom dia.
- Eis aqui meus livros.

Com dois exemplares distintos, Miss Katerine examina com cuidado o livro.

- Psicológicos... fizeste curso de Psicologia?!
- Não, sou economista pela London School of Economics; mas tive contatos com Freud, além de seu amigo Karl Jung... apesar de ser adepto do behavionismo americano, de Skinner, tenho essa relação com essas novas escolas, a Psicoterapia e a Psicanálise.
- Hmmmm... o Sr é um homem sabido nisso. Seus livros devem ser um desafio de serem lidos.
- Escrevo por metáforas, o que torna a leitura por demais cansativa e prolixa. Mas não há certo ou errado nessa área, o que permite se escrever sobre com liberdade... nem estamos falando de ciência... Popper assim criticava as teorias da psicologia: ausência de hipóteses falseáveis, ausência de hipóteses que podemos por a prova...
- Sim, para a economia, deveras, Popper faz críticas contundentes a Marx, ouvira dizer...
- Tens um conhecimento ímpar, jovem Lady Kathy... certamente deveria ter um par a altura...
- Uma parceria?!
- Uma parceria para trabalhos é bem-vinda para comigo, mas, sobretudo, uma mulher de seu linha deveria ter um par amoroso a sua altura...
- Galanteador o Sr... não me disse que eras casado?!
- Sim, mas não falo diretamente de mim... talvez alguém possa lhe ser interessante... o baile do Principe sempre é de grande valor para isso, pessoas novas e cultas; deverás tomar cuidado com os burgueses que se fingem de intelectuais por ter apenas um Monet em casa; ou, ainda, aqueles sabem, mas o fazem não por prazer, mas apenas para se sobresair entre os demais, tendo pouco valor intrísseco.
- O Sr está traçando um perfil de homem interessante... devo admitir... será que conseguirei a minha idade também?!
- É uma das coisas mais importantes, deverás... não desejarás ter em companhia velhos que não apreciam o mesmo gosto de música ou autores, por ser de épocas diferentes...
- É uma proposta tentadora, vosso perfil!

Depois de muito conversar, de muito saborear os chás que Lady Kathy sabia ter como escolha, e falar mais de livros, consegui um achado: apresentar Bartolomeu para Lady Kathy. Era a mulher que conseguiria incluir na vida de Bartolomeu; era o homem perfeito para Kathy, tão culto quanto e ainda, solteiro e de mesma idade... será que aquela mulher conseguiria amolecer os sentimentos de Bartolomeu?! Será que ele deixaria ela entrar na sua vida?!...

- Sim, que tal nos encontrarmos no baile para continuarmos convarsando sobre?! Por sinal, agora, tenho que ir... preciso ter um almoço com o Principe no Palácio.
- Claro, foi um prazer tê-lo em minha companhia. Apreciarei vossos livros e entregarei em breve os comentários...

Despedimo-nos. Agora, era preparar o terreno com Bartolomeu no almoço...

[Café Paris, Monte Carlo - Mônaco]