Sunday, March 11, 2007

O último Tango em Paris

Era mais um dia daquelas aulas, não qualquer aula, mas a aula de que tanto Tom gostava, a de dança. Tom era moleque. Tinha 15 anos e estudava, saia-se muito bem em qualquer exame, fazia tudo com tanto esmêro que às vezes assustava os colegas. Tinha uma paixão, platônica, dessas que nem mesmo a guria sabe. Pertencia totalmente ao seu mundo, ao das suas idéias imaginárias.


Mas era o dia. O dia de mostrar a professora o quanto Tom dançava a mais que os demais colegas. Será que ele dançava mais? Bem, Tom não tinha dúvidas de que era o melhor em tudo o que fazia. Era apenas o melhor, nada a mais. Mas guardava para si isso. Não precisava mostrar a ninguém, exceto quando de fato era chamado para mostrar, e esse era o dia.


Como de costume, chamava sua companheira de dança. Bonita, muito bonita, mas que não despertava gosto em Tom. Amigos, como de praxe, invejavam sua posição. Tom, não. Após o espetáculo que mostrou aos colegas dançarinos, Tom sai de cena e no caminho ao toilete, encontra outro professor que vira sua apresentação.


'- Tom, você está cada vez melhor. Em breve poderá inclusive a almejar um posto de instrutor aqui no centro. ' Tom, orgulhoso dos elogios, retruca.'- Sim, mestre, é o que dizem, mas tenho uma dúvida cruel que não me deixa.' O Professor pergunta qual é a dúvida e Tom revela: 'O Sr tem alguma inspiração ao dançar?'. O interlocutor dá uma risada de leve, sabendo da astúcia a quem se dirigia: 'Dançar é uma arte. E como toda arte há inspiração. Você está certo. Infeliz do homem que não se inspira em nada, pois nada faz com esmêro. Eu sei que você tem uma inspiração, é clara no seu formalismo com a dama, no palco, você dança como se dançasse só, mas com uma condução perfeita da dama.'


Após uma longa conversa sobre o assunto e sobre a inspiração de Tom no palco, os dois descem a escada do centro e caminham em direção a secretaria. E nesse tempo, aparece a Joana de Tom. Não dançava, mas admirava. Estava ali apenas para acompanhar uma amiga que estava prestes a sair de sua apresentação. O professor deixou os dois rapidamente, ao perceber que era quem Tom amava. Tom, ali, resolveu dar início a mais dura de suas apresentações, a de falar com Joana a verdade.


Após algum tempo, despedem-se... Frio, Tom sobe as escadas, vai ao seu armário, busca seu paletó, dá um nó apertado na gravata e vai ao palco em mais uma de suas apresentações, a última da noite e talvez a última no centro como aluno. Aspirava com vigor ao posto de instrutor. Sobe ao palco, com cuidado e cálculo. Pede a música. A que sintetiza todos os seus sentimentos - Por una cabeza. Começa a música. Erra passos. Muitos. Mas ainda sim era superior aos seus colegas. Era realmente o melhor. E ousado. Termina o Tango numa figura rara, salvando toda a apresentação. Mas aconteceu o que acontece aos mortais: a dificuldade do passo lhe conferiu uma eterna dor em seu pé. Não a sentiu. Ao fim do último som, ele desaba de dor, uma dor no pé direito, que nunca mais lhe permitiu dançar. Era de fato o seu último Tango.