"Todo homem morre; mas nem todo homem vive..."
Doença de Wilson. Quando cheguei ao Hospital na manhã do dia 6 de novembro, recebi a notícia de que meu Tio Weiss tinha falecido por uma doença rara, talvez incurável até hoje. Desde 1978, vivi só durante muito tempo. Senti falta da figura paternal de Leonard escrevendo na IBM dele em nosso apart em NYC... de suas saídas silenciosas pela manhã para camninhar no Central Park, aqui na 5ª avenida, e depois, acordar com o barulho do chuveiro de seus banhos matinais para, depois, sentar na cadeira e voltar a escrever seus livros. Não eram bons, sabia que não seriam publicados, mas incentivava ele.
Nunca disse isso, mas seus livros tinham um conteúdo sem drama, sem aventura, sem força motriz que me levasse a ler cada vez mais ele... Ele nunca escreveu nada sobre sua vida, apenas essas notas que aqui publico e suas memórias no sanatório (um dia a serem publicadas), e cuidou de mim durante os desessete anos precedentes, de 1958 a 1973... tive que me virar, tive que buscar minha mãe sozinha, não consegui... mudou de nome e nunca se casou... tive que escrever livros desmotivados e que me feriam, pois eram o leque que estava abrindo para todos os que folheavam e liam as páginas marcadas de meu sangue, do sangue de meus parentes e de meus amigos.
As boas lembranças dele sempre ficaram guardadas comigo. Sinto não ter sido mais solícita, não ter sido mais carinhosa, não ter acreditado mais na sua figura como meu protetor, de uma pessoa que realmente me amava, com todas as letras, os sons, os fonemas, e toda a poesia necessária para me encantar, e, que, eu não me encantei... encantei-me com seus gestos, com sua alegria, com seu positivismo, com sua força de viver na maca, tentando me mostrar que ainda demente era uma pessoa que acreditava na vida e na suplantação dos obstáculos, mas disso, aprendi, ele herdou de meu pai biológico.
A amizade de meu pai, Bartolomeu, com Weiss tornou esse último uma pessoa admirável. Bartolomeu com sua frieza transformou-se também. Meu pai fora pior, segundo relatos e cartas de minha mãe, que herdei de Weiss após ter sido internado no Hospital. Analisei os escritos e notara que era uma pessoa apaixonada por minha mãe, mas que essa não lhe correspondia a altura. Por que Bartolomeu não era o homem ideal?! Por que Bartolomeu era frio?! Por que Bartolomeu era feio?! Creio que não. Creio que por medo. Creio que por covardia. Creio que por força de vontade em ser feliz...
Digo isso por experiência própria. Ao largar Rubens, uma pessoa apaixonada por mim durante os tempos em que vivi no Brasil com meu Tio, tive arrependimentos. Escrevia sem parar em meus diários, a fim de ninguém ver meus sentimentos reprimidos e devastadores sobre a besteira que eu fiz. Mas passou. Rubens se casou, foi ser feliz bem longe de mim. Sequer quis contato. Morri para ele. Casei-me com o primeiro que me apareceu, logo depois. Foi frustante. Foi frustante saber que uma pessoa te amava tanto, que era capaz de dar a vida por você, mas que a que você dá a sua vida, quando se casa com ela, não daria sequer uma rosa colhida no jardim do Central Park para você... Perdi uma oportunidade, errei como minha mãe errou. Procurei por mais duas vezes o caminho da felicidade, naufraguei nas duas. Vivo hoje a deriva.
Se for genes, devo estar perdoada. Se for por falta de sabedoria, também. Mas se for por covardia, não me perdoaria nunca. Evito pensar sobre para não me convencer sobre isso. Quando a culpa é nossa, a carga torna-se um fardo enorme sobre nossos ombros de forma que não mais vivemos com essa culpa eterna. Vivo assim.
Fiquei triste demais. Sai do hospital e fui caminhar, sentei num banco qualquer. Contei isso tudo a um velho homem, oriental, baixo, de cabelos brancos, barba branca, e de olhos tão fechados que sequer via sua pupila. Ele virou-se para mim, tomou minhas mãos, fez um esforço sobrecomum para abrir as pálpedras, e lá, vi os olhos pretos e cansados daquele homem, veterano de guerra, na pracinha do Parque Central:
- Há duas coisas na vida que devemos aprender: uma é viver, outra é morrer. Morrer é saber fechar as portas, é saber ter coragem para para dizer 'não' para as oportunidades; e para que fechamos as portas?! Para abrir outras. Esse é o viver. Abrir portas. Uma aberta corresponde a uma fechada. Um 'talvez' não significa um 'não', mas o tempo costuma interpretar como tal. Se você reclama da morte de muitas pessoas, é porque quis abrir outras portas; quis viver de outra forma. Mas lembre-se: todo homem morre, mas nem todo homem vive...
Larguei suas mãos e continuei a caminhar... confesso que nunca entendi o real significado daquela fala...
Hoje, dia 8 de novembro de 2007, estou com 66 anos, os cabelos ruivos já não mais são tão ruivos, fio brancos são abundantes; meus olhos ficaram ainda menores; algumas marcas de expressão se tornaram inevitáveis também; meu pescoço passou a ter marcar singelas também, contrastando com força dos diamantes imutáveis que Weiss me presenteou... sinto-me mais velha do que a idade me diz, sinto que os atalhos que tomei para fugir dos caminhos que considerava difíceis tonaram minha vida mais rápida, mais frugal, mais entediante... sinto falta da aventura de meu pai, sinto falta de Rubens, sinto falta de Weiss, sinto falta de fazer coisas grandes, como traçar um grande plano marítimo e dobrar um Cabo, sinto falta de depois saber que vou morrer de velhice, mas não de aventuras...
Nunca disse isso, mas seus livros tinham um conteúdo sem drama, sem aventura, sem força motriz que me levasse a ler cada vez mais ele... Ele nunca escreveu nada sobre sua vida, apenas essas notas que aqui publico e suas memórias no sanatório (um dia a serem publicadas), e cuidou de mim durante os desessete anos precedentes, de 1958 a 1973... tive que me virar, tive que buscar minha mãe sozinha, não consegui... mudou de nome e nunca se casou... tive que escrever livros desmotivados e que me feriam, pois eram o leque que estava abrindo para todos os que folheavam e liam as páginas marcadas de meu sangue, do sangue de meus parentes e de meus amigos.
As boas lembranças dele sempre ficaram guardadas comigo. Sinto não ter sido mais solícita, não ter sido mais carinhosa, não ter acreditado mais na sua figura como meu protetor, de uma pessoa que realmente me amava, com todas as letras, os sons, os fonemas, e toda a poesia necessária para me encantar, e, que, eu não me encantei... encantei-me com seus gestos, com sua alegria, com seu positivismo, com sua força de viver na maca, tentando me mostrar que ainda demente era uma pessoa que acreditava na vida e na suplantação dos obstáculos, mas disso, aprendi, ele herdou de meu pai biológico.
A amizade de meu pai, Bartolomeu, com Weiss tornou esse último uma pessoa admirável. Bartolomeu com sua frieza transformou-se também. Meu pai fora pior, segundo relatos e cartas de minha mãe, que herdei de Weiss após ter sido internado no Hospital. Analisei os escritos e notara que era uma pessoa apaixonada por minha mãe, mas que essa não lhe correspondia a altura. Por que Bartolomeu não era o homem ideal?! Por que Bartolomeu era frio?! Por que Bartolomeu era feio?! Creio que não. Creio que por medo. Creio que por covardia. Creio que por força de vontade em ser feliz...
Digo isso por experiência própria. Ao largar Rubens, uma pessoa apaixonada por mim durante os tempos em que vivi no Brasil com meu Tio, tive arrependimentos. Escrevia sem parar em meus diários, a fim de ninguém ver meus sentimentos reprimidos e devastadores sobre a besteira que eu fiz. Mas passou. Rubens se casou, foi ser feliz bem longe de mim. Sequer quis contato. Morri para ele. Casei-me com o primeiro que me apareceu, logo depois. Foi frustante. Foi frustante saber que uma pessoa te amava tanto, que era capaz de dar a vida por você, mas que a que você dá a sua vida, quando se casa com ela, não daria sequer uma rosa colhida no jardim do Central Park para você... Perdi uma oportunidade, errei como minha mãe errou. Procurei por mais duas vezes o caminho da felicidade, naufraguei nas duas. Vivo hoje a deriva.
Se for genes, devo estar perdoada. Se for por falta de sabedoria, também. Mas se for por covardia, não me perdoaria nunca. Evito pensar sobre para não me convencer sobre isso. Quando a culpa é nossa, a carga torna-se um fardo enorme sobre nossos ombros de forma que não mais vivemos com essa culpa eterna. Vivo assim.
Fiquei triste demais. Sai do hospital e fui caminhar, sentei num banco qualquer. Contei isso tudo a um velho homem, oriental, baixo, de cabelos brancos, barba branca, e de olhos tão fechados que sequer via sua pupila. Ele virou-se para mim, tomou minhas mãos, fez um esforço sobrecomum para abrir as pálpedras, e lá, vi os olhos pretos e cansados daquele homem, veterano de guerra, na pracinha do Parque Central:
- Há duas coisas na vida que devemos aprender: uma é viver, outra é morrer. Morrer é saber fechar as portas, é saber ter coragem para para dizer 'não' para as oportunidades; e para que fechamos as portas?! Para abrir outras. Esse é o viver. Abrir portas. Uma aberta corresponde a uma fechada. Um 'talvez' não significa um 'não', mas o tempo costuma interpretar como tal. Se você reclama da morte de muitas pessoas, é porque quis abrir outras portas; quis viver de outra forma. Mas lembre-se: todo homem morre, mas nem todo homem vive...
Larguei suas mãos e continuei a caminhar... confesso que nunca entendi o real significado daquela fala...
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Hoje, dia 8 de novembro de 2007, estou com 66 anos, os cabelos ruivos já não mais são tão ruivos, fio brancos são abundantes; meus olhos ficaram ainda menores; algumas marcas de expressão se tornaram inevitáveis também; meu pescoço passou a ter marcar singelas também, contrastando com força dos diamantes imutáveis que Weiss me presenteou... sinto-me mais velha do que a idade me diz, sinto que os atalhos que tomei para fugir dos caminhos que considerava difíceis tonaram minha vida mais rápida, mais frugal, mais entediante... sinto falta da aventura de meu pai, sinto falta de Rubens, sinto falta de Weiss, sinto falta de fazer coisas grandes, como traçar um grande plano marítimo e dobrar um Cabo, sinto falta de depois saber que vou morrer de velhice, mas não de aventuras...
* * * FIM * * *