Saturday, October 27, 2007

Meu amigo de 8 anos...

I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world...

[Louis Armstrong - What a wonderful world]



O tocar suave do DC-3 em São Paulo num céu ensolarado no dia 26 era meu consolo para as notícias que teria que dar para Katherine... Rubens devia nos deixar numa pensão em São Caetano do Sul, onde Bartolomeu foi encontrado... fomos de trem e depois de ônibus para lá...

Permanecemos por lá, localizando Bartolomeu, por uns dois dias, até encontrá-lo no dia 28 de Maio de 1958. Chovia muito, o tempo mudou assim que chegamos, isso foi curioso para mim. Após localizarmos Bartolomeu, Katherine e eu fomos a um café... tinha de revelar o conteúdo das cartas lidas, mas não tive coragem... fiquei atônito com a possibilidade de ela não aguentar tamanha carga... tive a idéia de primeiro falar com Bartolomeu, em separado e escondido... esperei a noite chegar.

Lady Katherine, sempre com livros e livros sobre a cabeceira da cama, tomava um deles para a leitura antes de dormir. Já de camisola, bati duas vezes na porta de cerejeira e a vi deitava sobre a cama de mesma madeira...

- Vou me ausentar por uns instantes...
- Para onde vai?!
- Apenas comprar cigarros, nada mais.
- Ok, deixe a porta encostada, fecharei depois.

Deixei a porta encostada e decidi ir a Rua José Reinaldo, 86. Entrei no seu sobrado, de telhas avermelhadas e com a já dita porta de jacarandá... sim... voltamos ao início da trama toda... o leitor pode relê-lo, se desejar... Leafar e Bartolomeu eram as mesmas pessoas... e toda aquela nota refletia seu grau de desespero por saber da verdade e não saber se portar diante dela... queria fuga, queria paz para pensar... mas fui lá conversar com ele... e aquela nota refletiu todo o meu medo, e toda a confiança de Bartolomeu, éramos apenas uma pessoa, com nossos traumas intrísecos, completávamos: Bartolomeu, ferido, adotava aquele comportamento distante, como sempre eu tinha antes de conhecer Emmanuelle; eu, alegre com minha esposa, adotava um comportamento alegre, otimista, positivo, tal como Bartolomeu tivera ao lado de Christine...

Aquela nota refletia tudo isso, mas de forma poética... absmava-me, pois todos os meus amigos escreviam melhor que eu... não gostava de minha escrita. Bartolomeu escreveu tudo o que passou ali, de forma triunfal...

"- Licença é a primeira coisa que pedimos em qualquer lugar - introduziu, delicadamente o Sr.

- Licença para quê? Tu sabes o que isso por acaso significa? Licença pedimos para quando estamos invadindo algum espaço alheio ou algo privado, esse espaço é público - corajosamente respondeu ao Sr.

- É, é por isso que não cresces. Devia ter um manual, essa juventude, para entender como se começa os primeiros passos, caso vivam sozinhas.

- Calma... primeiro, quem disse ao Sr que sou um jovenzinho qualquer? Segundo, como sabes que vivo só? Por acaso me vigia?

- Não, não vigio ninguém, se me permite responder a segunda questão antes da primeira. Sei porque vejo solidão em seus olhos e falta de direção em suas pernas. é um jovem diferente, sim, nisso admito.

- Você é um pedante. Que diabos de solidão está falando? Vivo só, mas me dou bem comigo mesmo, não preciso de ninguém.

- Precisa, precisa sim. Todos nós precisamos de alguém, nem que seja para contar nossas tristes experiências.

- Isso é para os fracos! Não sou como você.

- Eu preciso de você. Juro que preciso. Não está vendo que a chuva cai sobre você e não cai sobre mim?! Você precisa de proteção, e eu preciso de forças como as tuas.

- Sim, eu sou forte e pouco me importa se precisa de mim, pois eu não preciso de você. A chuva que cai em mim é temporária, pois ela lava minhas questões não resolvidas e me isola de questões fúteis e históricas que vocês fracos se entregam.

- Pode ser verdade a segunda parte, apesar de discordar da primeira. Acho que um dia precisaremos nos unir...

- Unir para quê?! União trás fraqueza, sua fraqueza me incomoda, você é incapaz de resolver seus problemas, seus desafetos e agora fica a me amolar... estás protegido, mas contra quem?! Uns fracotes?! Eu me protejo sozinho dos meus... páre de dar importãncia a eles que eles falecerão no seu subconsciente...

- Bem que gostaria - continuou o Sr. - eu queria esse otimismo contra meus desafetos mesmo. Estás vendo que podemos nos ajudar?!

- Eu não sei onde quer chegar...

- Você não tem idéia de como estás perdendo sua vida isolado naquele sobrado... acha que porque todo mundo te inveja, és o melhor?! Estarás sempre protegido?! Saiu de sua casa, você pega chuva...

- Mas... - pensou um pouco Bartolomeu: de fato quando ele saia de casa, ele pegava chuva, sempre... o céu sempre foi claro para ele e o Sol sempre brilhou para ele, mas a chuva sempre o acompanhou... por que será que acontecia aquilo? Aquela alma penada não tinha refletido sobre isso, pois passava tão pouco tempo fora de sua casa, que mesmo seu grau de observação apurado não lhe dizia nada sobre aquilo. - Mas... eu sempre pego chuva?! Pego... por quê?!

- Porque você deixou de entender o mundo e estou lhe oferecendo a minha mão para caminharmos juntos agora. Chega de você matar todos os que lhe passam pelo seu caminho e cair chuva sobre sua cabeça, que é a minha também. Eu também não quero mais ficar de capa de chuva, mesmo sabendo que nunca vai cair chuva em cima de mim e meu céu ser sempre nublado e sem estrelas... vamos agora acabar com isso e termos o que nunca tivemos, uma união.

- Mas eu não entendo... união de quê?! Vamos morar juntos?! Sermos amigos?! O que me propões?! Seja direto e franco...

- Não posso... você tem que começar a acreditar primeiro em si próprio e dizer para você que você que é capaz disso...

- Eu sou capaz de tudo, menos de entender isso tudo que está acontecendo... maldita hora que sai de casa...

O Sr. olha para os lados, a chuva parecia engrossar e mais carros ficavam empacados nas ruas, papeis corriam para todos os lados, a calçada da praça começava a encharcar, mesmo sendo mais elevada que as demais... algumas lamparinas começavam a falhar e as poucas luzes que iluminavam aquele local sombrio estavampor apagar... algo era anunciado como uma grande mudança na Rua José Reinaldo... o que tinha resevado aquele Sr para Bartolomeu?! Qual era sua grande parceria que ajudaria a ambos?! Será que não causaria dor a Bartolomeu... confesso que vi Bartolomeu com medo pela primeira vez... sentia frio, muito frio naquela noite e sua manta era incapaz de segurar o calor, o pouco calor que ainda possuia em seu corpo... não tinha proteção contra mais nada... e não mais podia mais lutar contra as leis da natureza, parecia que um fim devia ser anunciado...

- Não é uma maldita hora... é uma bendita hora. Quando trocamos nossas experiências, aproximamo-nos mais um do outro... nos conhecemos, mas não nos falamos... o que isso pode significar?! Não importa: se você não acreditarm nada vai adiantar, eu vou sumir e a natureza vai nos dar o cabo de nós mesmos, assim como nós viemos ao mundo... tudo depende de uma ação sua e minha, a de cooperar... o que acha?!

- Eu não sei... tudo é tão estranho..."



Não foi a toa que escrevi:

"Bartolomeu talvez tivesse ficado louco, ou tinham deixado ele louco. Todas as noites, ele sentava em frente a uma Olivetti e começava a escrever não mais sobre sua tese, mas sobre o que ele achava que era certo. Discutia com ele próprio."

Ele escrevia de forma trágica, de forma dramática, de forma que sangrava junto ao seu sofrimento, entendia aquela situação, depois de Emmanuelle me traiu de forma tão rasteira e crua; mas nesse lago de sangue que criava, ele assinalava que tudo iria mudar em nossas vidas, a partir daquele momento... e assim foi... apenas tive acesso a essa nota na noite do dia seguinte ao dia 28, quando tomei as seguintes atitudes:

Primeiro, conversei com Lady Katherine sobre Bartolomeu. No café da manhã do dia 29, fomos a Padaria Portuguesa, pedi dois croissants e Kathy, um café forte, sem açúcar, além de um Malboro. Confesso que nunca deixaria minha filha fumar, nunca mesmo... mas pouco importava, apesar de gostar tanto de Kathy, ela não era minha filha, não a tinha.

- Preciso lhe dizer algo de importância
- Diga - dizia ela om tranquilidade, tomando um gole de café e tomando o cigarro pela mão esquerda para acendê-lo com a mão direita.
- Sobre Bartolomeu... ele... ele... é...
- O quê?!
- Ele é seu pai...
- O quê?!?! - perguntava ela, arregalando os olhos, e pondo as duas mãos sobre a pequena mesa de alumínio escovado da Padaria do Português.
- Sim, ele é seu pai, por isso que foge da gente, por isso que o ama tanto...
- Sim, amo-o, não sabia disso... talvez seja por isso que tenha recusado meu beijo no autódromo... quero vê-lo - dizia ela com insistência.
- Calma, ele concordo vê-la essa noite... terá que esperar
- De acordo. Mandarei cartas para mamãe...

Fomos para casa, estava aliviado. Tinha a segunda tarefa: fui ter com Bartolomeu um almoço e ele concordara em um encontro, não informava quem estaria presente, mas ele já devia saber...

E a noite, iria a casa de Bartolomeu, buscá-lo em meu Chevrolet Impala, tomado por um amigo de Rubens.

Mas naquela noite do dia 29, apesar de estar estrelada, tudo mudou... tudo mudou mesmo, porque faltou tomar uma atitude chave... rezar para que tudo desse certo... acreditar... e faltou isso em mim, crença para que as coisas dêem certo... deixei de fazer uma boa ação em vida... e assim foi minha vida, vivendo de tropeços...



* * * * * * *



Quando nós olhamos para trás e vimos a longa jornada que fizemos, temos saudades de tudo. Eu tinha saudades daquela época. Estamos em quase 1979. Muita coisa passou: o Papa foi substituído pelo polonês Karol Józef Wojtyła, tornando-se João Paulo II, em 1978; Brasília foi construída, com o esforço de muitos, em 1960; a ditadura começou a endurecer no Brasil, em 1974 (mas a sorte é que vivi uns nove anos na América, entre 1969 a 1978); morreu JK, em 1976; morreram muitos vietcongues no Vietnã, de 58 a 75; o homem pisou na Lua, em 1969; morreram muitas pessoas com as drogas em Woodstock, em 1969; os Beatles se separaram, em 1970; Elvis morreu no ano passado, em 1977... o que mais me chocou, contudo, foi a morte de Louis Armstrong... talvez nunca amei tanto o Jazz pela voz rouca de "What a Wonderful World", quando soube de sua morte em 1971, um ano depois da descoberta de minha doença. Tomei uma garrafa de Johnnie Walker, 8 anos, e tomei até a metade... daria para cobrir mais uma metade, se a outra não tivesse ido por outros motivos... repeti a dose, a eterna música nos mais altos volumes permitidos pela minha vitrola, quantas vezes fossem necessárias para acreditar nas palavras do velho mestre negro... apenas para acreditar nele...

Fiz isso num apart-hotel na esquina da Quinta avenida com a Rua 55, em Manhattan, Nova Iorque... morei lá, com Lady Katherine durante esses anos citados... lembro-me do colar de diamantes, pequenos, mas de diamantes, que comprara na manhã do dia 3 de maio de 1974, quando caminhara numa das minhas caminhadas ao longo da 5th Avenue, em direção ao Central Park, passando pela Tiffany & Co, iámos a uma peça de Teatro sobre o famoso Watergate do Nixon... as coisas mudaram muito, as lembranças me vem e vão sobre os dias de minha agonizante vida... e assim foi naquele mês de Maio de 1958, dia 29...



["Tomei uma garrafa de Johnnie Walker, e tomei até a metade... daria para cobrir mais uma metade, se a outra não tivesse ido por outros motivos..." - Essa foi a minha noite: a vitrola toca a voz rouca de Armstrong, o meu amigo de oito anos não tinha mais gelo, e era servido quente para eu mesmo tomar; brincava com meus pertences sobre meu criado mudo, o relógio de papai, a coruja eterna, os cents de dollar, o meu retrato ao fundo e um olho... um olho que nunca párou de me espiar, muito menos de me ler...]