... o meu Impala chega ao fim da Avenida José Bonifácio a direita, tomando por inteiro a Rua José Reinaldo. Estaciono. Tomo o meu guarda-chuvas. Abro a porta. Abro o guarda-chuvas. Um carro qualquer preto passa molhando minha capa e os meus pés. Fecho a porta. Atravesso a frente do veículo, em direção a calçada. Alcanço-a. Subo os degraus, tomando a porta aberta, como de costume. Invado a casa. Procuro Bartolomeu na sala. Não o encontro. Vou ao quarto. Não o encontro. Dirijo-me a janela, vejo os pingos de chuva atingindo-a, fracos, sem vontade, batendo no vidro, escorrendo por esse material, até a esquadrilha, misturando-se a poça no parapeito de madeira de lei, jacarandá, acho... afasto-me. Viro-me a esquerda. Uma meia volta. Noto o guarda-roupas aberto, com uma das portas prensando uma roupa. Acredito que uma calça comprida. Aproximo-me. Abro a porta. Um corpo desaba no chão. Aos meus pés, com o rosto para o piso. Surpreendo-me. A cabeça ensanguentada tornava ainda mais vermelhos os seus cabelos castanho-avermelhados. Puxo-o pelos fios, noto a face familiar. Ponho o meu indicador e meu dedo médio direito sobre o pescoço. Não encontro pulsação. Bartolomeu estava morto.
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Assim foi o dia 29 de Maio de 1958, na pequena Rua José Reinaldo. Duas viaturas policiais estacionadas chamavam toda a atenção da vizinhança. Contacto Katherine, e alguns minutos depois, ela vem numa terceira viatura, descendo em desespero, chorando interminavel e inconsolavelmente. Rubens partira para a Europa. Estávamos apenas nós dois. A menina perdera o pai que nunca conhecera direito a filha.
Acompanhei-a até o Instituto Médico Legal. O Hospital não mais cabia. Era necessário autópsia. Duas semanas depois, o laudo: lesões no pescoço, pernas, órgãos genitais e cabeça. Diziam lesão corporal. Para mim, tortura. Custou-me saber porque, mas Bartolomeu era ligado ao regime Fascista de Mussolini, o que causou alvoroço naquela pequena cidade, apesar de sua atividade silenciosa. O fato era que envolver a Interpol para localizá-lo, por intermédio de Clement, levou a revelá-lo a grupos rivais locais. Pena.
Antes das duas semanas, choros de Katherine. Tentativas de contato com a mãe, Christine Valentine Mond. Sem resposta. Provavelmente recebera a carta e sofrera, mas sem demonstrar. Mas desde então, mãe e filha nunca mais conseguiram se falar. Nunca mais...
O enterro foi realizado na mesma cidade, num cemitério local. Uma cerimômia curta e com padre católico, no dia 14 de Julho. Katherine tinha 17 anos e era de menor, sem tutela. Entrei com processo de tutela na Justiça. Em 1965, em nossa residência em Brasília, recebi o resultado em 1965, indeferido - pouco importava, ela atingia a maioridade.
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Durante todos os anos seguintes, cuidei de Katherine. Catrina, como passei a chamá-la. Tornou-se uma filha para mim. Espacialmente no ano de 1960 e 61, passamos em Chicago. Estimulou-me a publicar meus livros, que recebera excelente elogios dela. Sabia que eram de pouco valor. Não consegui publicá-los. Nenhuma editora estrangeira aceitava, nem nacional.
- O público detesta romances psicológicos. De psicologia, apenas auto-ajuda...
Era o que sempre ouvia.
Voltamos ao Brasil em 62, após a Copa do Mundo que o Brasil ganhava. Rubens passou um tempo conosco. Tempo necessário para namorar Catrina por três meses, apenas três meses... viam-se todos os dias... terminaram por decisão de Catrina, infelizmente.
Infelizmente porque Rubens era o cara certo para Catrina, e Catrina, a mulher certa para Rubens; mas nem sempre duas peças do mesmo quebra-cabeça fazem sentido... era preciso esperar...
Enquanto isso, encontrei John Smile. O desgraçado, chamado de João Sorriso em Brasília (sim, moramos dois anos em Brasília, de 1963 a 1965, quando nos transferirmos para o Rio), apresentou-se para mim, sabendo de minha existência e nome. Fingi não conhecê-lo. Ficamos amigos. No primeiro porre da inauguração de um prédio público em Brasília, em 1964, levei ele para o mato e disparei as oito balas do calibre 38 que guardara de Bartolomeu, logo após ter feito o inventário do mesmo em 1959. Morrera. Joguei-o na primeira vala comum que encontrei, sem cerimônias para um verme de tamanha estirpe.
Mas também encontrei Rudolph. Outro que tinha ligações com João Sorriso. Tinha também trepado com minha mulher, por informações, claro. Na virada do ano de 1968, durante o festival de fogos, do calçadão de Copacabana, apunhalei uma faca em seu estômago, com todos presentes na praia de Copacabana olhando os lindos fogos que cruzavam o céu. Ele caiu, e todos pensaram que estava bêbado. Sai tranquilamente pelo calçadão; no dia seguinte, viajava para Nova Iorque com Katherine.
O mais importante não em si a vingança, mas a mudança de atitudes num ser humano é fundamental. Pensar que todos aqueles canalhas fizeram aquilo com minha mulher era de pouca importância se levasse em conta que pude colocar tudo num caminho de correção: eles precisavam de uma lição, e eu dei; mas confesso que não precisava ser eu que aplicasse a lição.
Mas voltando a Catrina, digo que foi a maior das minhas companhias... era meiga, era carinhosa, era branca, muito branca, lábios lindos, olhos pequenos, cabelos vermelhos da cor da cereja. Tinha gosto pelas artes, matriculei-a num curso de artes plásticas no ano de 1971, tinha trinta anos aquele linda menina. Eu, tinha 47. Aprendeu artes cênicas, também. Chegou a ser atriz, mas desistiu pelo gosto da escrita, não sei, mas provavelmente era de família, e eu tinha pouca influência nesse processo.
Acho que a arte beirava aquela que seria uma família, se tudo aquilo que acontecesse no dia 29 não tivesse acontecido. Sim. Talvez. Nesses dias, antes do fim da década de 60, pude constatar isso por meio de várias cartas lidas de Bartolomeu. Como dissera, pegava-as no armário, assim que o corpo caiu sobre meus pés. Aliás, diga-se de passagem, Bartolomeu sabia que lia suas correspondências, e, talvez, soubesse que um dia poderiam servir de algo, como para algum marinheiro de primeira viagem que não soubesse dos encantos das sereias e nem dos monstros que aboninávam o mar do sul do Cabo... Bartolomeu talvez fosse um gênio, mas fora covarde, talvez, tanto como eu fui um... mas aprendi, e isso é o que mais importa na vida de um homem, a mudança de atitudes...
Fechando esse bloco, lanço uma das mais importantes cartas de Bartolomeu que li... foram muitas, muitas sem sentido, muitas excessivamente emotivas e desmotivadas, Bartolomeu talvez tivesse ficado louco, ou enloqueceram Bartolomeu, mas a grande verdade é que ele impressiona a todos, talvez até ele mesmo, mesmo depois de morto...
"Trento, Itália, 2 de Novembro de 1943
Minha doce Christine,
Tudo poderia ser melhor, tudo poderia ser a mais louca e bela aventura de nossas almas nessa cidade mágica. Tudo, tudo mesmo! Mas, não foi, não é, e duvido que vai ser... a moldura quando se quebra, quebra e ponto! Ela era pronta e acabada para uma única tela, mas a moldura quebrou... ou quebraram?! Não convém eleger culpados... o problema é que nunca teve tela... no máximo uma gravura, um desenho, que imaginávamos existir, não é mesmo?! Que cruel! Imaginar é cruel demais... não quero nunca mais imaginar... nunca mais! Nunca imagine! Nunca sonhe! Nunca faça nada além do que está a luz de seus olhos. Há o perigo de tomar decisões em cima da hora, mas melhor assim. Do contrário, você vai querer sumir no azul infitino do mar... Droga! Imaginei de novo... o mar está a quilometros de distância daqui, em Mirnyj, e até queria ouvir as ondas quebrando nessa noite fria, bem fria, diga-se de passagem, enquanto escrevo..."
O mundo vive mudando e dando voltas. Aprendi isso com Bartolomeu. Os ventos nem sempre sopram para um lado; mas o mais importante é que as velas de nossa embarcação sempre podem ser içadas a fim de chegarmos ao destino que almejamos... Bartolomeu, mesmo louco, acho que você me ajuda. Ainda me ajuda...
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Ajudou tanto quanto Katherine. Essa, principalmente, fisicamente. Ajudou-me em todas as etapas de minha doença terminal... eu passei a me definhar a partir de 1969... nessa data...

[Campanário, Trento - norte da Itália: as mais importantes batalhas brasileiras na Segunda Guerra Mundial fora realizada em Monte Castelo, norte da Itália. Lá Bartolomeu aprendeu o português, junto a amigos brasileiros. A cidade também é importante para a Igreja Católica, sendo nela realizado o Concílio de Trento, responsável pela Contra-Reforma.]