"Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."
[Fernando Pessoa - Mar Portuguez]
Não descobri plenamente, mas minha doença consistia em uma série de sintomas que me arrastaram por toda a década de 70.
Primeiro, passei a ter Hepatite... bebia, mas não era muito... apenas Whisky. Isso foi em 1968. Aprofundou. Transformou-se em cirrose hepática. Tive vários problemas renais, arritmia e por último, a catarata em 1971, quando consegui cirugia nos Estados Unidos. Já morávamos lá, desde de janeiro de 1969. Consegui amainar as doenças que me consumiam. Passei a tomar remédios controlados, em 1973, para problemas psicológicos e minha mão treme muito ao tentar escrever essas duras linhas para você, meu caro leitor. Foi duro para Kathy me aturar todos esses anos. Pedi a internação. Encontro-me internado. Uns cinco anos num sanatório, sempre acompanhado por médicos; agora, mais uma vez, numa maca de um hospital. Tentando vencer doenças que consomem meu corpo e minha cabeça. Sofro por cinco anos, piorando dramaticamente.
Fiquei perambulando pelo sanatório do distrito do Queens. Por irônia, o sanatório chamava-se Charles' Hospice, em homenagem a Carlos II, rei da Inglaterra, esposo de Catarina de Bragança, daí, o nome do condado - Rainha.
Conheci vários loucos. Conheci uma porção deles. A primeira era engraçada. Protadora de distúrbio obsessivo-compulsivo tinha manias frequentes de agarrar-se a um urso de pelúcia que o namorado dava-lhe em verão de 1914. Sim, ela era muito velha e dormia com ele atestando ser seu amado eterno.
O segundo, travei um diálogo memorável, aliás, com todos eles houveram diálogos que me fizeram saber que meu problema não era uma psicose, neurose, nem doença orgânica... talvez, mais uma doença fisica, que não haviam descoberto. Perguntei para ele:
- What do you have?!
- Me?!
- Yes, you...
- I think I have some kind of mental illness...
- Of course, all of people, here, are said crazy, but I think some of them are it.
- No, all of us.
- I'm not crazy, I think have some of physic illness, not besides this.
- Wow... you think... it seems to me you aren't totaly crazy, because always ones said to me: "I'm not crazy, I'm fine"... you accepted some kind of illness... - sorriu ironicamente para mim...
Mas continuou:
- You probably have some type of... schizophrenia... maybe...
- Oh, merci, je pense que il est vrai... je suis Napoleon Bonaparte, n'est pas?! - Ele me deu de ombros e foi embora... corri até ele e toquei-lhe o ombro esquerdo, perguntando sobre a indiferença...
Ele prosseguiu:
- Well, if somebody arrives to you and said "I'm Napoleon..." what would you do?!
- I'm probably said to him that isn't it!!!
- If someone said to me this, I would say nothing...
- Why?!
- If I argued with him, I would be too crazy as him... - deu-me de ombros e foi embora... parabéns para ele, fazia todo o sentido aquela minha gracinha... aprendi a ser menos irônico naquele ambiente.
Mas como disse, surgiram vários diálogos que anotei em meus cadernos de notas para possíveis livros sobre isso. Atualmente, Katherine vem recebendo cada um deles e escrevendo em forma de livro...
* * * * * * *
Quando você olha para o vidro, observa chuva ou neve, sente o frio, o silêncio, não dá vontade de sair de casa... mas certas vezes, ao pensar sobre sua situação nesse extato momento, nesse exato instante, você pára e pensa: "por que estou aqui?", "por que quero sair daqui?", "o que há de tão interessante para eu querer sair daqui?", será a falta de algo?! será a falta da pátria?! ou simplesmente um desejo de não querer mais permanecer nesse quarto?! Mas o que fazer lá fora?! Saudades de alguém?! de quem?! Passei todo o dia 5 de novembro a pensar; e tudo começou por olha minha mão esquerda e aquela cicatriz no polegar... lembranças vieram do tempo de jovem, lembranças que não me destroem, mas me fortaleceram na noite fria e sombria do hospital do sanatório... dessa, só lembro minha visão sobre o parapeito da janela, e uma borda preta, em degradê, fechando o meu campo de visão lentamente, bem lentamente, depois, mais nada...
* * * * * * *
Hoje, dia 5 de novembro de 1978, enquanto lia o Washington Post, do lado de minha maca, o médico invade meu quarto, mais uma vez, como no Principado de Mônaco a vinte anos atrás... ainda lembro, apesar de minha memória estar se esgotando aos poucos nesses últimos dias daquela aventura mágica de fuga para o Brasil... anuncia outro problema para eu vencer: hemólise, destruição das hemácias... estou morrendo aos poucos e ainda não sei qual minha doença... voltei ao meu jornal, inconformado com a a medicina, com os políticos, com minha situação, com minha ex-mulher e com o mosquito que estava preso entre os dois vidros da janela, debatendo-se loucamente par sair do quarto e do Hospital, assim como eu clamava por vida e pelo ar do Central Park... estava chegando ao fim meu sofrimento...
[Apesar de estar longe do Central Park, as memórias dele continuavam vivas em minha cabeça... talvez, o meu desejo era sentar no banco que ficava perto da ruazinha que dava acesso a minha avenue, a quinta, perto do laguinho... o desejo era me definhar aqui, coberto, com os flocos de neve caindo sobre meu rosto e clamando por desejos finais...]