Thursday, October 18, 2007

o Psicólogo...

You can exert no influence if you are not susceptible to influence. [Carl Gustav Jung, Psiquiatra Suíço]


A manhã ensolarada no Hospital de 20 de Maio era quente, as persianas esquentavam além do normal, e o mormaço não era coibido pelo ar-condicionado central. Estava quase sentado, um pouco reclinado e o espelho da farmácia pregado na parede anunciava meus loiros cabelos curtos, os meus olhos castanhos escuros, claros agora, de enxergarem luzes de todas as partes, mas que não brilhavam para mim. Era um homem observador, de poucas palavras, marcado pelos meus traumas, pelos meus complexos do frio, sobretudo... o frio tem uma representação: a solidão, o sofrimento isolado do mundo... era como estava... estava só naquele Hospital, sem esposa, sem amigos...

Clement invade o meu quarto e num diálogo rápido e sem delongas me disse como chegou a tentativa de minha mulher em trair o Ocidente. Ela tinha entrado para a KGB pouco depois de casarmos e tinha a missão de usar minha inflência e amizade com personalidades para chegar a descobrir projetos do Ocidente, como armamento e ações contra a URSS... que ilusão! Fui usado! Esse era outro dos meus traumas... aprendi a conviver com eles, e como dizia Jung, a controlar minhas "constelações"... Clement era amigo de várias pessoas na Interpol, e o fato de ter ganho o prêmio incentivou as autoridades a vasculharem minha pacata vida, incluindo a da minha mulher... o que me agradou, pois pude saber muitas outras coisas desagradáveis... não contarei aqui, talvez numa outra nota ou livro... a verdade é que Clement me ajudou numa das mais importantes missões: a de entender minha mulher... e depois, a de encontrar Bartolomeu. Isso foi um erro que confesso hoje...

Mas isso me levou ao desfecho da história, mesmo que a tragédia tenha sido causada por eu mesmo. Algo que consome minhas duras noites de outubro nesse ano de 1978, apesar de minha doença terminal.

Katherine chega no horário de visitas da tarde. Tenho um leve espanto pela quantidade de bolsas e sacolas que tinha em mãos. Algo era necessário ser revelado, ou mais do que isso: algo era pretendido pela moça naquela tarde de maio.

- Bom dia, M. Weiss. Espero que o Sr esteja melhor.
- Ficaria melhor se dispensasse as formalidades, sente-se, por favor...

A primeira entrevista com Katherine no dia anterior, pedida por mim, a Rubens, funcionara. Ela viria no dia seguinte. Melhor, ela viria todos os dias se soubesse fazer as perguntas certas e os comentários pertinentes, aqueles que ajudassem ela a resolver seu maior problema...

- ... estou bem melhor, os médicos reduziram meu castigo para dez dias, no lugar de duas semanas exatas! Acho que saio daqui dia 28.
- E o que pensa fazer?!
- Bem, minha mulher está presa em Nice por espionagem, não tenho família na França, talvez vá a Suíça ou a Londres com Clement. Ele vem se dando bem como político trabalhista.
- Hmmm... que bom que o Sr tem um destino em mente... - virava-se para as persianas do quarto e passava a mão direita sobre a testa, em direção aos cabelos ruivos e ondulados, um respirar sonoro mostrava sua vontade de chorar ou algo do tipo, tinha algo a me contar, queria me contar algo...

- Algum problema?! Gostaria de vir comigo?!
- Gostaria de que me ajudasse...
- Em que, precisamente...
- Sou uma pessoa só, tenho problemas que são me próprios e insisto em meus dramas para mantê-los vivos, pois é isso que me faz viva.
- Não sabia que era uma pessoa dramática, não me parecia assim, nos poucos encontros que tivemos, parecia-me uma pessoa bem distante e pouco emotiva, uma quase jogadora, ou uma rainha num tabuleiro de xadrez que consegue se movimentar sozinha...
- o Sr se lembra de nossa promeira conversa... ops... você.
- Sim, lembro sim.
- Que bom... que bom seria se os homens fossem atenciosos como você. Tenho admiração pelo... por você...
- Tanta admiração que chega a travar várias vezes no 'Sr'... - discontrai um pouco aquele rosto entristecido por mágoas passadas...
- Sabe... (caminhava ela pelo quarto, em direção a farmácia e ao espelho pregado na parede), o... você tem características próprias de uma pessoa que pode me ajudar, queria compartilhar minha vida com o Sr... desculpa... com você para me ajudar...
- Bem, serão todos ouvidos... qual seu problema principal?! - Quando disse isso para ela, cometi um erro: propunha-me a escutá-la, e nesse caso, os conselhos são inevitáveis, devia ter deixado meu 'ego' na sala-de-espera, como a psicologia moderna ordena, não devia me envolver emocionalmente com ela, pois poderia por tudo a perder para mim e ela...
- Bartolomeu... na verdade, os homens... tive alguns deles, mas poucos me chamaram a atenção como Bartolomeu. Tive algumas experiências diferentes com homens, como ter namorados com esteriótipos diversos...
- Em que sentido?!
- Bem... gostaria de evitar, sabe?!
- Entendo...
- É dificil para mim... sabe?! O Sr não devia fazer essas perguntas!
- Bem, estou aqui para ajudá-la, não me veja como um vilão ou alguém que lhe que seu mal...
- É que é difícil me confessar! Sabe?!
- Perfeito, mas diga apenas o que acha conveniente.
- Ele foi sacana!
- Quem?!
- Um desses homens, sei lá, não era homem...
- Bem, parece que não há muita importância, vamos voltar para Barolomeu...

Sabia perfeitamente do que se tratava, mas evitei desgastá-la dessa experiência diferente... não se deve incitar traumas ou complexos. As forças de um complexo podem ser tamanhas na psique humana que podem afetar seriamente o núcleo de nosso consciente, o 'ego'. Devia evitar. Parecia que meu profissionalismo agora era a regra naquela conversa.

- Quero-o.
- Gostaria de ter novamente Bartolomeu?!
- Sim, gostaria de encontrá-lo novamente.
- Por que a obsessão?!
- Porque eu o quero, porque ele me faz bem!
- Claro, mas tudo tem um motivo...
- Para você tudo tem um motivo! Tem um motivo para eu estar aqui, tem um motivo para estarmos nesse ponto da conversa, tem um motivo para você estar nessa maca! Always are there fucking reasons for all?! - Estava muito nervosa...
- Ok, não há motivos. Pode ser que tudo esteja errado...
- Como?!
- Pode ser que eu esteja aqui nessa maca por nenhum motivo e gostaria que assim fosse, mas o fato é que tomei excessivos chás no Café Paris e me joguei num carro quando saia do estabelecimento... pode ser um acaso eu ter feito isso, mas eu sei que meus problemas pessoais são tantos que isso foi como uma fuga de meus problemas com minha mulher, que reprime meus desejos em tê-la e faz-me de bobo todas as santas horas que estamos juntos. Por ser obra do acaso também termos casado, mas na verdade trata-se de uma perfeita explicação o fato de ela se parecer muito com minha mãe e minha tia, pessoas, mulheres que admiro muito e que a Psicologia moderna diz que trata-se de um anima, um esteriótipo de mulher baseado nas caracteríricas femininas que eu as desejo, advindas, principalmente de nossas mães... para as mulheres, o animus, advindo dos pais... mulheres buscariam nos homens o esteriótipo do pai; homens buscariam nas mulheres o esteriótipo das mães... eu gostaria disso tudo ser uma grande mentira, mas não é... não há comprovação empírica, nem dados estatísticos que comprovem isso, mas é a realidade... tudo tem um bendito motivo, isso só é um exemplo, mas...
- Eu entendo... já ouvi falar disso... na verdade, não conheci meu pai... - era aqui que eu tomavas as rédeas no consultório e levava adiante a carruagem...
- Tudo começou em 1941...

"em 1941, eu nasci, segundo minha mãe; estávamos na Europa, na época da segunda Guerra... até onde sei, minha mãe após saber que estava grávida entrou num cargueiro inglês que saiu de Le Havre, na França, em direção a Escócia, em Glasgow. De lá, eu em sua barriga e ela partimos para a América. Apesar de ser americana, ela teve que ficar dias em Ellis Island, lugar da imigração nova-iorquina, para ficar em quarentena... foi o tempo que tive para nascer. Nasci na dita Ilha, na cidade de Nova Iorque. Não sou de Los Angeles... morei por lá, assim que minha mãe começou a mexer com cinema e literaura. Teve sucesso em escrever para musicais da Broadway e fora chamada para trabalhar na Industria cinematográfica de Hollywood... conheceu várias pessoas, como Gene Kelly e o cantor Sinatra - aqui, o Sr pode notar os dois na foto com ela (mostrou-me a foto, de fato, parecia muito com a sua mãe), mas facassou em alguns projetos, o que lhe remeteu para Nova Iorque. Fui assistindo a tudo isso, até que ela passou a por a fama e o dinheiro acima de tudo, matriculando-me num colégio internato... passava a semana inteira sem ver minha mãe e tive várias amigas e amigos. Mas nada substituiu minha mãe... a imagem de seus cabelos pretos ondulados, seus olhos pequenos e sua média estatura me faziam alegre, apesar de ela mesma me por ali... de meu pai, nunca o conheci... minha mãe falava pouco dele, colocava-me no colégio interno a fim de eu pouco perguntar sobre ele... mas amava-o... nunca dissera com essas palavras, mas em cada texto revelava esse seu fascínio por ele... li alguma de suas correspondências, sempre com destino ou a Suíça ou o Norte da Itália, onde fora soldado... nunca falou da nacionalidade dele... nunca falou de como o era, mas falara que era culto, inteligente, astuto e atencioso, como o Sr ou como Bartolomeu... não descarto os seus motivos...

Tive alguns infortúnios, alguns amigos tiveram que abandonar-me antes do fim da escola... foram morar na Europa ou, como alguns, entrar para bandos do crime, indústria vantajosa na América nesses tempos. A importação ilegal de bebidas, cigarros e drogas alimentava todo o esquema de bandidagem na Big Apple. Tive que saber me virar após minha fuga da escola... um amigo chamara-me para trabalhar em Atlantic City, numa casa de jogos... não, não me prostituia, apesar de ter sido aliciada para isso. Roger nunca deixara isso acontecer sem minha total certeza. Fui juntando dinheiro e cheguei a fazer viagens, como essa, a seu pedido... sim, estou a serviço... tinha de verificar a tecnologia usada em Monaco para repassá-la a Roger o quanto antes... acompanhei-o até o nosso encontro no casino, nosso primeiro encontro. Juro que achei o Sr muito atraente, mesmo com esses seus loiros cabelos... gostei de Clement também, quando o avistei no baile e na corrida... é um homem culto e de poucos cabelos, de barba sempre cerrada e escura. Como disse, sou frustada com os homens, poucos me entendem, poucos me dão importância, e o fato de ser dramática torna-me interessante, mas possuem suas desvantagens, asseguro.

Não cheguei a conhecer sua mulher, mas vejo nessa sua foto que ela é linda... loira, com olhos grandes, castanho claros, pele branca... lindo vestido esse vermelho. Será que já seria esse um indício de seu envolvimento com os soviéticos?! (ela brincou comigo para desfazer o clima ruim que eu estava me envolvendo...).

Mas seria isso... não sei o que acontece em minha vida, não gostaria de que acontecesse o mesmo com minha mãe..."


Parei um pouco, minha cabeça estava muito afetada por todo esse depoimento, os meus complexos constelavam, jorravam fontes absurdas de energia sobre meu ego, dominado-me por completo... precisava de tempo para raciocinar, e foi me dado esse tempo, assim que o doutor e sua equipe invadem meu quarto com remédios e análises... era o fim da sessão de visitas vespertina... amanhã o show devia continuar... mas antes, devia ler os papeis que Lady deixava em meu quarto...

[Sir Clement Raphael Freud (1924-) - escritor britânico, radialista e político, nasceu em Berlim, apesar de sua família ter se movido da Alemanha Nazista para a Grã-Bretanha; é neto do famoso neurologista, destacando-se como chef no seu restaurante Sloane Square, além de ter trabalhado no Dorchester Hotel. Sempre foi muito ligado a sua família, tendo dito na TIMES a seguinte frase: "I suppose that if your name is Freud, it is better to be related to Sigmund than not. It must be frustrating to have to keep denying family connection." Fonte: wikipedia]

* * * * * * *


Há certos papeis na vida da gente que páram sobre nossas vidas em momentos ideais... e assim foi com aquele pequeno papel que Rubens trouxera no dia anterior ao dia 21 de maio de 1958. Era uma manhã menos ensolarada, estava meio nublado e o Principado estava bem vazio depois da Formula 1, a estória apontava o seu desfecho e faltavam mais sete dias para voltar a ganhar vida; tive depois de 1958, uns doze anos de relativa saúde, até saber que em 1970 da gravidade de minha doença...

A vida é curta e demasiadamente curta para errarmos e pensarmos sobre os erros, confesso que passei todos esses anos pensando em erros, deixei de viver intensamente após o 1958...

Ao abrir o pequeno papel branco, digno das notas de Bartolomeu, notei uma carta a uma pessoa que não estava na história, ou que aparecera apenas na carta que eu li antes de receber minha mulher, no dia do baile, uma sigla... ao abaixar a cabeça para lê-la...