[...] Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
[Cecília Meirelles, poetisa brasiliera, em "A Marcha"]
Peguei uma ruela e numa das esquinas, um pequenos estabelecimento de bebidas, um bistrot, algumas pessoas em mesas espalhadas e eu, ali, parado a contemplar o bar e os seus clientes. Resolvi entrar. Sentei ao redor do balcão e pedi um whiskey. Era sempre a minha bebida predileta, algo do tipo: "Eu sou só, e me divirto só com meu drink, dane-se vocês...". O whiskey era isso para mim, era um estilo de vida que um homem deve ter quando está só e em situações hostis, como era daquela noite. Só, e apenas só. Olho para os lados e muitas pessoas se divertem e eu me divirto sozinho. Noto que a minha esquerda, próximo a saída, numa mesa com penumbra singular, uma mulher, de vestido vermelho, chapéu vermelho e um cigarro nas mãos com luvas brancas me observa com ares amigos. Eu sempre fui bom nisso, olhar e acertar o quê as pessoas estão pensando sobre mim. Parecia um desafio introduzir um assunto àquela dama, pois se ela me olha, ela quer falar-me; não posso tomá-la de assalto, como fiz com Miss Kathy e Bartolomeu. Fica mais difícil, mas não impossível.
Nesses casos, costumo ser aberto e franco: olhei para aquela Srta, dei um sorriso, virei levemente meu rosto para a direita, sem rotacioná-lo, e levantei meu copo, num gesto de oferecimento de companhia. Não me deu atenção.
Decepicionei-me. Não havia recebido tal desagrado a tempos. Bem, voltei ao meu whiskey.
Fui embora! Agora, era ir para casa, dormir e esperar Rubens chegar ao fim da tarde de amanhã...
Tomei meu Dostoiévsky antes de fechar os olhos. Peguei meus óculos de leitura e li-o em Francês. Nunca dominei o Russo, apesar de ter frequentado algumas aulas no Rio, quando pequeno. Li Noites Brancas naqula noite. Tinha sido encenado no cinema e recebera o Leão de Prata, no Festival de Cinema de Veneza, em 1957, com Marcello Mastroianni no elenco, além das composições de Nino Rota, como trilha sonora.
Mas apesar de meus pensamentos inúteis, eu continuava só. O meu desejo era que aquele elevador saísse ela, frente a mim, com seu vestido, com seu batom, com sua voz, com todas as coisas e lembranças boas que ela me fez passar nesses dias que estive casado com ela. O que seria isso?! Uma espécie de obscessão por minha mulher?! Se já a tenho, porque querê-la mais e mais?! Seriam meus desejos insaciáveis?! É tão difícil explicar a atração de duas pessoas: como a química perfeita pode levar a combinações explosivas e devastadoras sobre os envolvidos! A distância não importa, mas o telefone impõe a distância, impõe que você está a muitas milhas de distância! Do outro lado... A noite fica vazia sem ela na minha cama, minhas estórias tornam-se sem sentido, as noites tornam-se escuras, e a claridade lançada pela Nástienka, de Fiodor, não é suficiente... eu estava um autor romântico aquela noite, próximo a Dostoiévsky (quanta convicção minha!); e o velho Fiodor, quando escreveu, pouco antes de sua prisão, em 1848, estava muito próximo do movimento literário romântico, nessa obra.
Enquanto a noite entrava a dentro, o relógio de pêndulo anunciava a chegada da vigésima quarta hora, eu, na cama que fora designada para eu me acomodar, estava ali sem sono, pensando bobagens...
- Good morning, my friend!
- Good morning, Rubens. Where is my wife?!
- Já se foi! São 9h e deixei-a no aeroporto às 7h para Paris, como o combinado.
Droga! Virava o meu rosto para o lado esquerdo... Ela sequer se despedia, nem nada! A manhã em Marselha estava bela pela janela. Alguns carros lá embaixo, algumas pessoas no café e na tabacaria que dava para ver da minha janela. Lembrei-me da corrida...
- Ok, Rubens. E essa corrida aqui? Quer vir comigo?! Será que Clement consegue os ingressos a preço de banana para nós?!
- Clement consegue até junto ao Príncipe de Mônaco, Leonard! Não conheces vosso amigo?!
- Certo, chamei um estranho para vir conosco no carro e na corrida, se incomoda?!
- Desde que fale francês ou português, não me incomodo!
- Ótimo! E por que danças na minha frente como se estivesse apaixonado?! Viu o filme de Gene Kelly no Principado?!
- Ohhhh, bien sûr! E com uma bela francesa, rica, cheia de jóias, e o principal, Leonard, o principal!!! Conteúdo!!!! Conteúdo!!!! Estou farto de mulheres sem conteúdo!!!
- Hahahah... que ótimo, Rubens, espero que atinja sucesso em suas pretenções amorosas com essa donzela! - Reverênciava-o, aclamando o grande resultado do amigo.
- Muito bom, serás meu padrinho! Agora falta mais uma dessas damas e o casamento nas arábias, poligâmico! Viva! hahahaha...
- Poligâmico?! você não aprende nunca, Rubens!!! Hahahah... ajuda-me com as malas no carro?!
- Claro...
Descemos pelo antigo elevador da Prédio de Rubens. Desceu conosco uma Sra bem anciã, falando em francês com seu petit... o menino era loiro, tinha olhos claros e bem tímido, ganhei a sua amizade, oferecendo-lhe um pequeno bombom... ele, educadamente, disse que não gostava de nada de 'estranho', mas a avó, muito gentil, pediu para que ele aceitasse... Perto do pequeno Citroën DS Chapron Cabriolet, 1958, novo em folha, de Rubens, estava Bartolomeu com suas malas. Estranho ele saber qual carro iriamos, ou onde eu morava. Levava a sério o convite.
- Rubens, esse é o Sr de que estive lhe falando, és Bartolomeu.
- Bartolomeu, esse é um grande amigo de infância, Rubens.
Ambos se cumprimentam e acomodamo-nos no carro. A viagem corre sem grandes contra-tempos. Bartolomeu, calado no início, abre-se quando toco no nome da Ferrari, conta algumas de suas estórias no campo de batalha e Rubens, as suas, no Casino. Fiquem a margem, observando. No bolso de Bartolomeu, um pedaço de papel branco... uma nota... podia ser o primeiro pedaço do quebra-cabeça que gostaria de resolver: entender Bartolomeu e seu jeito arrogante de ser, devia ter algum problema, e, como pessoa complexa, com conteúdo, como ressaltava Rubens com sua donzela, devia ser um caso interessante, nem que seja apenas para contar uma estória em meus livros.
De leve, puxei o papel durante uma calorada discussão. Você atiça a vítima, atiça o seu amigo, e está pronto para por seu plano em ataque... cheguei de perto aos dois bancos da frente do carro, estava atrás deles... puxei o papel sem hesitação... guardei. Feito a façanha, pus-me a dormir no banco traseiro, cansado de ouvir os dramas político-econômicos do mundo e da Europa, bastava as discussões com minha mulher...
Viajar em carro conversível é outra coisa! A brisa marítima do Sul da França em meu rosto, as músicas bem escolhidas da rádio local no carro de cantoras francesas e o Jazz inconfundível de Armstrong e Fitzgerald, além da paisagem com o mar Mediterrâneo ao fundo. Perfeito! Mas preferi fechar meus olhos e tentar encontrar o rosto de Emmanuelle em minha imaginação...
Chegamos. Ficamos na Avenue de La Costa, 14, bem próximo do túnel pelo qual os carros de corrida iriam passar, durante o GP de Mônaco. Confesso: não estava empolgado com a corrida, era pretexto para conversar com Bartolomeu, era pretexto para encontrar Lady Kathy. Despachadas as bagagens, Clement nos acolheu em seu belíssimo apartamento. Era fácil para mim viajar ao redor do mundo: tinha amigos por toda a parte, e eles gostavam de mim, e eu não gostava muito deles. Não era interesse, mas era falta de interesse: gosta de pessoas complexas, que me fazem pensar, como Clement. Realemente gostava dele, assim como Rubens, apesar de ser afoito, atabalhoado e afobado; bem, eu também não era dos melhores, confesso.
Clement acolheu a todos nós e na sala-de-estar, o assunto era mais política! Não aguentava mais! Por que não discutíamos a psicologia, a filosofia, a literatura, o cinema, coisas que eu dominava menos, mas sabia teorizar melhor?! Até Clement preferia política a psicologia, mesmo tendo como sobrenome, Freud.
Desci do prédio, passeei pela Avenue de La Costa, e num café, encontro Lady Kathy. Excelente coincidência! Ela estava só, ou, pelo menos, parecia. O café era requintado, tal como o Casino em que eu a encontrei. Era requintada, complexa, culta. Queria entender mais sobre ela.
Cumprimentamo-nos. Sentamo-nos, e tive algumas surpresas...
- Bonsoir, Mademoiselle Kathy.
- Bonsoir, Leonard! Vous préferez parler au anglais?!
- Yes, I prefer, of course.
- So, you received my scrap?! Sorry, I had to come immediately to here, I had to buy my place in the GP...
- Allright... I'm so sorry for my absence... I had to... to... - faltou-me palavras, era difícil dar razão ao que não sabia dar motivos, qual era minha desculpa em estar fora de casa?! Nenhuma!
- to... - Ela me completa...
- to telephone, I had to telephone to Mr Clement, my friend, to assure my place...
- Nice...
- Yes, very nice...
- Please, I want coffee, and a cigarette. - Ela faz o pedido ao garçom que nos aborda.
- I want a... what about a tea?! - Miss Kathy sorriu-me... estava no caminho certo, um chá, um chá de maçã com canela, completou ela para mim... um chá de maçã com canela! Assim: você topa com uma pessoa que não usa maquiagem num local que se exige maquiagem, um cassino, ou um café em Mônaco; você conversa com a pessoa e ela não lhe decepciona, pois tem conteúdo, sabe do que você está falando; e toma chá de maçã com canela, então, alguns indicativos estão dados: é uma pessoa diferente, interessante, no mínimo. Será que terá mais a oferecer-me?!
- Perfect! An apple tea! I'd never image to drink an apple tea in Monaco, for me, it's like to eat feijoada in America... - brinquei.
- Feijoada?! Do you like?!
- Yes, I'm Brazilian, remember?!
- Yes, of course... so, why did you prefer speak in English?! Do you think I haven't know Portuguese?!
- hahahaha... you're kidding... you speak Portuguese?!
- Sim, eu falo, e outras línguas, se desejar... - Outra mancada! Mas que inferno! Primeiro com Bartolomeu, depois com ela, Lady Katerine. Pela primeira vez, aquele rostinho me dizia que não gostara da brincadeira... tentei me recompor...
- Desculpa, minha língua e país são tão insiguinificantes que às vezes é difícil encontrar alguém que fale meu idioma. - Como se diz no Poker, cobri a aposta dela! Recuei, mas de forma estratégica.
- Não precisa se desculpar. Mas não duvide de mim, Leonard. Sou crescida e sei me virar perfeitamente... uma rainha no tabuleiro que não precisa de rei, sabe se locomover e dar o xeque quando necessário. - Meu Deus! A convicção de seu olhar, agora, sem lápis, ou batom nos lábios, faziam-me ter medo dessa mulher! Isso era: "está aqui seus 2.500 Francos e mais 1.500 para aumentar"?!?! Os jogos davam-me medo quando apontavam nessa direção: quando tinha um flush na mão, o adversário me inibia quando cobria minha aposta e elevava... terá uma 'mão' melhor?! Tinha que ler o seu olhar melhor, e isso demandava tempo.
- Claro, Miss. Não me interprete mal, por favor... estou aqui para uma conversa diferente do que se propõe atualmente, como política; mas sobre as pessoas, e acho que a Srta é a pessoa ideal pela sua inteligência e cultura... quem toma um Bourdeaux, apreciando como a Srta apreciou aquele, mostra um pouco disso para mim... - eu confesso que não sei jogar... sempre perco no poker por isso... revelo que sou frágil jogador e os demais nunca aceitam quando tenho uma boa 'mão', e quando desejo blefar, me lasco! Não sei blefar... Lady Kathy me encurralou no tabuleiro. Era preciso um coringa na minha mão para sair com uma canastra. Talvez eu tivesse... fiquei calmo...
- Agradeço os elogios, não acredito que seja tudo isso. Bem, o chá estava maravilhoso, mas tenho que ir. Encontramo-nos amanhã aqui novamente para um café forte?! Desejo ver seus livros...
- Claro, perfeito! Amanhã pela manhã. Trarei meus livros. - Levantei-me para cumprimentar sua saída.
Pronto. Conheci o tipo de mulher que era Lady Kathy: bem complexa! Ideal para ler meus livros, ideal para uma parceria de trabalho, ideal para me entender... talvez, até ideal para levar um relacionamento... ops... sou casado! Lembrei! Tenho que manter essa mulher perto de mim. Preciso de um coringa...
Voltei para a o apartamento de Clement, agora a conversa era com Bartolomeu. No enorme apartamento de Clement, notei que o jogo de poquêr entre meus amigos se desenvolvia com grande entusiasmo. Bartolomeu, novato naquele grupo, estava bem entrosado. Ganhava sucessivas mãos boas e a sorte estava a seu lado. Vi a mesa e fui me servi de scotch.
- Again?! You have a flush again and I lost again to you?! - Dizia Rubens em inglês para Bartolomeu. E esse, numa risada irônica, com sua mão esquerda, puxa as fichas para si.
- Ok, Sirs, now, the dealer is Rubens, and the big blind is Bartolomeu and Castro is small blind. - Anunciava Clement. Castro era amigo de Rubens. Rubens embaralhava as cartas como sempre: ágil e certo. Tinha trabalhado em casino a vários anos. Bartolomeu, a esquerda de Castro, ficava calado nessa. Tinha um valete e um 10 de copas. Um flush de novo?! Bem, Rubens, retirava o flop, saia um rei de copas, e um 9 de copas e um 9 de espadas. Rubens olhava com raiva Bartolomeu. Devia estar pernsando: de novo o flush? Bartolomeu aposta alto, mas devagar, enganando bem os demais da mesa. Rubens, retira o turn, uma carta de copas, um ás... Rubens, com dois noves, um de paus e ouros... tinha uma quadra perfeita de noves, um jogo mais forte que um flush...
- I'll rise to 2.500 the bet... - Bartolomeu, com toda a convicção. Castro estava fora, desde que tinha-se posto o flop na mesa. Chegava a vez de Clement...
- I'm out... - Jogava as cartas na mesa, desiludido.
- I'll pay your bet and rise to 5.000 dollars... - Uma quantia grande para a época! Os 2.500 de Bartolomeu mais 2.500 dólares! Rubens estava com uma quadra formada e Bartolomeu, nem flush tinha!
- I'll put more 2.500 to go on in game. - Bartolomeu, mais uma vez confiante. Rubens tinha que abrir o river, a última carta... e para a surpresa, uma rainha de copas... Bartolomeu, de forma incrível, tinha um royal straight flush, e ainda pedia mesa... Rubens, elevava a aposta para 8.000 dólares, e tinha-se muitas e muitas e muitas fichas na mesa... Bartolomeu, com uma quantidade razoável, sequer tinha a quantia que Rubens anunciava, aposta...
- All-in, - anunciava Bartolomeu... era a única forma de se manter no jogo e ver o que Rubens tinha na mesa... Afobado, Rubens até quebrou a ordem de mostrar as cartas, mostrou a sua poderosa quadra, rindo, muito, muito, muito... Bartolomeu, apenas joga as cartas na mesa... um valete e um dez de copas, que juntados ao rei, ao às, e a Rainha, formava o mais alto jogo do Poker... Todos olham as cartas espantados... Rubens, pasmo, leva as mãos à cabeça... tinha perdido tudo para Bartolomeu... incrível! O clima não ficou muito bom depois disso. Ganhar dos amigos não é muito bom, ou ético... a hostilidade ficou evidente entre meu velho amigo e Bartolomeu. Enquanto Clement e Castro acudiam Rubens, eu fui falar com Bartolomeu...
- Boa jogada. Eu não entendo como o Royal straight flush às vezes aparece para os outros e não para mim... Rubens tinha conseguido na semana passada um no casino, pensei que conseguiria de novo...
- Você não consegue por que é feliz no amor, é a velha frase: azar no jogo, sorte no amor... - Chavão barato, pensei, mas que era verdade para mim... não entrei no mérito da questão, mas explorei o tom derrotista dele.
- E você não é feliz no amor?! Problemas amorosos?!
- O amor não me tocou, não tenho amor por nada... sou um homem da guerra, algo inatingível. - Mentiroso! Logo vi que não falava a verdade! As pessoas se revestem de capas e pensam que os demais acreditam que são inatingíveis! Mas explorei mais a questão, de forma delicada, para não assustá-lo.
- Então nenhuma mulher o tocou?! Serás um homem de gelo ou algo do tipo?! Pensei que era latino e não escandivávio!
- Sou italiano, não me sensibilizei por nenhuma mulher; elas aparecem e vão para mim como algo como... como... como a brisa. Não me apego a ninguém... - Começava a me convencer... - Sou um homem de gelo, ainda não me atingiram... tenho minhas convicções e minhas teorias... conheço as pessoas pelo primeiro olhar e sei quem confiar ou não, o Sr me parece uma pessoa que devo confiar...
- Obrigado. - Completei.
- Sinta-se bem. Agora, gostaria de uma boa ducha e cama, poderemos conversar no café, o que acha?! - NÃO!!!! Pensei: tinha combinado com Lady Kathy! Ela tinha chegado primeiro e tinha que respeitar a ordem... - Que tal um almoço?! Acho que Rubens, Castro e Clement irão almoçar com o Princípe, logo, poderemos conversar no Palácio...
- Parece ser uma boa idéia. Bem, boa noite.
Não era apenas um almoço no Palácio do Príncipe... Rainier III tinha completado 10 anos de principado no ano passado e tinha dado a maior das festas... agora, com a Fórmula 1 visitando o país; ele completando 10 anos de principado; seu filho Albert completando três meses de vida; Caroline completando um ano e casado com a famosa atriz Grace Kelly a dois anos... a festa devia ser ainda melhor! Almoço, tarde de drinks e jogos e a tradicional noite de bailes! Estávamos muito bem, mas ainda precisava conversar com Clement e Rubens... meu laboratório estava armado: Bartolomeu e Lady Kathy... o que mais seria necessário?!