Wednesday, March 28, 2007

Mar Português

Chego num local desconhecido. Não sou acolhido. Sou pedra, sou gelo, sou animal, assim vivo, assim me tornei vivo até então. Mas... acolheram esse bruto, esse animal ferido, feroz, incessante diante de expressivas vitórias, mas de poucos resultados... contraditório e coerente, coeso... forte, mas fraco também. Assim foi... transformaram-me em outro, apegado às pessoas que bem me receberam, grato, melhor, honrado pela atenção, quando ignorava o mundo; pela força dada quando era fraco; pelo conhecimento, quando nada sabia...

Pelo olhar, me guiei; pela rocha, me mirei quando chovia forte no horizonte, recolhi minhas velas, temi que morreria... rezei ao bom deus... a chuva reduziu, o horizonte clareou, pude hastear minhas velas, receber a brisa em meu rosto, mesmo com uma chuva leve, num céu nublado... já enxergo a praia, em meu veleiro, marcado, mas valente veleiro, que não se entrega - a minha vida.

E tudo isso, por pura amizade... agora chega a hora de por seu veleiro na praia, de pegar umas 'chuvinhas', mas se elas aumentarem de tamanho, se elas ameaçarem seu barco, não se aflinja: estarei para navegar o quanto for necessário para ajudá-lo nesse Mar Portuguez...

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quere passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."

Thursday, March 15, 2007

Eva Peron

"[Che - Antonio Banderas]

Oh what a circus, oh what a show
Argentina has gone to town
Over the death of an actress called Eva Peron
We've all gone crazy
Mourning all day and mourning all night
Falling over ourselves to get all of the misery right

Oh what an exit, that's how to go
When they're ringing your curtain down
Demand to be buried like Eva Peron
It's quite a sunset
And good for the country in a roundabout way
We've made the front page of all the world's papers today

But who is this Santa Evita?
Why all this howling, hysterical sorrow?
What kind of goddess has lived among us?
How will we ever get by without her?

She had her moments, she had some style
The best show in town was the crowd
Outside the Casa Rosada crying, "Eva Peron"
But that's all gone now
As soon as the smoke from the funeral clears
We're all gonna see and how, she did nothing for years



[Crowd:]
Salve regina mater misericordiae
Vita dulcedo et spes nostra
Salve salve regina
Ad te clamamus exules filii Eva
Ad te suspiramus gementes et flentes
O clemens o pia
Hail, oh queen, mother of mercy
Our life, sweetness, and hope
Hail, hail, oh queen
To you we cry, exiled sons of Eve
To you we sigh, mourning and weeping
Oh clement, oh loving one"

[Oh What a circus - Antonio Banderas & Madonna, from the movie 'Evita']

Sunday, March 11, 2007

O último Tango em Paris

Era mais um dia daquelas aulas, não qualquer aula, mas a aula de que tanto Tom gostava, a de dança. Tom era moleque. Tinha 15 anos e estudava, saia-se muito bem em qualquer exame, fazia tudo com tanto esmêro que às vezes assustava os colegas. Tinha uma paixão, platônica, dessas que nem mesmo a guria sabe. Pertencia totalmente ao seu mundo, ao das suas idéias imaginárias.


Mas era o dia. O dia de mostrar a professora o quanto Tom dançava a mais que os demais colegas. Será que ele dançava mais? Bem, Tom não tinha dúvidas de que era o melhor em tudo o que fazia. Era apenas o melhor, nada a mais. Mas guardava para si isso. Não precisava mostrar a ninguém, exceto quando de fato era chamado para mostrar, e esse era o dia.


Como de costume, chamava sua companheira de dança. Bonita, muito bonita, mas que não despertava gosto em Tom. Amigos, como de praxe, invejavam sua posição. Tom, não. Após o espetáculo que mostrou aos colegas dançarinos, Tom sai de cena e no caminho ao toilete, encontra outro professor que vira sua apresentação.


'- Tom, você está cada vez melhor. Em breve poderá inclusive a almejar um posto de instrutor aqui no centro. ' Tom, orgulhoso dos elogios, retruca.'- Sim, mestre, é o que dizem, mas tenho uma dúvida cruel que não me deixa.' O Professor pergunta qual é a dúvida e Tom revela: 'O Sr tem alguma inspiração ao dançar?'. O interlocutor dá uma risada de leve, sabendo da astúcia a quem se dirigia: 'Dançar é uma arte. E como toda arte há inspiração. Você está certo. Infeliz do homem que não se inspira em nada, pois nada faz com esmêro. Eu sei que você tem uma inspiração, é clara no seu formalismo com a dama, no palco, você dança como se dançasse só, mas com uma condução perfeita da dama.'


Após uma longa conversa sobre o assunto e sobre a inspiração de Tom no palco, os dois descem a escada do centro e caminham em direção a secretaria. E nesse tempo, aparece a Joana de Tom. Não dançava, mas admirava. Estava ali apenas para acompanhar uma amiga que estava prestes a sair de sua apresentação. O professor deixou os dois rapidamente, ao perceber que era quem Tom amava. Tom, ali, resolveu dar início a mais dura de suas apresentações, a de falar com Joana a verdade.


Após algum tempo, despedem-se... Frio, Tom sobe as escadas, vai ao seu armário, busca seu paletó, dá um nó apertado na gravata e vai ao palco em mais uma de suas apresentações, a última da noite e talvez a última no centro como aluno. Aspirava com vigor ao posto de instrutor. Sobe ao palco, com cuidado e cálculo. Pede a música. A que sintetiza todos os seus sentimentos - Por una cabeza. Começa a música. Erra passos. Muitos. Mas ainda sim era superior aos seus colegas. Era realmente o melhor. E ousado. Termina o Tango numa figura rara, salvando toda a apresentação. Mas aconteceu o que acontece aos mortais: a dificuldade do passo lhe conferiu uma eterna dor em seu pé. Não a sentiu. Ao fim do último som, ele desaba de dor, uma dor no pé direito, que nunca mais lhe permitiu dançar. Era de fato o seu último Tango.