Sunday, February 03, 2008

A doçura da inocência

"Cuando crezcas, descubrirás que ya defendiste mentiras, te engañaste a ti mismo o sufriste por tonterías. Si eres un buen guerrero, no te culparás por ello, pero tampoco dejarás que tus errores se repitan" [Pablo Neruda - em O Carteiro e o Poeta]

"Escrevia para mudar o mundo, escrevo para dizer que ele me mudou."
[Anônimo]


Primeiro, eu não escrevo para ninguém em particular. Se assim o desejasse, o faria diretamente, por carta, pessoalmente ou por email mesmo. Em segundo, eu escrevo pela necessidade. Minha necessidade de tentar entender as coisas. Se assim fosse diferente, eu seria apenas mais um tapado que diz que vive. Não vou citar a frase de Descartes mais uma vez, mas pense nela. Eu quero falar da inocência. Segundo a Sahaja Yoga, o primeiro dos chackras, no corpo sutil; segundo alguns um sentimento bobo, existente apenas nas crianças; segundo outros, um sentimento bom, existente nas mesmas. Contudo, todos nós somos inocentes. Em um ou outro aspecto, somos. Eu estou enterrando muitos mortos a uns três meses. Coisas que achava que eram a verdade para mim, por exemplo. A filosofia de um monge, como eu dizia, viver, mas viver feliz. Notei que isso não era verdade no mundo. Pensava que tínhamos uma produção capitalista tal que não atingiamos níveis maior de desenvolvimento porque queriamos nossas matas vivas, nossos pássaros voando, nossas crianças brincando no parque... mas nunca isso foi alvo de uma decisão racional. Pensei que faziamos esse tipo de decisão em nível pessoal de nossas vidas, mas também não era verdade. A verdade é que aquele que não alcançou niveís mais altos de sucesso é porque é incopetente. E é essa a visão que me passaram. Essa é a visão que fere a minha inocência de acreditar em algo que não era verdade para todos, não digo, sequer a maioria.

O que importa para a nossa sociedade mediocre não é a felicidade, esse sentimento puro de inocência de acreditar que podemos viver com pouco e bem, mas sim o status, o poder, a cobiça de ser 'melhor' que os demais a sua volta. Nunca pensei assim. Sabia que havia gente assim. Sabia que existe gente que gosta de demonstrar sua vaidade, essas, muitas vezes maior que sua própria cabeça e seus poucos neurônios. Gente que gosta de uma cirugia plática não para si, mas para os outros; gente que gosta de ter joias não para embelezar-se, mas para mostrar aos outros; gente que tem um companheiro, ou uma companheira não porque gosta, mas porque não quer ser visto sem ninguém; gente que vai a missa, ouve tudo o que o padre prega, mas ao sair da igreja, fala blasfêmias, injurias, heresias a igreja ou a Cristo.

Eu acho que era inocente de acreditar que isso não era verdade a todos, mas é... isso não é decepção, seria se eu me frustasse totalmente com essa idéia, mas não estou. Fazendo um paralelo, na Sombra do Vento, o menino se decepciona com Clara, porque acredita que eles dariam certo, isso é decepção, quando você se frusta. Acho que não é o caso.

Por fim, termino dizendo que, apesar de essa ter sido minha verdade, de eu tido ouro, mas rejeitei porque acreditava que viver com prata era tão ou melhor que, eu não sei se mudo meu ponto de vista... talvez não o siga como profissão de fé, mas que não deixe de acreditar totalmente, pois não há uma verdade absoluta ou uma felicidade plena para todos, só há o que acreditamos, mas que essa idéia de vaidade não pode ser o alvo de tanta felicidade assim para um mundo todo... Não há graduados nessa escola, só uns que sabem um pouco mais que os outros, não sei se sei mais que os demais, sou humilde de pensar que sou um aluno, uma minhoca que aprendeu a brilhar um pouquinho mais... esse é também meu último post, perdeu meu sentido de escrever aqui, apesar da audiência boa, apesar de ser bom escrever... é que algumas coisas perderam o sentido para mim, porque assim eu o quis - uma nova era, eu vivo.

O Blog não sai do ar, é a única coisa que não quero enterrar a sete palmos do chão, não enterro o que eu disse, não nego o que eu disse, apenas não quero dizer mais, que ele fique aqui, a mostra de todos a fim de que não só poetas são inocentes, mas também gente comum e cotidiana... a inocência é doce... doce...

Wednesday, January 30, 2008

Decifrando o código

YEAH! Hoje é uma data histórica!!! A fase de decifrar o código do orientador se foi... era um verdadeiro código da Vinci! Tudo embananado e complicado, mas as forças do além e a vontade de fechar o mês bem na dissertação foram maiores que os contratempos. Quantos? Cinco mil e quinhentos e trinta e sete, só na primeira parte... mas agora só aumentam, mas pensa só: daqui a seis meses, eu serei mestre!!! Mestre-jedi, mestre-sala, mestre cuca, mestre de obra, grão-mestre,... all of it! E empregado! Certas vezes, penso que só faço as coisas erradas e tento e re-tento refaze-las para atingir a perfeição plena, mas sabe de uma coisa?! Não vou mais perder meu tempo! I don't give a damn! Nossa filosofia! Há outras filosofias que agora me guiam, mas essas eu não posso contar aqui, seria anti-estratégico. Aliás, "na Guerra, a verdade deve ser protegida por mentiras como guarda-costas", como dizia Churchill... vamos ver no que vai dar o plano...

Wednesday, January 16, 2008

Tchaikovsky

Quando eu cheguei em casa na madrugada do dia 16 para o dia 17, sentei-me na chaise do sofá branco da sala. Olhei e avistei um dos quadros franceses de minha mãe na parede e algo me veio a cabeça. Algo meio Revolução Francesa com Napoleão, enfim, uma coisa a ver. Imaginei se Napoleão tivesse enfrentado e ganho da Rússia do Czar Alexandre I, neto de Catarina, a Grande. Talvez a Revolução Francesa não tivesse sido Proclamada, talvez os ideais de liberdade, igualdade, fraternidade, presentes no Terceiro Estado Francês não tivessem inspirado os Pais dos Estados Unidos e hoje, ainda tivéssemos as trezes colônias pertencentes a Grã-Bretanha. Talvez, Tchaikovsky não tivesse composto uma das mais belas obras da música - 1812, Abertura. E isso que me liguei ao ver na biblioteca do meu Windows Media Player. Pus para tocar. Liguei o Home Theater da sala e deixei, em plena madrugada, o som invadir os meus ouvidos e aquela pintura francesa.

Em 1812, Napoleão tentou invadir a Rússia e se apropriar das riquezas daquele país, assim como fez Hitler, na Segunda Grande Guerra. Ambos fracassaram. Alexandre I, da inteligente casa dos Romanov, mandava seus exércitos recuarem e mandava a população por fogo nas casas e abandonarem as casas. Os exércitos de Napoleão ficavam na total penúria e no rigoroso inverno russo de 1812. Quando nada mais restava, Alexandre I mandava avançar e destroçar o pouco que restava de Napoleão Bonaparte.

Napoleão foi um grande líder, como um dia eu argumentei em classe, na oitava série (era uma espécie de julgamento de Napoleão e outros líderes, fui o advogado de defesa do francês), voltou a governar por cem dias, depois de assinar o Tratado de Fontainebleau. Fugitivo da Ilha de Elba, é derrotado pelos ingleses na Bélgica, em Waterloo e preso em definitivo na colônia penal Britânica de Santa Helena, no meio do Oceano Atlântico, entre o Brasil e a África. Deixou Josefina, seu grande amor, sem nenhum filho; mas casou-se com Maria Luisa da Áustria, tendo Napoleão II.

Mas sobre a orquestra de Tchaikovsky, posso dizer que o melodrama de escutar a Marseillaise, hino Nacional Francês, e uma parte do hino da Rússia Imperial, é fantástico. As salvas de canhão anunciando a virada russa, as perdas de Napoleão e o triunfo de um povo miserável e a míngua sobre uma civilização, pai e mãe de toda a tradição ocidental, a francesa. É incrivel. Embriaguei-me perto das caixas do home theater.

Um século depois, os Romanovs seriam substituídos pelos bolcheviques soviéticos e o país de russos se transformaria num União de 15 Repúblicas Soviéticas Socialistas. Mas a música de Tchaikovsky ainda lembra um passado distante daquele país...

Parte I

Parte II

Thursday, January 10, 2008

Aniversário de minha cachorra

Hoje a cachorra daqui faz 10 anos. Em 1998, ela nascia, e eu começava meu ensino médio. Tanta coisa veio nesses dez anos. Tanta coisa se construiu e se destruiu durante esse período. Isso me faz lembrar da destruição criativa de Schumpeter. Não que seja adepto, mas eu concordo nesse ponto. As coisas no mundo e na vivência das pessoas se constroem e depois se destroem para outras coisas mais modernas serem postas nos lugares de antes. É juízo de valor dizer que o telefone é mais bonito e rápido que o telégrafo. Alguns podem acreditar que as coisas antigas eram melhores que as atuais, como os saudosistas.

Assim, gosto de lembrar que uma cidade sofre transformações. Algumas partes dela se transformam e ficam mais modernas, mas não quer dizer que as partes antigas da mesma tenham perdido a graça. É como em Veneza. Transcrevo, para isso, as próprias palavras do Greenspan sobre o processo de destruição criativa em nossas vidas:

"E, então, chegamos a Veneza. Por mais necessária que seja a destruição criativa para a melhoria do padrão de vida material, não é à toa que alguns dos lugares mais atraentes do mundo são aqueles que menos mudaram ao longo dos séculos. Eu nunca tinha visitado a cidade e, como tantos outros viajantes antes de mim, fiquei absolutamente encantado. Nossa idéia era passear e fazer coisas absolutamente espontâneas. E, embora isso seja difícil quando se viaja com uma equipe de seguranças, não ficamos muito longe do nosso intuito. Comemos em cafés ao ar livre, fizemos compras, visitamos igrejas e fomos ao velho gueto judeu.

Durante séculos, a cidade-Estado de Veneza foi o centro do mundo comercial, ligando a Europa Ocidental ao Império Bizantino e ao resto do mundo conhecido. Depois do Renascimento, as rotas comerciais se deslocaram para o Atlântico e Veneza decaiu como potência marítima. No entanto, durante todo o século XVIII, Veneza continuou sendo a cidade mais sofisticada da Europa, centro da literatura, da arquitetura e das artes. "Então, que novidades há no Riato?", trecho famoso de O Mercador de Veneza, referindo-se ao centro comercial da cidade, ainda tange vibrante corda cosmopolita.

Hoje, o distrito de Rialto mantém a mesma aparência de quando os comerciantes descarregavam partidas de seda e de especiarias procedentes do Oriente. Pode-se dizer o mesmo dos esplêndidos palácios renascentistas, da Praça de São Marcos e de dezaenas de outras atrações. Não fossem as lanchas motorizadas - as vaporetti - dir-se-ia que se está no século XVII ou no século XVIII.

Enquanto passeávamos por um dos canais, o economista que se continha dentro de mim finalmente levou a pergunta. Perguntei a Andrea: "Qual será o valor agregado produzido nessa cidade?"

"Você está fazendo a pergunta errada", respondeu, e soltou uma risada.

"Mas toda essa cidade é um museu. Imagina o quanto custaria manter tudo isso."

Andrea parou e olhou para mim. "Você devia estar admirado como tudo isso é maravilhoso."

Evidentemente minha esposa estava certa. Mas a conversa serviu para cristalizar algo que havia meses eu ruminava num canto da mente.

Veneza, percebi, é a antítese da destruição criativa. ela existe para valorizar o passado - não para criar o futuro. [...] A popularidade de Veneza representa um dos pólos de um conflito da natureza humana: a luta entre o desejo de aumentar o bem-estar e o desejo de rejeitar a mudança e o estresse dela decorrentes."

Depois em passagem posterior, ele traça uma das mais belas frases, enaltecendo todo o caráter ruim das mudanças que ocorrem na frugalidade do dia-a-dia das pessoas, buscando status e poder, mas se esquecendo das pequenas coisas, do bucólico, do pastoril, da inocência, apelando para sempre um padrão de vida duro e metódico das grandes cidades cosmopolitas:

"[...] Nada é mais estressante que os ventos perenes da destruição criativa. O Vale do Silício é, sem dúvida, um lugar vibrante para trabalhar; mas eu diria que, até agora, seus encantos com estância para lua-de-mel não foi de modo reconhecido."

A minha cachorrinha passou dez anos comigo, e espero que mais dez anos ainda sejam possíveis, mas os efeitos da destruição criativa que passou em minha vida e de milhares de pessoas nesses anos é irreversível. Não há como se voltar atrás e a paisagem de um campo verde, com uma casinha de paredes brancas e telhado vermelho não é mais possível. O que guia a mente é o poder e o status, que, como dizia um amigo da Opus Dei: "- para depois encerrarmos num canto da lagoa e voltarmos a pescar"... buscamos tanto suporte, tanto status e poder, para chegarmos a idade de 70 anos para desfrutar o que temos hoje, saudosos dos velhos tempos da escassez...

Feliz Aniversário.

Sunday, January 06, 2008

Exuberância Irracional

Maximizar a utilidade dada as restrições. Nunca algo tão útil pareceu tão bem explicado. Tomar uma função de utilidade duas vezes diferenciável, separável, aproximá-la por uma linear quadrática, inserindo as restrições lineares dentro de seu argumento, é a coisa mais racional e lógica que se pode fazer. Tomei um funcional de Bellman, em que nele estava explicito tudo isso. O problema de tudo está em jogar isso para o computador. Por incrível que pareça, os computadores não trabalham na reta, mas com aproximações de números, de tal monta que seja possível obter resultados.

Pelos meus cálculos, minha meta é acertar tudo até março para enviar para uma revista de nome. Depois, queria trabalhar com finanças, talvez. Preciso de incentivos. Cada vez mais descubro que a humanidade funciona assim e que o sistema de preços é o melhor locus para a alocação de recursos escassos. Mas o livro do Greenspan vem me inspirando, aliás, ele mesmo me inspira. Estou particularmente interessado em como a Rússia deflagrou-se numa máfia generalizada devido a entrega do governo aos operários as ações de empresas estatais e o uso disso pelo mercado negro e mafiosos para enriquecimento ilícito e a falta de aparato institucional para enquadrá-los.

Como é viver numa sociedade sem direitos de propriedade, ou quando tudo depende e pertence ao Estado? Não invisto, não compro, não faço nada, porque nada é meu nem alguém. Tudo carece de sentido lógico quando pensamos que a passagem de um regime econômico socialista para uma economia de mercado é simples como o inverso. E não é.

A China, nesse aspecto, terá dificuldades. Mas estão se preparando. Os superávits que a mesma vem tendo indica um soft landing, ameaçando seriamente os Estados Unidos e a segurança do Dollar. As reservas chinesas estão em moeda americana e aplicadas em títulos americanos da dívida interna. Imagine se os chineses resolvem aplicar em empresas?! É o que está acontecendo. Os Fundos de Riqueza Soberana são uma realidada que incomoda os americanos por ameaçar de compra de empresas tradicionais dos EUA. Imaginem os chineses comprando o Citigroup, ou o Mahnattan Chase... é dureza. Mas eles estão tão certos quando a AOL comprou a Time Warner. Quando a bolha das pontocom explodiu, a AOL riu, pois agora ela ativos tão reais e punjantes quanto o mercado acredita. É como se a Google comprasse a General Motors. Ativos, como memórias de computador e chips, comprando metal e aço. Parece realmente que a caneta é mais forte que a espada, como se diz no ditado popular.

Vamos ver até onde vai nossa exuberância irracional. Ou racional?!

Monday, December 31, 2007

Vai velho, vai!

É assim todo fim de ano! O velho vai e o novo chega. É na verdade uma passagem de um dia para outro, nada além. Contudo, é também de um mês para outro, e de um ano para outro, sendo um marco, para muitos, para mudar... sim, tomar novos ares, nova vida, novo emprego, tudo novo... acontece que as coisas só são novas se quisermos que sejam novas. Tem que acreditar e tomar atitudes em direção ao novo, mesmo que, para isso, seja necessário negar o velho. Não nego o velho, pois ele me ajudou a viver de uma forma diferente, engraçada e as experiências ficam, sempre! Agora, são coisas novas que aparecem, mesmo que não mais tenha que negar o velho. Não me sinto a pessoa mais feliz do mundo por isso, até porque estaria mentido em dizer isso, dado que a felicidade plena não é possível, mas estou alegre, pois o momento me diz isso... como estou sofrendo uma sucessão de momentos de alegrias, talvez, a felicidade seja permanente para mim em breve... as coisas apontam nisso, o meu barco tomou o rumo certo...

Feliz 2008 e obrigado todos vocês que tem me acompanhado aqui no Blog. Atingi minha meta quantitativa de 1000 visitantes, e isso foi ótimo. Um dia escrevo para dizer o que aconteceu de novo, por hora, vou deixar rolar, porque assim está ótimo!

Wednesday, December 26, 2007

Natal


Amados irmãos e irmãs,

“Chegou o dia de Maria dar à luz, e teve o seu filho primogênito. Envolveu-O em panos e recostou-O numa manjedoura, por não terem lugar na hospedaria” (cf. Luc dois, 6-7). Estas frases não cessam de tocar os nossos corações. Chegou o momento que o Anjo tinha preanunciado em Nazaré: “azede dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo” (cf. Luc 1, 31-32). Chegou o momento que Israel aguardava há muitos séculos, durante tantas horas sombrias – o momento de algum modo esperado por toda a humanidade, ainda que sob figuras confusas: que Deus viesse cuidar de nós, que saísse do seu esconderijo, que o mundo fosse salvo e tudo se renovasse. Podemos imaginar com quanto cuidado interior, com quanto amor Se preparou Maria para aquela hora. A breve anotação “envolveu-O em panos” deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos, para que o Menino pudesse ser bem acolhido. Na hospedaria, porém, não havia lugar. De algum modo a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade tão imperiosa de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas, que não resta nada para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo de si mesmos. Tanto menos pode entrar o outro.

João, no seu Evangelho, fixando-se no essencial, aprofundou a breve notícia de São Lucas sobre a situação de Belém: “Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram” (1, 11). Isto se aplica antes de tudo, a Belém: o Filho de David vem à sua cidade, mas tem de nascer num curral, porque, na hospedaria, não há lugar para Ele. Aplica-se depois a Israel: o enviado chega junto dos Seus, mas não O querem. Na realidade aplica-se à humanidade inteira: Aquele por Quem o mundo foi feito, o Verbo criador primordial entra no mundo, mas não é ouvido, não é acolhido.

Em última análise, estas palavras aplicam-se a nós, a cada individuo e à sociedade no seu todo. Temos nós tempo para o próximo que necessita da nossa, da minha palavra, do meu afeto? Para o doente que precisa de ajuda? Para o prófugo ou o refugiado que procura asilo? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida? Encontra um espaço em nós, ou temos todos os espaços do nosso pensamento, da nossa ação, da nossa vida ocupados para nós mesmos?

Graças a Deus, a notícia negativa não é a única, nem a última que encontramos no Evangelho. Tal como encontramos em Lucas o amor de Maria, a mãe, e a fidelidade de São José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, tal como encontramos em Mateus a visita dos doutos Magos, vindos de longe, assim também João nos diz: “Mas, a quantos O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus” (Jo 1, 12). Existem aqueles que O acolhem e deste modo, a começar do curral, do exterior, cresce silenciosamente a nova casa, a nova cidade, o novo mundo. A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão dum mundo fechado, e deste modo clarifica sem dúvida uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não Se deixa fechar fora. Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que vêem a sua luz e a transmitem. Através da palavra do Evangelho, o Anjo fala-nos também a nós, e, na liturgia sagrada, a luz do Redentor entra na nossa vida. Quer sejamos pastores quer sejamos sábios, a luz e a sua mensagem convidam-nos para nos pormos a caminho, sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Senhor e adorá-Lo. Adoramo-Lo abrindo o mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera.

Nalgumas representações natalícias da Baixa Idade Média e princípios da Idade Moderna, o curral aparece como um palácio arruinado. Ainda se pode reconhecer a grandeza de outrora, mas agora foi à ruína, as paredes caíram: tornou-se, isso mesmo, um curral. Embora não tendo qualquer base histórica, esta interpretação, no seu aspecto metafórico, exprime contudo algo da verdade que se encerra no mistério do Natal. O trono de David, para o qual estava prometida uma duração eterna, encontra-se vazio. Outros dominam sobre a Terra Santa. José, o descendente de David, é um simples artesão; na realidade, o palácio tornou-se uma cabana. O próprio David começara por ser pastor. Quando Samuel o procurou para a unção, parecia impossível e absurdo que semelhante jovem-pastor pudesse tornar-se o portador da promessa de Israel. No curral de Belém, lá precisamente onde se verificara o ponto de partida, recomeça a realeza davídica de maneira nova: naquele Menino envolvido em panos e recostado numa manjedoura. O novo trono, donde este David atrairá a Si o mundo, é a Cruz. O novo trono – a Cruz – é o termo correlativo ao novo início no curral. Mas é assim mesmo que se constrói o verdadeiro palácio davídico, a verdadeira realeza. Este novo palácio é muito diverso do modo como os homens imaginam um palácio e o poder real: é a comunidade daqueles que se deixam atrair pelo amor de Cristo e, com Ele, se tornam um só corpo, uma humanidade nova. O poder que provém da Cruz, o poder da bondade que se dá: tal é a verdadeira realeza. O curral torna-se palácio: é precisamente a partir deste início que Jesus edifica a grande comunidade nova, cuja palavra-chave os Anjos cantam na hora do seu nascimento: “Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama”, ou seja, homens que depõem a sua vontade na d”Ele, tornando-se assim homens de Deus, homens novos, mundo novo.

Gregório de Nissa, nas suas homilias natalícias, desenvolveu a mesma idéia a partir da mensagem de Natal do Evangelho de João: “Levantou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). Gregório aplica esta imagem da tenda ao nosso corpo, que ficou como tenda consumida e frágil; exposto por todo o lado à dor e ao sofrimento. E aplica-a ao universo inteiro lacerado e desfigurado pelo pecado. E que diria ele, se tivesse visto as condições em que hoje se encontra a terra por causa do abuso das energias e da sua exploração egoísta e sem respeito algum? Uma vez, de maneira quase profética, Anselmo de Cantuária descreveu antecipadamente aquilo que vemos hoje num mundo inquinado e ameaçado no seu futuro: “Tudo estava como que morto, tinha perdido a dignidade para que tinha sido feito, ou seja, para servir aqueles que louvam a Deus. Os elementos do mundo estavam oprimidos, tinham perdido o seu esplendor por causa do abuso de quantos os tornavam servos dos seus ídolos, para o quais não tinham sido criados” (PL 158, 955s). Assim, retomando a perspectiva de Gregório, o curral na mensagem de Natal representa a terra maltratada. Cristo não reconstrói um palácio qualquer. Veio para restituir à criação, ao universo a sua beleza e dignidade: é isto que tem início no Natal e faz rejubilar os Anjos. A terra é posta de novo em ordem pelo fato de ser aberta a Deus, de obter novamente a sua verdadeira luz, e, na sintonia entre querer humano e querer divino, na unificação das alturas com a realidade cá de baixo, recupera a sua beleza, a sua dignidade. Deste modo, o Natal é uma festa da criação reconstruída. É a partir deste contexto que os Padres interpretam o canto dos Anjos na Noite santa: é a expressão da alegria pelo fato de as alturas e a realidade cá de baixo, céu e terra se encontrarem novamente unidos; de o homem estar de novo unido a Deus. Segundo os Padres, faz parte do canto natalício dos Anjos que, agora, Anjos e homens possam cantar juntos e que, deste modo, a beleza do universo se exprima na beleza do canto de louvor. O canto litúrgico – sempre segundo os Padres – possui uma dignidade própria particular pelo fato de ser um cantar juntamente com os coros celestes. É o encontro com Jesus Cristo que nos torna capazes de ouvir o canto dos Anjos, criando assim a verdadeira música que decai quando perdemos este “cantar com” e “ouvir com”.

Na gruta de Belém, tocam-se céu e terra. O céu veio à terra. Por isso, de lá emana uma luz para todos os tempos; por isso lá se acende a alegria; por isso lá nasce o canto. Quero, no termo da nossa meditação natalícia, citar uma singular afirmação de Santo Agostinho. Ao interpretar a invocação da Oração do Senhor “Pai Nosso que estais nos céus”, ele interroga-se: O que é isto, o céu? E onde é o céu? Segue-se uma resposta surpreendente: “…que estais nos céus – isto significa: nos santos e nos justos. Temos, é verdade, os céus, os corpos mais elevados do universo, mas sempre corpos são, os quais não podem estar senão num lugar. Na realidade, se se acreditasse que o lugar de Deus seria nos céus enquanto as partes mais altas do mundo, então as aves seriam mais felizardas do que nós, porque viveriam mais perto de Deus. Ora não está escrito: “O Senhor está perto de quantos habitam nas alturas ou nas montanhas”, mas sim “O Senhor está perto dos contritos de coração” (Sal 34/33, 19), expressão esta que se refere à humildade. Do mesmo modo que o pecador é chamado “terra”, por contraposição também o justo pode ser chamado “céu”" (Serm. in monte II 5, 17). O céu não pertence à geografia do espaço, mas à geografia do coração. E o coração de Deus, na Noite santa, inclinou-Se até ao curral: a humildade de Deus é o céu. E se formos ao encontro desta humildade, então tocamos o céu. Então a própria terra se torna nova. Com a humildade dos pastores, ponhamo-nos a caminho, nesta Noite santa, até junto do Menino no curral! Toquemos a humildade de Deus, o coração de Deus! Então a sua alegria tocar-nos-á a nós e tornará mais luminoso o mundo. Amém.”


Homilía do Santo Padre na Missa do Galo, Cidade do Vaticano (Itália).