Sunday, September 30, 2007

Comercial

Excelente.


Alea jacta est

"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
[Clarice Lispector]

Mais alguns papéis sobre o Hemingway de Bartolomeu me diziam mais coisas ele... mas como dissera, minha mente de investigador estava longe de conseguir fixar-me nas provas e nos autos do processo, tinha problemas maiores a tratar, tinha que ter com minha mulher uma conversa séria...

Saira para um café para tomar um chá... pedi um de casca de bergamota, depois um de maça, outro de limão siciliano... meu estômago, enojado de tanta descrença, de tanta água, estava ligeiramente 'afogado' nos meus pensamentos apodíticos... mas tinha fé na mudança, tinha fé que tudo era para ser ou que deveria ser, num futuro próximo, bem melhor do que era... ilusão.

Perdia para Bartolomeu. Dos três a um, passara a três a dois, a iguais e depois perdera o game. Se tudo tem um começo, tudo parece ter um fim, diz a lógica, dado a necessidade de reiniciar novas tarefas e planos... outra ilusão. A lógica me abandona. A sorte me abandona. As pessoas me abandonam, zombam de mim, depois se fazem de indiferentes, ignoram-me novamente, e reinicia outro ciclo de desespero e pensamentos antigos... saio do café, e a única lembrança que tenho depois é um carro me atropelando, pegando-me em cheio...

* * * * * * *


- Leonard?! Leonard?! Sou eu, Rubens, seu amigo...

A imagem de Rubens veio-me a mente como algo angelical. Algo como o fim de tudo. O fim de um sofrimento intenso.

- O que aconteceu?!
- Atropelamento. Quebrou a perna esquerda, ligamentos quebrados na altura do joelho e... a rib bro... quebrada... o que é rib?
- Costela.
- Isso, costela, está aqui em francês, do outro lado da plaqueta.
- Bem, e quanto tempo fico aqui?!
- O necessário... quase duas semanas...
- Duas semanas?! E como vou trabalhar?! E minha mulher?!
- Bem, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é... provavelmente, a bebida lhe largou sobre um carro, e, agora, sobre a maca...
- Não sei o que dizer...
- Não diga nada, nessas horas, o melhor que se tem a fazer é ficar calado, escutar, e viver feliz. O segredo da felicidade é não pensar determinadas vezes. Isso estraga o processo.
- Preciso de caneta e papel. Preciso escrever. - Dizia eu...
- Ok, vou providenciar.
- Rubens, preciso de sua ajuda, quero sua total confiança em mim, preciso que converses com Bartolomeu, preciso que faça um 'serviço sujo'...
- Com aquele carcamano?! De novo, você não larga disso nunca?! Deixa isso para lá...
- Preciso, Rubens! São pessoas ideiais para a leitura de meus livros... isso é coisa rara hoje em dia!
- Mon dieu... o que quer que eu faça?! E por que disseste "pessoas", no plural?!
- Errrr... deixa eu te contar: tem uma mulher chamada Katarine... ela é a outra pessoa que preciso manter contato. Ela é tão misteriosa quanto Bartolomeu, quero que os dois se conheçam, preciso também dos feed-backs de ambos... preciso que converse com essa Lady e me traga alguns papeis de Bartolomeu...
- Conversar com mulheres é um prazer, mas 'trazer papeis'?! Roubar?! Serviço de espionagem?!
- Errrrr... bem... éeeee... deixa eu te expli...
- Ótimo! Fechado! Eu também quero saber o que aquele desgraçado tem que eu não tenho. Filho da mãe, tinha um Royal Straight Flush e ficou calado!

Foi impressionante como Rubens aceitara minha atitude rasteira de roubo de correspondência... mas, tudo pelo conhecimento. Como dizia Bartolomeu, as decisões mudam de acordo com o ambiente...

- Claro! Se estiver certo, ele tem alguma coisa que você não tem! Talvez, alguma manha nova, esses carcamanos sabem de uma série de novas técnicas...
- Perfeito, Leonard! Gosto que esteja do meu lado, vamos acabar com eles...

- Rubens, espere... - Ia eu me levandando a fim de ele me escutar no portla da porta do quarto.
- Minha mulher... visite-a no Hotel de Clement... ela já chegou?!
- Ontem,
- Ontem?!
- Sim, ontem.
- Que dia é hoje?!
- Dia 17. Dia de treinos para a classificação.
- Perdi o baile?!
- Hahahahah... se perdeu! Dancei até com vossa esposa! Heheheheh... Bartolomeu dançou também, se deseja saber, odeio aquele cara, deve ter um imã para mulheres e o jogo!
- Faça-me o favor?! Peça uma linha telefônica para meu quarto. Preciso de aparelhos de escuta acoplados. Isso. Telefone, escuta, papel, caneta e... bem... se eles tiverem suco de laranja concentrado, eu gostaria de um a cada hora...
- Eu entendo quase tudo, mas o suco... bem... vou providenciar... quer uma TV?! Isso é meio difícil, mas consigo com o Clement, ele sabe alguém das equipes que possa instalar um terminal de vídeo para você acompanhar a corrida...
- Não, quero que você me faça um outro favor: pegue meu suit no meu quarto, no apartamento de Clement. Há 3.500 francos no bolso direito. Aposte tudo no Trintignant, ele é francês...
- 3.500 francos franceses num piloto francês?! Está sob efeito de algum remédio?! Deixa eu ver aqui...
- Não, Rubens, sem brincadeiras! Aposte nele!
- O Tony Brooks está na pole position, você quer apostar em alguém sem expressão alguma?! Aposte no Fangio!
- Faça isso, Rubens, por favor, sim?!
- Ok... dá pena isso, se me emprestasse, eu poderia pagar meu carro e poderia reembolsar você com juros.
- Metade do prêmio é seu, se eu ganhar, certo?!
- Fala isso porque vai perder! Bem, farei os pedidos. Cuide-se.

Perdi alguns detalhes importantes do dia 16. Agora, eram 4 horas da tarde do dia 17. Quase o dia 18. O que será que aconteceu?! E minha mulher?! Ela que me mandou apostar num francês... seguia os seus 'conselhos'... tinha agora que acompanhar de longe, bem longe de Bartolomeu e Kathy, o desenrolar da estória...

Tony Brooks... será que aquele inglês iria me trair, vencendo?! Será que o francês ganha para mim?! Os jornais diziam que estava contra a maré:

"Monte-Carlo, Monaco - 17 Mai de 1958: Aujourd'hui, nous a eu la grande Fête de la vitesse, la Formule 1. Le jour de qualifiez a ête très bon et les équipes a présenté une grand dispute entre eux. En outre, il y aura une belle dispute entre les nationalités anglaises et françaises pendant la course. Par exemple, le pilote anglais Tony Brooks a ête plus vité que les autres pilotes, avec une recouvrement de 1'39.8. Il sera le pole position. La BRM du français Jean Behra a ête le deuxième et Jack Brabham a ête le troisième du Grid. Les autres pilotes plus vitesse sont ête: 4me, Roy Salvadori (anglais); avec Cooper-Climax; 5em, Maurice Trintignant (français), avec une Cooper-Climax; 6em, Mike Hawthorn (anglais), avec une Ferrari.

Les Ferraris sont la grand atraction de la Formule, tout les italiens vient de Modena pour voir "La Scuderia", comment les tifosi adorent.

Mais les pilotes italiens n'a pas eu un bon jour. Luigi Musso (Ferrari) et Giorgio Scarlatti (Maseratti) sont dixième et quatorzième du Grid.

Se tout las prévisions se maintiennent, l'anglais Tony Brooks (Vanwall) vas gagner. Il a ête deuxième en le Grand Prix de Monaco, en 1957, seulement derrière de le grand pilote argentine Juan Manuel Fangio qui n'est pas en cet Grand Prix. Mais, Trintignant aussi a gagné en 1955. Alors, alea jacta est..."


[L'anglais Tony Brooks - Vanwall]


[Le français Maurice - Cooper-Climax]


Será que eu ganharia algo?! Será que o placar está a meu favor?! O fim da notícia dizia tudo na frase latina alea jacta est, a sorte está lançada...
Era preciso esperar um pouco Rubens chegar com novas informações... o dia 18 de Maio se aproximava, com cautela e euforia...

* * * * * * *


"Weiss tem uma fraqueza que todos os escritores possuem para ter o que escrever. Mas confesso que mesmo os que não possuem capacidade de escrever belos textos tem também a fraqueza diante de certas pessoas, para mim, a minha amada; para ele, Emmanuelle. Até as mulheres que vejo, tendo buscar as características de minha amada. Curiosamente, notei, no baile do Príncipe que havia uma mulher de beleza singular, que, confesso, tinha feições características e modo de se vestir semelhante a CVM... O primeiro contato apenas se restringiu a isso e nada além. Noto que poderia ser uma boa possibilidade de ter uma nova chance em minha vida, a chance de me libertar, assim como falei da boca para fora para Weiss. Tenho dificuldade de por em prática o que penso, mesmo sendo boas idéias... esse é o maior defeito de um sujeito teórico, a falta de impusividade...

Bartolomeu
"

- Bem, o quê acha?!
- Acho que Ian Fleming vai incluir você no novo dueto: os agentes secretos de Sua Majestade Real!
- Eu não quereria ser um agente britânico do MI6...
- Amigo, se tudo correr certo, a Guerra Fria vai fornecer o maior e melhor pano de fundo para o escritor birtânico escrever sobre James Bond, já foram cinco livros! Casino Royale, Live and let Die, Moonraker, Diamonds are forever, From Russia with Love e Dr. No... Eu invejo Fleming... aposto que a Indústria Cinematográfica vai entrar a fundo nisso... se os livros já são bons, imagine o filme disso?!
- Pode ser...
- Claro que vai ser! Fleming, quando escreveu Casino Royale, escreveu sobre suas experiências de Casino em Portugal, perdendo muito, daí, criou um agente secreto do Serviço Britânico, o Ministry of Inteligence 6 (MI6), para diminuir a culpa de suas perdas quando jogar... você cria um herói para se passar de vencedor!
- E você?! Cria muitos heróis?!
- Meus livros são de conteúdo diferente... por sinal, entrou em contato com Katerine?! Fez minha aposta?!
- Fiz a aposta... Mas que bela dama... mas entrei sim em contato... ela é solteira?!
- Não vamos começar a falar de mulheres, Rubens... Continuemos sobre a família de Fleming... seu irmão era escritor e escreveu sobre expedições no Mato Grosso, no Brasil, sabia?! Aliás, seu pai, Valentine Fleming, já era major das forças armadas, o que mostra que a espionagem e aventuras sempre estiveram ligadas a família... mas sobre sua mãe...

Adorava conversar com Rubens quando eu comandava a conversa, ele tinha bons insights, mas tinha um só assunto... precisava guiá-lo, certas vezes...

Eu tinha bons insights na naquela época... conseguia prever muitas coisas, James Bond teve a maior quantidade de filmes sobre um só personagem até hoje... e Rubens nunca passou de um araponga de segunda... Bem, c'est la vie...

Eu só não imaginava o que tramava minha mulher... os dias no hospital me fizeram uma pessoa mais responsável, pois podia pensar mais sobre a minha vida, relembrar os erros cometidos e pensar em boas soluções em não mais cometê-los, mas a sombra e sabor do acaso, eu sabia que iria cometê-los de novo... como foi com minha mulher assim que ela me visitou... ela conseguiu comprar o mesmo peixe por um preço ainda menor... sentia-me reduzido por isso... talvez fosse a fraqueza que Bartolomeu me disse, em carta... sentia que todos continuavam zombando de mim... já eram 22h33 e estava com sono... tinha que dormir, quem sabe não conseguia resolver meus problemas nos meus sonhos?!

O meu cansaço de esperar era evidente nauqela maca...


* * * * * * *

Thursday, September 27, 2007

As cartas...

One's philosophy is not best expressed in words; it is expressed in the choices one makes. In the long run, we shape our lives and we shape ourselves. The process never ends until we die. And, the choices we make are ultimately our own responsibility.
[Eleanor Roosevelt, Roosevelt's wife]


Depois de sair do Café, minha esposa veio a minha mente. Não conseguia imaginar o que Clement me dizia... estava confuso. Fui ao Hall do Hotel da esquina e fiz uma reserva para ela assim que ela chegasse de Paris. Paguei e mandei o motorista do Hotel pegá-la em Nice. Queria conversar com ela a sós. Na volta, via uma Igreja, entrei...

Fiz o sinal da cruz e ajoalhei-me num dos bancos. Comecei a Ave maria... mas desisto no meio... pensava nela. Ela era minha fortaleza que me fazia forte para protegê-la de tudo, de todos... não imaginava isso, ela, de mim. Era doce, mas estava me tornando diabético com isso! Depois de dois anos de casados, as lembranças boas vinham a tona, do nosso namoro, de nossos bons momentos juntos no pequeno Citroën de seu pai em Paris... a noite da cidade nunca deixava de nos acolher, de permitir que minha boca pregasse junto a dela, que minhas mãos escorregassem sobre suas pernas, sobre suas costas, enquanto meu rosto viajava pelo seu pescoço e busto beijando-lhe, enquanto o respirar dela tornava-se sonoro aos meus ouvidos, enquanto ela retorncia-se pelas minhas carícias e mimos no banco traseiro do carro, e me acariciava com prazer e vontade, me consumindo, assim, como eu, ela... as janelas 'suadas' pelo vapor de nossos corpos em chamas cobriam e resguardavam nosso contato íntimo... lembrava-me disso como se fora ontem... tinha saudades disso... combinávamos... tentei várias vezes isso nos últimos meses, mas em vão... estava fria comigo... teria cansado de mim?! Perdia os pensamentos por alguns instantes... pensava em céus, azuis infinitos em minha mente... tinha perdido a vontade de pensar nessas boas lembranças, pois para mim, eram parte de um passado que não mais me pertencia... minha mulher tornava-se outra...

Sai da Igreja... fui ao apartamento de Clement... lá estava Rubens, pronto e muito elegante para o almoço com o Príncipe. Iniciei um diálogo...

- A viagem de ontem fora dura... muito cansativa...
- Duro é perder o que não se tem, olha aqui, aquele seu amigo de uma figa me extraiu toda a grana que devia ter para pagar o restante do carro... estou possesso com isso, terei que trabalhar mais horas extras para aquele desgraçado nadar em meu dinheiro!
- Calma, Rubens, tudo tem seu tempo... aposto que serás amigo de Bartolomeu como eu sou o dele... as decisões mudam de acordo com o ambiente e tempo.
- Não vou mudar nada e dane-se ele, ok?!

Deu-me os ombros e fora para o quarto ter com Clement os últimos acertos para o almoço. Bartolomeu, no banheiro de sua suíte, estava também terminado de se aprontar. Fui ter com ele a conversa inaugural...

- Elegante! Pareces que vai até encantar uma donzela!
- Já encantei algumas, isso não é tanto o problema. A maior das problemáticas é que as mulheres tem um tempo que a maior parte dos homens não está disposta a aceitar para a espera, daí, finda-se um excelente relacionamento.
- Poderia explicar com maior cuidado?!
- Assim: você se apaixona por uma pessoa, entrega-se a ela, e mesmo assim, ela não te corresponde... nós sabemos do que estamos falando. E o que acontece, quando damos uma, duas, três chances, desistimos, e sabe por que desistimos?! Porque o desgaste é grande e um homem não é capaz de sofrer desgastes quanto uma mulher. Isso é biológico e uma hora estouramos, libertamo-nos. Cada homem possui esse tempo e a disposição a se desgastar, de acordo com a paixão que possui. Eu, por exemplo, sou de pouca duração...

E eu, de muita... que droga! Ele sabia de coisas incríveis mesmo sendo uma pessoa tão anti-social e arrogante, era muito observador.

- O que representa um 'estouro'?!
- Representa o fim. Representa que você, por mais apaixonado que esteja, está de saco cheio de tudo, uma força de dentro diz isso. As mulheres tem a faca e o queijo nas mãos com os homens apaixonados, mas mesmo assim, preferem os que não as amam... é um drama cruel que os livros não descrevem, esqueça esses romantismos e obras esdrúxulas, não te levam a nada... apenas a sofrimento de imaginar que alguém pode te salvar. O primeiro e mais importante pecado é a 'sinceridade', o dia que for sincero com uma pessoa que disse que não te ama, sofrerás, por culpa própria.

Bartolomeu tinha uma sinceridade pétrea comigo. Tinha uma verdade que tocava-me profundamente em nossos diálogos. Sentia-me que estava sendo aconselhado por um amigo de longa data, que conhecia Emmanuelle, que conhecia a mim e o nosso casamento. Será que apenas eu não enxergava isso?! Será ele, apenas ele que conseguia ter o distanciamento ncecessário para me aconselhar em tão grande estilo?! Sofria. Sofria bastante com toda essa situação embaraçosa. Mas uma coisa de diferente de "Noites Brancas" era que eu não me fazia de vítima. Tinha uma parcela de culpa pelos meus mimos excessivos a minha mulher desde o início e que ela não foi capaz de compreender que eram de bom agrado pela sua presença. Ela ignorava isso.

Após a leve reflexão, fomos ao almoço com o Príncipe Rainier. A mesa gigantesca, contando com várias personalidades do velho continente davam o tom de que seria o dia 16 de maio de 1958: um dia da aristocracia européia. Dava-me um pouco de nojo aquilo tudo; os assuntos eram interessantíssimos: o caso de Anna O. e o Dr Breuer, amigo do avô de Freud; a Psicoterapia de Carl Jung e a briga teórica com Freud, os novos conceitos de Animas e Animus; o cinema e a atuação da Princesa e atriz Grace Kelly em seu último filme High Society, de 1956; a Política britânica para com a partilha da África; a doença do Papa Pio XII; além da possível entrada do Gen. de Gaulle para a Política Francesa e os impactos disso sobre a soberania do Principado e a mudança da Política americana para com o mundo, expressa nas ações de Eisenhower.

Mas eu tinha tantos problemas na minha cabeça que não suportava conversar com todos e os verdadeiros assuntos que me chamavam a atenção estavam pairando sobre minha cabeça, sem saída, tentando encontrar alguém que eu possa desabafar... Mas não... Ficavam ali, cerrados em minha cabeça.

A única coisa que tinha para me distrair eram duas coisas que na verdade eram uma: Bartolomeu e suas conversas pertinentes, motivadas e bem argumentadas com todos na mesa; e um outro papel branco que conseguia pegar sobre seu bureau...

"Mônaco, 15 de Maio de 1958

Amor,

você pode realmente ter me abandonado. Pode realmente ter me esquecido, mas uma coisa que aprendi é viver só, por mais que isso pareça melancólico, mantenho-me bem. Você desperdiçou a chance de sermos felizes, você desperdiçou a chance de nos amarmos. Eu fiz a minha parte. Você não correspondeu com a sua. A sua falta de força de decisão me leva a trilhar por caminhos que desconheço e que não sem onde darão... se é essa a sua decisão, se é essa sua escolha: a falta de escolha, então, a sorte está lançada. A sorte de você no futuro me ter ou me perder definitivamente. As minhas escolhas estão feitas, e é você; mas se amanhã ou depois chover, fazer Sol, vou ter que abrir o guarda-chuvas para me proteger, vou ter que tomar outras decisões que não serão as mesmas que estou tomando agora.

Mas se é assim que deseja, se é assim que mais uma vez quer, aceito a sua 'não-decisão' sem ressalvas. O dia que mudar de idéia, continuará tendo meus contatos; poderá me chamar. O único problema é que o tempo não pára...

L. Bartolomeu"


Xeque-mate. Até os mais rudes e fortes tem sentimentos. Quem era o 'amor' de Bartolomeu?!

* * * * * * *

O maître me chama em francês para uma chamada de Nice. Retiro-me.

- Alô?!
- Alô... c'est de Nice, je m'appelle Rodolph et je suis choufer de Madame Weiss, et je voudrais savoir quelle hotel est-ce que vous reservez?!
- Je reservé Dorchester Hotel...
- Ah, oui, je sais. Merci Monsieur, à bientôt.

Minha mulher estava perto. Poderia tirar a limpo com ela o desgaste e tudo mais.

Voltei ao apartamento de Clement pegar um casaco extra para ela; passei do bureau de Bartolomeu e dentro de The Old Man and the Sea dele, encontrei uma carta:

"New York, NY - 1° de maio de 1958

Sinto a sua falta... sinto falta de seus beijos, sinto falta de seus afagos, de seu cheiro, de seu suor, de seus mimos e carinhos... queria você aqui agora, mas não posso ter-te. Nossos eternos bons momentos, seu eterno amor a mim serão lembranças que não passarão de minha memória, não saem de minha cabeça, influenciam meu escrever, a roupa que visto, o meu falar com as pessoas. Você é o homem que me deu atenção, sobretudo, e soube me amar como nenhum outro. Teve coragem de dizer isso, ter coragem de manter isso quantas vezes fossem necessárias. Agora, você se foi e no meu viver se fazem vivas ainda tudo o que passamos juntos no Mediterrâneo. Amor, tenho medo de te perder, tenho medo que nunca mais volte; mas tenho medo de estarmos juntos, não sei se amo, as confusões em minha cabeça são ainda muitas e tenho medo de estarmos de volta, de nosso futuro, de nossos planos... mas saiba que você é a pessoa que considero em cada olhar nessa cidade...
Beijo no seu nariz, que amo...
Cuide-se
C.V.M.
PS: Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida. "

Agora, quem se confundira ainda mais, era eu...


["Eu escrevo como se fosse salvar a vida de alguém. Provavelmente a minha própria vida." - Clarice Lispector]

Sunday, September 23, 2007

Fly me to the Moon...

A suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados
[Victor Hugo]

Antes de discar o número, abri cuidadosamente o papel branco, a fim de não rasgá-lo, e com uma tinta preta forte, li o seguinte texto:

"O que me faz ser humano é fazer o que me diverte. O que me leva a fazer o que me diverte é o pulsar de minha veia. O que faz pulsar o sangue em minhas veias é um coração que bate. O que faz um coração bater é a emoção de viver bons momentos...

Não tenho emoções..."

Era um jogo de palavras e construções lógicas que tinham um fundo moral: ele tinha pouco a ver com um ser humano, ou se considerava um não-humano. Talvez pela frieza, talvez pela força de superar tudo e todos. Era Bartolomeu.

Disquei para a telefonista e ela me passou para Paris, o telefone no quarto de Emmanuelle, no apartamento dos seus pais.

- Bonsoir, chèrie, c'est moi, Leonard...
- Salut, mon chèr, ça vá?!
- Non! tu ne s'est pas renvoyé de moi... Eu sinto sua falta!
- Sinto também sua falta... queria estar em Monaco com você...
- Venha para cá, amor, há quartos suficientes na casa de Clement e amanhã teremos a cerimônia do Príncipe para ir...
- Não sei... não estou muito certa de ir...
- Poucas vezes esteve certa juntos! Você tem que ter em mente que perde importantes encontros com tanta indecisão... se me amas, tem de vir...
- Amo muito, muito, muito você, completa minha pessoa, és a pessoa ideal para continuar toda minha vida: você está sempre por perto cuidando para que nunca eu esteja para baixo e querendo meu bem, poucas pessoas em minha vida tiveram tanto esmêro por mim, amor...
- Mas não vens! Arrume tuas malas, passe pelo menos o baile ao meu lado!
- Ah sim, o baile! Vou então preparar minhas coisas e tentar chegar em Monaco por avião na tarde de hoje... mas agora, são 1h, tenho que dormir....
- Boa noite, linda, vejo-te amanhã...

Era uma conversa doce, como viste... era a última conversa doce...

Após a conversa com minha mulher, fui a sala-de-estar em penumbra. Um tapete persa quadrangular longo e pesado forravam o chão de madeira, alguns lustres à século XIX iluminavam das paredes onde se encontravam ao meio da sala. A pequena mesa, no centro do grande tapete, era rodeada de um canapé grande e umas cinco cadeiras à la Luis XIV. No fundo, havia uma biblioteca com livros de psicologia, economia, história natural, artes, sobretudo o movimento impressionista, o qual Clement adorava. Mas havia sobre o fauvismo, sobre o cubismo e também sobre o movimento de Salvador Dali, o surrealismo. Ainda, notava os livros de Gaetano Mosca, Teoria das Elites, sobre Ciência Política; e Wilfredo Pareto, Trasformazione della democrazia, em italiano.

Clement era um burguês típico, um aspirante a político britânico, apesar de ter nascido na Alemanha. Amigo de Winston Churchill, primeiro-ministro britânico na II Guerra e Prêmio Nobel em 1953, e da alta cúpula do Partido Liberal Britânico. Era um homem versátil. Conhecia a Rainha Elisabeth II, desde sua coroação, em 1952, ainda quando a mesma participava nas forças de resistência britânica, como enfermeira. Havia, a direita da biblioteca, fotos em um aparador que comprovava isso - o bom relacionamento dele com o poder da Ilha de Sheakspeare... à esquerda, um brasão de armas da família real, numa bandeira, e mais a esquerda, nesse mesmo fundo e abaixo da penumbra criada pelo pequeno lustre de luz fixado na parede, havia uma cristaleira, para onde me dirigi. Algumas bebidas, e lá, meio companheiro de 12 anos. Servi-me, sem gelo.

Sentei numa cadeira de leitura, com um pequeno iluminador de pé a minha esquerda. Retiro meus sapatos, com os pés, e relaxo desafroxando minha gravata. Após um leve gole, abaixo minha mão direira com o copo, e levo minha mão à cabeça. Chega Clement na sala...

- Tired?!
- I think so.
- Rubens is worried about game... he said to me that he needed the money. So, I lent some to him.
- He neeeds give value to things... he gets things very easy and it's so difficult to him give value to little things...
- You want tell me about?!
- About what?!
- I don't know, but you are a little annoyed... it's Emmanuelle?!
- No, she'll come tomorrow, errr... today, in the afternoon.
- And so... it could be Bartolomeu?!
- More or less... I don't think how a man is so cold, like him... he doesn't have girlfriend, friends, he is a man that walk alone... it's sad.
- Leonard, there are people that love to do this, it does him happy, but I don't sure about... An possible answer to our doubt is test him.
- Test him?!
- Yes, test him.
- How?!
- If he is an alone guy, maybe you could put a person in his life...
- A woman?!
- A complex woman. An enigmatic woman, a good player to his strategies, man! Like... like... your wife!

Sim, Clement era assim. Começava quieto, com idéias mediocres e vinha com grandes loucuras que faziam ele pular do chão e ter um prazer quase que sexual com o nascimento de suas teorias... Mas o que seria que ele estava dizendo?!

- A player?!
- Hmmm... not exactly, but I think she could be a more lovely woman with you.
- Ok, but give me another example...

Não gostava que falassem de minha mulher, até mesmo Clement. Eram problemas nossos, apesar de concordar com ele... desde que nos casamos, seu ego consumia minha alma e, apesar de todos os momentos bons, tinha me desgastado bastante... o que poderia ter sido amainado com maiores mimos, talvez como os que a mulher de Clement dava a ele... sentia que poderíamos ir além, talvez, se ela fosse além, se ela se soltasse, se ela tivesse realmente me amado.

- I don't know, Leonard. You must find one. Now, I'll go to bed, it's a quarter to three and we have a great party afternoon... don't we?!
- Yes... I'll go too... good night.

Mais uma questão para mim: encontrar uma mulher complexa para Bartolomeu, além de responder a questão principal - o que levava Clement dizer isso de minha mulher?!

* * * * * * *


Acordei. Estava dormindo ainda na cadeira de leitura e meu drink ainda estava no copo. Atrasava-me para o café com Lady Kathy. Tinha de ser ágil para chegar ao Café Paris...

Cheguei no Café. Aguardo um pouco. Na bancada do Café, um homem trajado a passeio serve os clientes da mesma. Sempre com um francês muito culto e gentil. Algumas mesas estavam cheias, com gente de todos os tipos. Ao fundo, Frank Sinatra canta, numa vitrola, Fly me to the Moon...

Fly me to the moon
Let me play amoung the stars
Let me see what spring is like
On jupiter and mars

In other words, hold my hand
In other words, baby kiss me

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore

In other words, please be true
In other words, I love you

Fill my heart with song and
Let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore

In other words, please be true
In other words
In other wordsss, I love you


Na bancada de madeira de lei, haviam alguns charutos cubanos, e resolvo acender um. Durante o processo, chega Katerine. Jogo o charuto na lixeira.

- Bom dia, Srta.
- Bom dia.
- Eis aqui meus livros.

Com dois exemplares distintos, Miss Katerine examina com cuidado o livro.

- Psicológicos... fizeste curso de Psicologia?!
- Não, sou economista pela London School of Economics; mas tive contatos com Freud, além de seu amigo Karl Jung... apesar de ser adepto do behavionismo americano, de Skinner, tenho essa relação com essas novas escolas, a Psicoterapia e a Psicanálise.
- Hmmmm... o Sr é um homem sabido nisso. Seus livros devem ser um desafio de serem lidos.
- Escrevo por metáforas, o que torna a leitura por demais cansativa e prolixa. Mas não há certo ou errado nessa área, o que permite se escrever sobre com liberdade... nem estamos falando de ciência... Popper assim criticava as teorias da psicologia: ausência de hipóteses falseáveis, ausência de hipóteses que podemos por a prova...
- Sim, para a economia, deveras, Popper faz críticas contundentes a Marx, ouvira dizer...
- Tens um conhecimento ímpar, jovem Lady Kathy... certamente deveria ter um par a altura...
- Uma parceria?!
- Uma parceria para trabalhos é bem-vinda para comigo, mas, sobretudo, uma mulher de seu linha deveria ter um par amoroso a sua altura...
- Galanteador o Sr... não me disse que eras casado?!
- Sim, mas não falo diretamente de mim... talvez alguém possa lhe ser interessante... o baile do Principe sempre é de grande valor para isso, pessoas novas e cultas; deverás tomar cuidado com os burgueses que se fingem de intelectuais por ter apenas um Monet em casa; ou, ainda, aqueles sabem, mas o fazem não por prazer, mas apenas para se sobresair entre os demais, tendo pouco valor intrísseco.
- O Sr está traçando um perfil de homem interessante... devo admitir... será que conseguirei a minha idade também?!
- É uma das coisas mais importantes, deverás... não desejarás ter em companhia velhos que não apreciam o mesmo gosto de música ou autores, por ser de épocas diferentes...
- É uma proposta tentadora, vosso perfil!

Depois de muito conversar, de muito saborear os chás que Lady Kathy sabia ter como escolha, e falar mais de livros, consegui um achado: apresentar Bartolomeu para Lady Kathy. Era a mulher que conseguiria incluir na vida de Bartolomeu; era o homem perfeito para Kathy, tão culto quanto e ainda, solteiro e de mesma idade... será que aquela mulher conseguiria amolecer os sentimentos de Bartolomeu?! Será que ele deixaria ela entrar na sua vida?!...

- Sim, que tal nos encontrarmos no baile para continuarmos convarsando sobre?! Por sinal, agora, tenho que ir... preciso ter um almoço com o Principe no Palácio.
- Claro, foi um prazer tê-lo em minha companhia. Apreciarei vossos livros e entregarei em breve os comentários...

Despedimo-nos. Agora, era preparar o terreno com Bartolomeu no almoço...

[Café Paris, Monte Carlo - Mônaco]

Thursday, September 20, 2007

BritPoP

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..." [Mario Quintana]



Estou de saco cheio. Minhas idéias de dissertação não ganham vida, não consigo escrever nada de economicamente interessante, não tenho motivação para nada, será a maldita gripe que sempre contamina meus neurônios?! Bem, eu fico duas vezes mais chato do que sou de costume; ninguém me aguenta, nem mesmo eu! Detalhe: todo mundo diz o que tenho que fazer, mas ninguém cuida de mim... e eu também não colaboro!

Tá! Dane-se eu! Para não dizer que não quis postar o 100° post, vou postar sobre duas músicas de duas bandas diferentes, mas que expõem o mesmo ponto de vista. Interessante isso?! Sei lá! O Oasis compôs Wonderwall e o Blur compôs Coffee and TV, são bandas rivais no movimento BritPoP (de bandas Britânicas), mas que exploraram o mesmo ponto de vista. Foi a única coisa útil que pensei bem hoje, escutando as duas músicas, na ida da Universidade para o francês. Será que meu cérebro sempre escapa pelas minha narinas quando fico gripado?!

Bem, que eu fique melhor sozinho, não quero ter um vácuo na minha cabeça! Eu sou muito novo e tenho muito a criar...




Coffee & Tv

Do you feel like a chain store
Practically floored
One of many zeros
Kicked down and bored

Your ears are full but you're empty
Holding out your heart
To people who never really
Care how you are

Chorus:
So give me coffee and tv easily
I've seen so much, I'm going blind
and i'm braindead virtually
Sociability is hard enough for me
Take me away from this big bad world
and agree to marry me
So we can start over again

Do you go to the country
It isn't very far
There's people there who will hurt you
cos of who you are

Your ears are full of their language
there's wisdom there you're sure
Till the words start slurring
And you can't find the door



Wonderwall

Today is gonna be the day
That they're gonna throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you gotta do
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now

Backbeat, the word was on the street
That the fire in your heart is out
I'm sure you've heard it all before
But you never really had a doubt
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now

And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how

Because maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall

Today was gonna be the day
But they'll never throw it back to you
By now you should've somehow
Realized what you're not to do
I don't believe that anybody
Feels the way I do about you now

And all the roads that lead you there were winding
And all the lights that light the way are blinding
There are many things that I would like to say to you
But I don't know how

I said maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall

I said maybe
You're gonna be the one that saves me
And after all
You're my wonderwall

I said maybe
You're gonna be the one that saves me
You're gonna be the one that saves me
You're gonna be the one that saves me

Sunday, September 16, 2007

Marselha, Lady Kathy, Poker e Bartolomeu

[...] Quando penso no teu rosto,
fecho os olhos de saudades;
[Cecília Meirelles, poetisa brasiliera, em "A Marcha"]

Ficar numa cidade só por dois dias é um desperdício... ainda mais que era casado! Mas vamos supor que não fosse: era apaixonado por Emmanuelle. Era a mulher de meus desejos e de meus sonhos, não importava qualquer outra... logo, estava sendo desperdiçado meu tempo. Desci para o térreo do Edifício. Sete andares e um elevador que dava para os apartamentos diretamente, ao estilo francês. Alguns carros na garagem, a maioria francês: alguns Citroëns e Renaults, um Ford e um Cadillac. Emmanuelle estava certa, a América passou a ditar normar aqui.

Peguei uma ruela e numa das esquinas, um pequenos estabelecimento de bebidas, um bistrot, algumas pessoas em mesas espalhadas e eu, ali, parado a contemplar o bar e os seus clientes. Resolvi entrar. Sentei ao redor do balcão e pedi um whiskey. Era sempre a minha bebida predileta, algo do tipo: "Eu sou só, e me divirto só com meu drink, dane-se vocês...". O whiskey era isso para mim, era um estilo de vida que um homem deve ter quando está só e em situações hostis, como era daquela noite. Só, e apenas só. Olho para os lados e muitas pessoas se divertem e eu me divirto sozinho. Noto que a minha esquerda, próximo a saída, numa mesa com penumbra singular, uma mulher, de vestido vermelho, chapéu vermelho e um cigarro nas mãos com luvas brancas me observa com ares amigos. Eu sempre fui bom nisso, olhar e acertar o quê as pessoas estão pensando sobre mim. Parecia um desafio introduzir um assunto àquela dama, pois se ela me olha, ela quer falar-me; não posso tomá-la de assalto, como fiz com Miss Kathy e Bartolomeu. Fica mais difícil, mas não impossível.

Nesses casos, costumo ser aberto e franco: olhei para aquela Srta, dei um sorriso, virei levemente meu rosto para a direita, sem rotacioná-lo, e levantei meu copo, num gesto de oferecimento de companhia. Não me deu atenção.

Decepicionei-me. Não havia recebido tal desagrado a tempos. Bem, voltei ao meu whiskey.

Fui embora! Agora, era ir para casa, dormir e esperar Rubens chegar ao fim da tarde de amanhã...

Tomei meu Dostoiévsky antes de fechar os olhos. Peguei meus óculos de leitura e li-o em Francês. Nunca dominei o Russo, apesar de ter frequentado algumas aulas no Rio, quando pequeno. Li Noites Brancas naqula noite. Tinha sido encenado no cinema e recebera o Leão de Prata, no Festival de Cinema de Veneza, em 1957, com Marcello Mastroianni no elenco, além das composições de Nino Rota, como trilha sonora.

Mas apesar de meus pensamentos inúteis, eu continuava só. O meu desejo era que aquele elevador saísse ela, frente a mim, com seu vestido, com seu batom, com sua voz, com todas as coisas e lembranças boas que ela me fez passar nesses dias que estive casado com ela. O que seria isso?! Uma espécie de obscessão por minha mulher?! Se já a tenho, porque querê-la mais e mais?! Seriam meus desejos insaciáveis?! É tão difícil explicar a atração de duas pessoas: como a química perfeita pode levar a combinações explosivas e devastadoras sobre os envolvidos! A distância não importa, mas o telefone impõe a distância, impõe que você está a muitas milhas de distância! Do outro lado... A noite fica vazia sem ela na minha cama, minhas estórias tornam-se sem sentido, as noites tornam-se escuras, e a claridade lançada pela Nástienka, de Fiodor, não é suficiente... eu estava um autor romântico aquela noite, próximo a Dostoiévsky (quanta convicção minha!); e o velho Fiodor, quando escreveu, pouco antes de sua prisão, em 1848, estava muito próximo do movimento literário romântico, nessa obra.

Enquanto a noite entrava a dentro, o relógio de pêndulo anunciava a chegada da vigésima quarta hora, eu, na cama que fora designada para eu me acomodar, estava ali sem sono, pensando bobagens...



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- Good morning, my friend!
- Good morning, Rubens. Where is my wife?!
- Já se foi! São 9h e deixei-a no aeroporto às 7h para Paris, como o combinado.

Droga! Virava o meu rosto para o lado esquerdo... Ela sequer se despedia, nem nada! A manhã em Marselha estava bela pela janela. Alguns carros lá embaixo, algumas pessoas no café e na tabacaria que dava para ver da minha janela. Lembrei-me da corrida...

- Ok, Rubens. E essa corrida aqui? Quer vir comigo?! Será que Clement consegue os ingressos a preço de banana para nós?!
- Clement consegue até junto ao Príncipe de Mônaco, Leonard! Não conheces vosso amigo?!
- Certo, chamei um estranho para vir conosco no carro e na corrida, se incomoda?!
- Desde que fale francês ou português, não me incomodo!
- Ótimo! E por que danças na minha frente como se estivesse apaixonado?! Viu o filme de Gene Kelly no Principado?!
- Ohhhh, bien sûr! E com uma bela francesa, rica, cheia de jóias, e o principal, Leonard, o principal!!! Conteúdo!!!! Conteúdo!!!! Estou farto de mulheres sem conteúdo!!!
- Hahahah... que ótimo, Rubens, espero que atinja sucesso em suas pretenções amorosas com essa donzela! - Reverênciava-o, aclamando o grande resultado do amigo.
- Muito bom, serás meu padrinho! Agora falta mais uma dessas damas e o casamento nas arábias, poligâmico! Viva! hahahaha...
- Poligâmico?! você não aprende nunca, Rubens!!! Hahahah... ajuda-me com as malas no carro?!
- Claro...

Descemos pelo antigo elevador da Prédio de Rubens. Desceu conosco uma Sra bem anciã, falando em francês com seu petit... o menino era loiro, tinha olhos claros e bem tímido, ganhei a sua amizade, oferecendo-lhe um pequeno bombom... ele, educadamente, disse que não gostava de nada de 'estranho', mas a avó, muito gentil, pediu para que ele aceitasse... Perto do pequeno Citroën DS Chapron Cabriolet, 1958, novo em folha, de Rubens, estava Bartolomeu com suas malas. Estranho ele saber qual carro iriamos, ou onde eu morava. Levava a sério o convite.

- Rubens, esse é o Sr de que estive lhe falando, és Bartolomeu.
- Bartolomeu, esse é um grande amigo de infância, Rubens.

Ambos se cumprimentam e acomodamo-nos no carro. A viagem corre sem grandes contra-tempos. Bartolomeu, calado no início, abre-se quando toco no nome da Ferrari, conta algumas de suas estórias no campo de batalha e Rubens, as suas, no Casino. Fiquem a margem, observando. No bolso de Bartolomeu, um pedaço de papel branco... uma nota... podia ser o primeiro pedaço do quebra-cabeça que gostaria de resolver: entender Bartolomeu e seu jeito arrogante de ser, devia ter algum problema, e, como pessoa complexa, com conteúdo, como ressaltava Rubens com sua donzela, devia ser um caso interessante, nem que seja apenas para contar uma estória em meus livros.

De leve, puxei o papel durante uma calorada discussão. Você atiça a vítima, atiça o seu amigo, e está pronto para por seu plano em ataque... cheguei de perto aos dois bancos da frente do carro, estava atrás deles... puxei o papel sem hesitação... guardei. Feito a façanha, pus-me a dormir no banco traseiro, cansado de ouvir os dramas político-econômicos do mundo e da Europa, bastava as discussões com minha mulher...

Viajar em carro conversível é outra coisa! A brisa marítima do Sul da França em meu rosto, as músicas bem escolhidas da rádio local no carro de cantoras francesas e o Jazz inconfundível de Armstrong e Fitzgerald, além da paisagem com o mar Mediterrâneo ao fundo. Perfeito! Mas preferi fechar meus olhos e tentar encontrar o rosto de Emmanuelle em minha imaginação...

Chegamos. Ficamos na Avenue de La Costa, 14, bem próximo do túnel pelo qual os carros de corrida iriam passar, durante o GP de Mônaco. Confesso: não estava empolgado com a corrida, era pretexto para conversar com Bartolomeu, era pretexto para encontrar Lady Kathy. Despachadas as bagagens, Clement nos acolheu em seu belíssimo apartamento. Era fácil para mim viajar ao redor do mundo: tinha amigos por toda a parte, e eles gostavam de mim, e eu não gostava muito deles. Não era interesse, mas era falta de interesse: gosta de pessoas complexas, que me fazem pensar, como Clement. Realemente gostava dele, assim como Rubens, apesar de ser afoito, atabalhoado e afobado; bem, eu também não era dos melhores, confesso.

Clement acolheu a todos nós e na sala-de-estar, o assunto era mais política! Não aguentava mais! Por que não discutíamos a psicologia, a filosofia, a literatura, o cinema, coisas que eu dominava menos, mas sabia teorizar melhor?! Até Clement preferia política a psicologia, mesmo tendo como sobrenome, Freud.

Desci do prédio, passeei pela Avenue de La Costa, e num café, encontro Lady Kathy. Excelente coincidência! Ela estava só, ou, pelo menos, parecia. O café era requintado, tal como o Casino em que eu a encontrei. Era requintada, complexa, culta. Queria entender mais sobre ela.

Cumprimentamo-nos. Sentamo-nos, e tive algumas surpresas...

- Bonsoir, Mademoiselle Kathy.
- Bonsoir, Leonard! Vous préferez parler au anglais?!
- Yes, I prefer, of course.
- So, you received my scrap?! Sorry, I had to come immediately to here, I had to buy my place in the GP...
- Allright... I'm so sorry for my absence... I had to... to... - faltou-me palavras, era difícil dar razão ao que não sabia dar motivos, qual era minha desculpa em estar fora de casa?! Nenhuma!

- to... - Ela me completa...
- to telephone, I had to telephone to Mr Clement, my friend, to assure my place...
- Nice...
- Yes, very nice...

- Please, I want coffee, and a cigarette. - Ela faz o pedido ao garçom que nos aborda.
- I want a... what about a tea?! - Miss Kathy sorriu-me... estava no caminho certo, um chá, um chá de maçã com canela, completou ela para mim... um chá de maçã com canela! Assim: você topa com uma pessoa que não usa maquiagem num local que se exige maquiagem, um cassino, ou um café em Mônaco; você conversa com a pessoa e ela não lhe decepciona, pois tem conteúdo, sabe do que você está falando; e toma chá de maçã com canela, então, alguns indicativos estão dados: é uma pessoa diferente, interessante, no mínimo. Será que terá mais a oferecer-me?!

- Perfect! An apple tea! I'd never image to drink an apple tea in Monaco, for me, it's like to eat feijoada in America... - brinquei.
- Feijoada?! Do you like?!
- Yes, I'm Brazilian, remember?!
- Yes, of course... so, why did you prefer speak in English?! Do you think I haven't know Portuguese?!
- hahahaha... you're kidding... you speak Portuguese?!
- Sim, eu falo, e outras línguas, se desejar... - Outra mancada! Mas que inferno! Primeiro com Bartolomeu, depois com ela, Lady Katerine. Pela primeira vez, aquele rostinho me dizia que não gostara da brincadeira... tentei me recompor...
- Desculpa, minha língua e país são tão insiguinificantes que às vezes é difícil encontrar alguém que fale meu idioma. - Como se diz no Poker, cobri a aposta dela! Recuei, mas de forma estratégica.
- Não precisa se desculpar. Mas não duvide de mim, Leonard. Sou crescida e sei me virar perfeitamente... uma rainha no tabuleiro que não precisa de rei, sabe se locomover e dar o xeque quando necessário. - Meu Deus! A convicção de seu olhar, agora, sem lápis, ou batom nos lábios, faziam-me ter medo dessa mulher! Isso era: "está aqui seus 2.500 Francos e mais 1.500 para aumentar"?!?! Os jogos davam-me medo quando apontavam nessa direção: quando tinha um flush na mão, o adversário me inibia quando cobria minha aposta e elevava... terá uma 'mão' melhor?! Tinha que ler o seu olhar melhor, e isso demandava tempo.
- Claro, Miss. Não me interprete mal, por favor... estou aqui para uma conversa diferente do que se propõe atualmente, como política; mas sobre as pessoas, e acho que a Srta é a pessoa ideal pela sua inteligência e cultura... quem toma um Bourdeaux, apreciando como a Srta apreciou aquele, mostra um pouco disso para mim... - eu confesso que não sei jogar... sempre perco no poker por isso... revelo que sou frágil jogador e os demais nunca aceitam quando tenho uma boa 'mão', e quando desejo blefar, me lasco! Não sei blefar... Lady Kathy me encurralou no tabuleiro. Era preciso um coringa na minha mão para sair com uma canastra. Talvez eu tivesse... fiquei calmo...
- Agradeço os elogios, não acredito que seja tudo isso. Bem, o chá estava maravilhoso, mas tenho que ir. Encontramo-nos amanhã aqui novamente para um café forte?! Desejo ver seus livros...
- Claro, perfeito! Amanhã pela manhã. Trarei meus livros. - Levantei-me para cumprimentar sua saída.

Pronto. Conheci o tipo de mulher que era Lady Kathy: bem complexa! Ideal para ler meus livros, ideal para uma parceria de trabalho, ideal para me entender... talvez, até ideal para levar um relacionamento... ops... sou casado! Lembrei! Tenho que manter essa mulher perto de mim. Preciso de um coringa...


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Voltei para a o apartamento de Clement, agora a conversa era com Bartolomeu. No enorme apartamento de Clement, notei que o jogo de poquêr entre meus amigos se desenvolvia com grande entusiasmo. Bartolomeu, novato naquele grupo, estava bem entrosado. Ganhava sucessivas mãos boas e a sorte estava a seu lado. Vi a mesa e fui me servi de scotch.

- Again?! You have a flush again and I lost again to you?! - Dizia Rubens em inglês para Bartolomeu. E esse, numa risada irônica, com sua mão esquerda, puxa as fichas para si.
- Ok, Sirs, now, the dealer is Rubens, and the big blind is Bartolomeu and Castro is small blind. - Anunciava Clement. Castro era amigo de Rubens. Rubens embaralhava as cartas como sempre: ágil e certo. Tinha trabalhado em casino a vários anos. Bartolomeu, a esquerda de Castro, ficava calado nessa. Tinha um valete e um 10 de copas. Um flush de novo?! Bem, Rubens, retirava o flop, saia um rei de copas, e um 9 de copas e um 9 de espadas. Rubens olhava com raiva Bartolomeu. Devia estar pernsando: de novo o flush? Bartolomeu aposta alto, mas devagar, enganando bem os demais da mesa. Rubens, retira o turn, uma carta de copas, um ás... Rubens, com dois noves, um de paus e ouros... tinha uma quadra perfeita de noves, um jogo mais forte que um flush...
- I'll rise to 2.500 the bet... - Bartolomeu, com toda a convicção. Castro estava fora, desde que tinha-se posto o flop na mesa. Chegava a vez de Clement...
- I'm out... - Jogava as cartas na mesa, desiludido.
- I'll pay your bet and rise to 5.000 dollars... - Uma quantia grande para a época! Os 2.500 de Bartolomeu mais 2.500 dólares! Rubens estava com uma quadra formada e Bartolomeu, nem flush tinha!
- I'll put more 2.500 to go on in game. - Bartolomeu, mais uma vez confiante. Rubens tinha que abrir o river, a última carta... e para a surpresa, uma rainha de copas... Bartolomeu, de forma incrível, tinha um royal straight flush, e ainda pedia mesa... Rubens, elevava a aposta para 8.000 dólares, e tinha-se muitas e muitas e muitas fichas na mesa... Bartolomeu, com uma quantidade razoável, sequer tinha a quantia que Rubens anunciava, aposta...
- All-in, - anunciava Bartolomeu... era a única forma de se manter no jogo e ver o que Rubens tinha na mesa... Afobado, Rubens até quebrou a ordem de mostrar as cartas, mostrou a sua poderosa quadra, rindo, muito, muito, muito... Bartolomeu, apenas joga as cartas na mesa... um valete e um dez de copas, que juntados ao rei, ao às, e a Rainha, formava o mais alto jogo do Poker... Todos olham as cartas espantados... Rubens, pasmo, leva as mãos à cabeça... tinha perdido tudo para Bartolomeu... incrível! O clima não ficou muito bom depois disso. Ganhar dos amigos não é muito bom, ou ético... a hostilidade ficou evidente entre meu velho amigo e Bartolomeu. Enquanto Clement e Castro acudiam Rubens, eu fui falar com Bartolomeu...

- Boa jogada. Eu não entendo como o Royal straight flush às vezes aparece para os outros e não para mim... Rubens tinha conseguido na semana passada um no casino, pensei que conseguiria de novo...
- Você não consegue por que é feliz no amor, é a velha frase: azar no jogo, sorte no amor... - Chavão barato, pensei, mas que era verdade para mim... não entrei no mérito da questão, mas explorei o tom derrotista dele.
- E você não é feliz no amor?! Problemas amorosos?!
- O amor não me tocou, não tenho amor por nada... sou um homem da guerra, algo inatingível. - Mentiroso! Logo vi que não falava a verdade! As pessoas se revestem de capas e pensam que os demais acreditam que são inatingíveis! Mas explorei mais a questão, de forma delicada, para não assustá-lo.
- Então nenhuma mulher o tocou?! Serás um homem de gelo ou algo do tipo?! Pensei que era latino e não escandivávio!
- Sou italiano, não me sensibilizei por nenhuma mulher; elas aparecem e vão para mim como algo como... como... como a brisa. Não me apego a ninguém... - Começava a me convencer... - Sou um homem de gelo, ainda não me atingiram... tenho minhas convicções e minhas teorias... conheço as pessoas pelo primeiro olhar e sei quem confiar ou não, o Sr me parece uma pessoa que devo confiar...
- Obrigado. - Completei.
- Sinta-se bem. Agora, gostaria de uma boa ducha e cama, poderemos conversar no café, o que acha?! - NÃO!!!! Pensei: tinha combinado com Lady Kathy! Ela tinha chegado primeiro e tinha que respeitar a ordem... - Que tal um almoço?! Acho que Rubens, Castro e Clement irão almoçar com o Princípe, logo, poderemos conversar no Palácio...
- Parece ser uma boa idéia. Bem, boa noite.

Não era apenas um almoço no Palácio do Príncipe... Rainier III tinha completado 10 anos de principado no ano passado e tinha dado a maior das festas... agora, com a Fórmula 1 visitando o país; ele completando 10 anos de principado; seu filho Albert completando três meses de vida; Caroline completando um ano e casado com a famosa atriz Grace Kelly a dois anos... a festa devia ser ainda melhor! Almoço, tarde de drinks e jogos e a tradicional noite de bailes! Estávamos muito bem, mas ainda precisava conversar com Clement e Rubens... meu laboratório estava armado: Bartolomeu e Lady Kathy... o que mais seria necessário?!



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Antes de ir dormir, tinha que ligar para minha 'pequena', em Paris... fui pegar a agenda de telefones, e no meio dela estava um papel branco... a nota roubada de Bartolomeu...



[Principado Monegasco: foto de Monte-Carlo, bairro de Mônaco. O Museu Oceanográfico e o Palácio do Principe ficam em Mônaco-Ville, depois de La Condamine; dois outros bairros de Mônaco]

Thursday, September 13, 2007

O encontro...

"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!

[Pablo Neruda]



Saindo do Principado de Mônaco, tive a oportunidade de viajar pelo mais belo lugar da Terra, a Côte d'Azur, a região também conhecida como Riviera Francesa. Nice a Toulon e, finalmente, a cidade de Marselha, capital da Região Provence-Alpes-Côte d'Azur. Marselha teve importantes homens e filhos, mas são seus bravos soldados os mais importantes. Segundo diz a história francesa, Napoleão Bonaparte baniu a região, devido ao forte apelo revolucionário dos soldados em aceitar o subjugo de Napoleão. Na restauração da monarquia, fora incorporado e o nome deu origem ao famoso hino francês, A marselhesa. Rubens, meu amigo, vinha cantando o hino durante o caminho, com seu sotaque de Edith Piaf. Confesso que preferia La vie en rose... Assassinou o hino francês... Mas quem era eu, se não seu convidado. Por sinal, havia de vir minha esposa, Emmanuelle, segundo ele. Tinha convidado para passar uma tarde comigo e dois dias em Nice com a irmã dele.

Eu não gostava da irmã de Rubens, ficaria em Marselha, esperando Miss Katerine. Saimos nessa tarde para ver um filme. Vimos Around the World in Eighty Days, premiado com o Oscar no ano anterior. Grandes coisas, dizia minha mulher. Preferia o Festival de Cannes, mesmo sabendo que apenas haviam três estatuetas entregues, enquanto o Oscar, desde 1929.

- Hahahah... você quer me convencer que a Palma é superior ao Oscar?!
- Claro que é. Os americanos premiam eles mesmos, apenas isso. Premiamos os melhores filmes do mundo.
- Vocês premiaram três filmes, dois são americanos, um francês, e é do Professor Cousteau.
- Mas estamos a premiar um filme soviético, Quando voam as cegonhas...
- Por Cristo... eu queria saber se eles sabem o que é cinema...
- Não seja tão Hollywoodiano...
- Não sou fã stritu sensu de Hollywood... eles apenas são o máximo.
- Sim, depois da fajuta rasteira que nos passaram na Primeira Guerra! Leonard, se a Primeira Guerra não acontecesse, os Estados Unidos não teriamos metade do poder que eles possuem hoje e, olha, essa discussão já está por aqui! (apontou-me a metade de sua testa, como era de costume...).

Bem, depois dessa, tinha que recuar. Um homem tem que saber até onde anda com uma dama, e a importância da discussão no relacionamento. Decidi recuar. Pedi desculpas e disse que ela me convenceu que a Europa ainda era o centro, pelo menos, cultural do mundo. Enlacei-a nos meus braços e dei-lhe um beijo em sua bochecha, passando minha mão a sua cintura, e eu, sempre a sua esquerda. Ela, satisfeita com meu recuo, pôs seu braço esquerdo sobre meu ombro esquerdo, enlançando-me, agora, abaixou sua cabeça em meu ombro e caminhamos calados até o cinema.

Durante o filme, carícias e afagos. Alguns beijos em seu cangote, palavras em italiano em seu ouvido, algumas juras de amor... e as tradicionais mordidas em sua orelha, que lhe fazia muito bem. Eu sabia pouco sobre as mulheres, mas conhecia bem Emanuelle. Sabia agradá-la. Na volta, nenhuma menção ao balão inglês e o 'criado' francês de "Phileas Fogg"... isso seria encarado na geopolítica de minha mulher como subjugo ao Império Britânico, e ai, pronto! Estava feita a lambança... lembro certa vez que discutimos isso, terminamos na África, discutindo se o Egito devia falar Francês ou Inglês... era o tradicional assunto: a descolonização dos Impérios Europeus e quem aguentava mais tempo segurando as colônias, a França, com poucos recursos, estava perdendo a corrida para o Reino Unido a muito tempo, e nunca admitiam isso. Eu achava cômico, como brasileiro, como os Europeus tratavam as suas colônias: era algo como marionetes das grandes potências... achava engraçado, mas não era revolucionário. Acho que era mais britânico que os próprios britânicos. Talvez a influência de Clement Raphael Freud, ator, escrito, político alemão, mas naturalizado britânico. Neto de Sigmund Freud. E isso lembrava Katerine. Será que meus costumes conservadores impressionariam a dama de preto?! Será que afugentariam-na?! Tinha que esperar...

Em Marselha, saimos do cinema a carro de aluguel, o taxi, dos americanos. Após a chegada em casa de meu amigo, noto seu bilhete:

"Caro Leonard, sai da cidade em uma emergência. Não dormirei em casa, portanto, não me espere essa noite para o vinho! Lembranças a sua mulher.

Rubens"

No lugar de vinho combinado com Rubens e minha mulher, consegui um chá com Emmanuelle. Finalmente, estava vencendo! Durante o preparo, ela, de costas para mim, lembrava vários amores no Brasil. Mas era fiel em meus pensamentos. No lugar de pensar nelas, fui acariciar minha esposa: um enlace forte e firme por detrás dela, beijos quentes e molhados em sua nuca para ela fraquejar, largar a água quente na pia, e se virar para mim... era de meus beijos que mais gostava, na boca; a leve retirada de meu rosto frente ao dela e o avançar de seu rosto contra o meu, como se fosse o avançar do exército francês em direção a Prússia ou a Inglaterra, eu adorava isso... me deleitava com sua vontade em me querer, sentia meu amor retribuído e toda minha fidelidade, até em meus pensamentos, paga em dólares! Ops: Em Francos, e franceses! Ai de mim! Fomos nos beijando até a cama de solteiro em que eu repousava todas as noites na casa de Rubens, e ali, estivemos na mais das deliciosas noites de amor em minha vida. Meu cansaço era evidente, suava muito, mas ela adorava me levar ao meu máximo. Sentia muito bem. Conseguiamos, como bom casal, boas horas de diversão. Amava aquela mulher.

No dia seguinte, Rubens aparecia. Tomamos um café na esquina do Boulevard. Despedimo-nos e deixei-a ir com Rubens. Pronto para receber Katerine. Antes, fui a tabacaria, tomei um charuto cubano e acendi, encontro com um homem. Seu nome, Bartolomeu. Foi a primeira conversa com ele. Mostrou-se arrogante, como sempre, num primeiro instante. Sempre cheio de si... tive medo, apesar de a conversa ser breve... criei uma amizade com o soldado.

- Salut, Monsieur.
- Hi.
- Vous parlez français, vous être anglais?!
- Oui, je parle français, English, italiano, português et tutti che desideriate per parlare (tudo o que você deseja falar... ufa! Agora me senti reduzidíssimo, ao extremo. Uma língua é um signo, um elemento chave na comunicação, um código, que se você não domina, sequer entende um cumprimento, mais do que nunca a lição de recuar com estilo teve sua função na França!).
- Bien, se tu ne veux pas parler en français et comment je suis brésilien, je préferé le brésilien, oui?!
- Tudo bem. Sou Bartolomeu, italiano, soldado na II Guerra, apesar da pouca idade e tu és quem?!
- Eu sou Leonard Weiss, sou brasileiro e de ascendência suiça, mas sou casado com uma francesa; tenho laços e pés na Europa.
- Seria preferível sequer ter! O velho continente acabou e está em frangalhos depois da Guerra. Fizeram a Guerra, resolveram os problemas geopolíticos, agora, falta matar os filhos da guerra, e eu sou vítima disso!

Matar os filhos da guerra... gostei disso! Era a primeira figura de linguagem bem construída em português que ouvira desde o abandono do Brasil a três meses atrás... mas que amargura aparecia naquele homem... algo forte e poderoso em sua alma que não queria mostrar a ninguém. Lembrava Vincent... amigo de colégio na escola francesa, tinha um segredo que só contara para mim: nunca tinha beijado nenhuma garota até os 26 anos de idade! Nos meus 30 e poucos anos, não sei porque, sua imagem viera a minha cabeça, aquele homem tinha amarguras no coração, talvez mais fortes que sentimentos advindos deles, talvez uma perda grave durante a guerra tornava-o tão arisco...

- Estás a pensar em quê? (ele inrompe meu silêncio escandaloso...)
- Carros (Foi a primeira coisa que me veio em mente, confesso...)
- O quê?!

Olhava o pequeno anúncio na mesa da tabacaria, cigarros e carros de corrida, algo tão comum depois da invenção da Fórmula 1. Por mais nojo que tivesse dos Europeus, ainda devia gostar de carros e de uma corrida em Mônaco, o mais tradicional circuito. Clement sempre conseguia ingressos fáceis para as Óperas e corridas de carro na Europa. Talvez conseguisse chamar o homem para uma conversa mais fácil e destemida lá... talvez...

- Fórmula 1. Gosta?! Tem carros e tem a Ferrari.
- La Scuderia! Se soubesse que fosse tifosi, teria sido mais gentil.

Uau! Se tinha duas coisas que os italianos gostavam ainda era: a Igreja e a Ferrari. Foi fácil criar o vínculo. Pronto para uma amizade bem complexa... gostava de pessoas complexas, faziam-me pensar. Bartolomeu era assim.

- Está convidado por mim, mon ami, iremos ver a Ferrari ganhando mais uma! (será?! Fangio a levou à vitória no circuito monegasco ano passado, mas será que conseguiria de novo?! Que fria estava me metendo???)
- Sim! Fechado!

Ufá! Dessa vez passou... três a zero para mim na semana. Bartolomeu foi muito fácil. Notei que tem muitos pontos fracos e isso pode ser demasiadamente interessante. Mas, o que mais importa é que estou vencendo. Conseguia contato com Miss Katerine, o sorriso de minha mulher, e uma amizade com um soldado italiano. Estava bem no idioma local, no estrangeiro (sempre detestei me comunicar em inglês, apesar das facilidades de conjugação, haviam os tenses que me enrolava... muito tempo composto, e nisso, o francês me salvava! Mas adorava a Grã-Bretanha e Londres), e no materno. Faltava o 'jogo de volta', será que Katerine seria fácil como Bartolomeu?! Chegando em casa, o porteiro do prédio me aborda:

- M. Weiss?!
- Oui, je suis M. Weiss.
- Par Vous.

"Mr. Leonard,

I've arrived here, but I don't see you in your apartament. I think I'll come back to Monaco today, there'll a race car (Formule 1), there on next week. Why don't you come with me?! Bring your books, certainty, I'd love read them.

Lady Kathy"

É, parece que tudo na vida tem um trade-off, como dizem os economistas: se você faz uma coisa, você deixa de fazer outras. Mas se a primeira coisa é mais valorosa para você que a segunda, então, você está dentro da racionalidade econômica. Droga! As escolhas não me foram anunciadas antes! Se soubesse que Lady Kathy (Kathy! Quanta intimidade jogava a minha pessoa, pensei...) estaria aqui, ficaria em casa e não sairia e conversaria com Bartolomeu por tanto tempo! Mas também sequer saberia que Bartolomeu existiria! É... três a um, ainda para mim. Vou arrumar minhas malas...

[Cartaz anunciando o GP de Monaco de 18 de maio de 1958, na tabacaria]

Sunday, September 09, 2007

Minutes to midnight


Eu não comento muito sobre álbuns, mas o álbum Minutes to Midnight é um dos melhores álbuns de música que já escutei. Eu gosto de Linkin Park, mas não gostava tanto como agora, não canso de ouvir todas as músicas do CD. Será uma nova fase?! Será que estou retornando às origens?! Não sei, mas até acho que a What I've done nem é grande música assim quanto toca. Escute todas as músicas do novo CD e me diga o que acha.
Deixo a letra de uma das minhas favoritas: a batida inicial lembra a chegada da meia-noite (the minutes to midnight, the shadows...) e a batida final lembra o amanhecer (the sun will set). Lembra muito o With or without you do U2. Regressão ao Pop rock, ao Pós-grunge?!




Por que pós-grunge?! Bem, tem também uma bandinha canadense legal, ao estilo Nickelback, tocando um álbum muito bom, chamado Gasoline, além do álbum anterior, Theory of a Deadman, da mesma banda Theory of a Deadman. Abaixo, um clipe de uma música bem escrita do grupo - Santa Monica.



She fills my bed with gasoline
You think I woulda noticed
Her mind's made up, the love is gone
I think someone's trying to show us a sign
That even if we thought it would last
The moment would pass
My bones will break and my heart will give
Oh it hurts to live

And I remember the day when you left for Santa Monica
You left me to remain with all your excuses for everything
And I remember the time when you left for Santa Monica
And I remember the day you told me it's over

It hurts to breathe
Well every time that you're not next to me
Her mind's made up, the girl is gone
And now I'm forced to see
I think I'm on my way
Oh, it hurts to live today
Oh and she says, "Don't you wish you were dead like me?"

And I remember the day when you left for Santa Monica
You left me to remain with all your excuses for everything
And I remember the time when you left for Santa Monica
And I remember the day you told me it's over

I wanted more than this
I needed more than this
I deserve more than this
But it just won't stop
It just won't go away

I needed more than this
I wanted more than this
I asked for more than this
But it just won't stop
It just won't go away

And I remember the day when you left for Santa Monica
You left me to remain with all your excuses for everything
And I remember the time when you left it all behind
And I remember the day you told me it's over

And I remember the day when you left for Santa Monica
You left me to remain with all your excuses for everything
And I remember the time when you left for Santa Monica
Yeah, I remember the day you told me it's over
dıt dırıt dırıt dırı dırı dıt dıt dıdıt dı dı dırı dırı dıt

Friday, September 07, 2007

O amor à Pátria

The sun will set for you.
[Linkin Park - Shadow of the Day]


Hoje é dia 7 de setembro de 2007. Dia da Independência do Brasil. Isso significa que é uma data de orgulho nacional, onde os concidadãos se unem pra comemorar os feitos de nossos antepassados que lutaram para hoje sermos livres. Eu não vou discutir se somos ou não livres; mas temos que ter todo esse amor à Pátria?! Você tem amor a uma pessoa se ela te corresponde. A Pátria é uma mãe, uma pessoa, logo, eu deveria ser correspondido para eu ter amor à ela! Isso me parece tão lógico! Mas não é assim infelizmente. O amor à Pátria muitas vezes não é correspondido e envolve questões que ultrapassam essa simples idéia minha esboçada aqui. Por que?! Bem, porque a Pátria é uma multidão de pessoas que na maior parte das vezes não ama uns aos outros?! Ahã?! Bem, sei lá... eu disse que não sabia! Um amor não correspondido é muito triste, mas não é impossível de ser levado a cabo. Há experiências em que isso se revelou possível. Na verdade, as pessoas que não correspondiam notam isso e dizem, mas ao dizer, ao expressar isso mostram que tem o amor em questão, mesmo que seja um amor calado.

Talvez, a Pátria amada seja assim: talvez ela nos ame em calado, talvez um dia ela vai nos revelar isso quando os seus filhos deixarem a casa e forem para o estrangeiro. Talvez a saudade nos leve a amar ainda mais a Pátria amada, também... capsciosa minhas ilações?! Talvez sim, talvez não... a verdade é que enquanto isso não acontece, eu continuo amando a Pátria amada.

Thursday, September 06, 2007

Outra perda...

"Aprender música lendo teoria musical é como fazer amor por correspondência".
[Lucciano Pavarotti]

A minha vida sempre teve poucos ídolos, nunca tive a idéia de idolatrar muitos, a não ser meu pai. Mas ele tem uns e para um deles, eu tive que tirar o chapéu. Não conhecia, mas o simpático rosto desse cidadão em 1994 me fizeram ter uma admiração por si só pela música. Eu acho que meu gosto musical passa por 1994, ano da Copa do Mundo dos Estados Unidos e quando eu tive uma gripe que me fez ficar de cama por vários dias. Mas valeu a pena para entender Pavarotti! Lucciano Pavarotti era um dos que cantaram a Aquarela do Brasil, nos três tenores in concert, na véspera de Brasil e Itália. O jeito de Pavarotti era o que mais me chamava a atenção: gordo, com barba, com a voz mais forte dos três e a melhor interpretação. Na minha modesta opinião, ninguém conseguiu cantar tão bem a Aquarela do Brasil, deviam, sei lá, proibir todos de cantarem aquela música, a não ser o próprio Pavarotti. Sem dúvida a melhor de todas as versões.

Mas Don Lucciano também deixou sua marca em outros cantores... cantou o pop, o jazz, a MPB: com Frank Sinatra, em My Way; com Bono Vox, em Miss Saravejo; com Roberto Carlos, com Sting... com muitos dividiu sua imensa voz, que alegrava e comovia a todos que tinham ouvido para acompanhar todas as palavras ecoadas por aquele Senhor de barbas e simpático. Tinha estilo para cantar o que quisesse!

Veio ao Brasil duas vezes, e na primeira vez, dizia meu pai que ele gostava de fazer as massas que comia, como bom italiano. Pedia ao chef da cozinha do hotel permissão para o preparo de suas refeições que levavam massas. Escutei isso na cama de meus pais quando tinha pouco mais de 11 anos, em 1994. Nunca mais esqueci.

Nascido na pequena cidade de Modena, no dia 12 de outubro de 1935, onde fica o circuito da mais poderosa fábrica de automóveis da Itália, a Ferrari, Pavarotti faleceu essa manhã do dia 6 de setembro, 5h no horário local, e 0h em Brasília, perto de seu aniversário.

Perdi um ídolo. Perdi a chance de ver em vida um show desse monstro da ópera, perdi a chance de ver simplesmente Pavarotti... Em vida, as pessoas vem e vão, como trens numa estação para nós, mas é a sua contribuição, é a sua marca que elas nos deixam para nós nunca mais nos esquecemos delas... certamente, Pavarotti deixou essa marca para mim... lembro como se fosse ontem a Aquarela do Brasil e meus dias de cama vendo os três tenores...

Que Deus o tenha.

Saturday, September 01, 2007

O Dia de Bartolomeu

"O homem nasce bobo; a sociedade transforma ele num bobo esperto... felizmente, tem uns que são mais que os outros"

Morava na Rua José Reinaldo, 86, em um belo sobrado branco, telhas avermelhadas e tinha uma porta de jacarandá que invejava a todos na rua em que morava. Era de média estatura e branco, sem marcas no corpo, apenas uma cicatriz na mão esquerda, na altura do polegar. Tinha cabelos avermelhados e usava óculos pesados e negros. Era Bartolomeu. Bartolomeu tinha um curso a terminar nalguma ciência exata na Faculdade local. Era temido por todos pela sua inteligência. Mas se essa era sua maior virtude, ela também era a maior de suas desgraças. Sua mente complexa inundava de idéias loucas e desvairadas em que poucos acreditavam. Não tinha carro e andava de bonde. Não gostava de transporte público, tinha horrores. Morava só, e talvez isso levava a suas crises. Não que morar só leve a isso necessariamente, mas que uma mente complexa sempre começa a duvidar da eficácia e de tudo que nos rodeia no exato momento. Bartolomeu era assim. Ele olhava para seu livro de cálculo diferencial e duvidava até mesmo que um papel era originário de folhas de árvores ou que a tinta da impressão tinha secado completamente sobre a textura do papel. Bartolomeu talvez tivesse ficado louco, ou tinham deixado ele louco. Todas as noites, ele sentava em frente a uma Olivetti e começava a escrever não mais sobre sua tese, mas sobre o que ele achava que era certo. Discutia com ele próprio. Chegou, duarente seu ano de universidade a escrever para um jornal local e tinha domínio da língua materna, apesar de ser inseguro quanto às quatro línguas que dominava, além da materna. Gostava dessa porque ela lhe permitia escrever em prosa e poesia de forma que expressava suas emoções e revelava num tom sarcástico e irônico o quão mediocre pode ser uma situação em que nos encontramos.

Li uma de suas notas. Não, não sou amigo dele, sequer conheço ele direito. Apenas observo a rotina de Bartolomeu. Bartolomeu não tem amigos. Ele conhece as pessoas, as pessoas não conhecem Bartolomeu. Mas deixe-me discorrer essa nota, por favor.

Durante suas frequentes crises de existência, não de si próprio, mas de seu mundo exterior, ele saiu um dia de casa, na noite. Era um mês mediano, não lembro qual. Chovia muito. Os bueiros não suportavam tanta água, que as calçadas ficavam encharcadas. Alguns jornais na rua eram levados pela corrente, e alguns ratos até mesmo não conseguiam atravessar a rua direito pela grande corrente. Os Ford's tinham dificuldade em se movimentar e se não me engano, alguns ficavam horas de fárois acesso esperando o passar da chuva. Havia uma praça municipal. Nela, haviam alguns bancos de madeira, já velhas. Num deles, um Sr vestido de capa de chuva e um guarda-chuva entre os pés e as mãos. Era preto o artefato. Esse Sr não pegava chuva, por incrível que pareça. Bartolomeu pegava muita chuva na saída de sua residência até chegar e topar na praça com esse Sr. Bartolomeu não tinha destino, mas ele sentou no banco sem ao menos pedir licença para esse Sr. Ele ficou supreso com a audácia do jovem. Não dava para ver esse Sr, juro. Parecia com barbas, mas não lembro. Chamava-se Leafar.

- Licença é a primeira coisa que pedimos em qualquer lugar - introduziu, delicadamente o Sr.

- Licença para quê? Tu sabes o que isso por acaso significa? Licença pedimos para quando estamos invadindo algum espaço alheio ou algo privado, esse espaço é público - corajosamente respondeu ao Sr.

- É, é por isso que não cresces. Devia ter um manual, essa juventude, para entender como se começa os primeiros passos, caso vivam sozinhas.

- Calma... primeiro, quem disse ao Sr que sou um jovenzinho qualquer? Segundo, como sabes que vivo só? Por acaso me vigia?

- Não, não vigio ninguém, se me permite responder a segunda questão antes da primeira. Sei porque vejo solidão em seus olhos e falta de direção em suas pernas. é um jovem diferente, sim, nisso admito.

- Você é um pedante. Que diabos de solidão está falando? Vivo só, mas me dou bem comigo mesmo, não preciso de ninguém.

- Precisa, precisa sim. Todos nós precisamos de alguém, nem que seja para contar nossas tristes experiências.

- Isso é para os fracos! Não sou como você.

- Eu preciso de você. Juro que preciso. Não está vendo que a chuva cai sobre você e não cai sobre mim?! Você precisa de proteção, e eu preciso de forças como as tuas.

- Sim, eu sou forte e pouco me importa se precisa de mim, pois eu não preciso de você. A chuva que cai em mim é temporária, pois ela lava minhas questões não resolvidas e me isola de questões fúteis e históricas que vocês fracos se entregam.

- Pode ser verdade a segunda parte, apesar de discordar da primeira. Acho que um dia precisaremos nos unir...

- Unir para quê?! União trás fraqueza, sua fraqueza me incomoda, você é incapaz de resolver seus problemas, seus desafetos e agora fica a me amolar... estás protegido, mas contra quem?! Uns fracotes?! Eu me protejo sozinho dos meus... páre de dar importãncia a eles que eles falecerão no seu subconsciente...

- Bem que gostaria - continuou o Sr. - eu queria esse otimismo contra meus desafetos mesmo. Estás vendo que podemos nos ajudar?!

- Eu não sei onde quer chegar...

- Você não tem idéia de como estás perdendo sua vida isolado naquele sobrado... acha que porque todo mundo te inveja, és o melhor?! Estarás sempre protegido?! Saiu de sua casa, você pega chuva...

- Mas... - pensou um pouco Bartolomeu: de fato quando ele saia de casa, ele pegava chuva, sempre... o céu sempre foi claro para ele e o Sol sempre brilhou para ele, mas a chuva sempre o acompanhou... por que será que acontecia aquilo? Aquela alma penada não tinha refletido sobre isso, pois passava tão pouco tempo fora de sua casa, que mesmo seu grau de observação apurado não lhe dizia nada sobre aquilo. - Mas... eu sempre pego chuva?! Pego... por quê?!

- Porque você deixou de entender o mundo e estou lhe oferecendo a minha mão para caminharmos juntos agora. Chega de você matar todos os que lhe passam pelo seu caminho e cair chuva sobre sua cabeça, que é a minha também. Eu também não quero mais ficar de capa de chuva, mesmo sabendo que nunca vai cair chuva em cima de mim e meu céu ser sempre nublado e sem estrelas... vamos agora acabar com isso e termos o que nunca tivemos, uma união.

- Mas eu não entendo... união de quê?! Vamos morar juntos?! Sermos amigos?! O que me propões?! Seja direto e franco...

- Não posso... você tem que começar a acreditar primeiro em si próprio e dizer para você que você que é capaz disso...

- Eu sou capaz de tudo, menos de entender isso tudo que está acontecendo... maldita hora que sai de casa...

O Sr. olha para os lados, a chuva parecia engrossar e mais carros ficavam empacados nas ruas, papeis corriam para todos os lados, a calçada da praça começava a encharcar, mesmo sendo mais elevada que as demais... algumas lamparinas começavam a falhar e as poucas luzes que iluminavam aquele local sombrio estavampor apagar... algo era anunciado como uma grande mudança na Rua José Reinaldo... o que tinha resevado aquele Sr para Bartolomeu?! Qual era sua grande parceria que ajudaria a ambos?! Será que não causaria dor a Bartolomeu... confesso que vi Bartolomeu com medo pela primeira vez... sentia frio, muito frio naquela noite e sua manta era incapaz de segurar o calor, o pouco calor que ainda possuia em seu corpo... não tinha proteção contra mais nada... e não mais podia mais lutar contra as leis da natureza, parecia que um fim devia ser anunciado...

- Não é uma maldita hora... é uma bendita hora. Quando trocamos nossas experiências, aproximamo-nos mais um do outro... nos conhecemos, mas não nos falamos... o que isso pode significar?! Não importa: se você não acreditarm nada vai adiantar, eu vou sumir e a natureza vai nos dar o cabo de nós mesmos, assim como nós viemos ao mundo... tudo depende de uma ação sua e minha, a de cooperar... o que acha?!

- Eu não sei... tudo é tão estranho...

Nesse momento, o Sr lhe apresenta a mão para Bartolomeu... e ele a aperta... o tempo começa a melhorar... as luzes apresentam segurança na iluminação, a chuva não é mais tão grossa, e os bueiros dão conta da pouca água... alguns Ford's começam a se movimentar e o tempo fica nublado, nem mais límpido, mas com chuva, para Bartolomeu; nem sem estrelas e sem chuva para o Sr. As coisas começam a apresentar um caminho um pouco melhor para os dois personagens, mas o Sr desapareceu... apenas ficou o Sr Leafar Bartolomeu. Agora, ponderado e ciente do que vai acontecer, protegido e ao mesmo tempo forte para abater quem lhe impedir de andar... o que poderia mais acontecer com o nosso herói?!

Essa é a uma das notas que li de Bartolomeu... nunca mais ele escreveu nada mais depois desse incidente... a verdade é que nosso herói agora pode ser um ser humano um pouco melhor se ele conseguir ser um Sr e Bartolomeu ao mesmo tempo... será que você conseguiria?!