Hoje a cachorra daqui faz 10 anos. Em 1998, ela nascia, e eu começava meu ensino médio. Tanta coisa veio nesses dez anos. Tanta coisa se construiu e se destruiu durante esse período. Isso me faz lembrar da destruição criativa de Schumpeter. Não que seja adepto, mas eu concordo nesse ponto. As coisas no mundo e na vivência das pessoas se constroem e depois se destroem para outras coisas mais modernas serem postas nos lugares de antes. É juízo de valor dizer que o telefone é mais bonito e rápido que o telégrafo. Alguns podem acreditar que as coisas antigas eram melhores que as atuais, como os saudosistas.
Assim, gosto de lembrar que uma cidade sofre transformações. Algumas partes dela se transformam e ficam mais modernas, mas não quer dizer que as partes antigas da mesma tenham perdido a graça. É como em Veneza. Transcrevo, para isso, as próprias palavras do Greenspan sobre o processo de destruição criativa em nossas vidas:
"E, então, chegamos a Veneza. Por mais necessária que seja a destruição criativa para a melhoria do padrão de vida material, não é à toa que alguns dos lugares mais atraentes do mundo são aqueles que menos mudaram ao longo dos séculos. Eu nunca tinha visitado a cidade e, como tantos outros viajantes antes de mim, fiquei absolutamente encantado. Nossa idéia era passear e fazer coisas absolutamente espontâneas. E, embora isso seja difícil quando se viaja com uma equipe de seguranças, não ficamos muito longe do nosso intuito. Comemos em cafés ao ar livre, fizemos compras, visitamos igrejas e fomos ao velho gueto judeu.
Durante séculos, a cidade-Estado de Veneza foi o centro do mundo comercial, ligando a Europa Ocidental ao Império Bizantino e ao resto do mundo conhecido. Depois do Renascimento, as rotas comerciais se deslocaram para o Atlântico e Veneza decaiu como potência marítima. No entanto, durante todo o século XVIII, Veneza continuou sendo a cidade mais sofisticada da Europa, centro da literatura, da arquitetura e das artes. "Então, que novidades há no Riato?", trecho famoso de O Mercador de Veneza, referindo-se ao centro comercial da cidade, ainda tange vibrante corda cosmopolita.
Hoje, o distrito de Rialto mantém a mesma aparência de quando os comerciantes descarregavam partidas de seda e de especiarias procedentes do Oriente. Pode-se dizer o mesmo dos esplêndidos palácios renascentistas, da Praça de São Marcos e de dezaenas de outras atrações. Não fossem as lanchas motorizadas - as vaporetti - dir-se-ia que se está no século XVII ou no século XVIII.
Enquanto passeávamos por um dos canais, o economista que se continha dentro de mim finalmente levou a pergunta. Perguntei a Andrea: "Qual será o valor agregado produzido nessa cidade?"
"Você está fazendo a pergunta errada", respondeu, e soltou uma risada.
"Mas toda essa cidade é um museu. Imagina o quanto custaria manter tudo isso."
Andrea parou e olhou para mim. "Você devia estar admirado como tudo isso é maravilhoso."
Evidentemente minha esposa estava certa. Mas a conversa serviu para cristalizar algo que havia meses eu ruminava num canto da mente.
Veneza, percebi, é a antítese da destruição criativa. ela existe para valorizar o passado - não para criar o futuro. [...] A popularidade de Veneza representa um dos pólos de um conflito da natureza humana: a luta entre o desejo de aumentar o bem-estar e o desejo de rejeitar a mudança e o estresse dela decorrentes."
Depois em passagem posterior, ele traça uma das mais belas frases, enaltecendo todo o caráter ruim das mudanças que ocorrem na frugalidade do dia-a-dia das pessoas, buscando status e poder, mas se esquecendo das pequenas coisas, do bucólico, do pastoril, da inocência, apelando para sempre um padrão de vida duro e metódico das grandes cidades cosmopolitas:
"[...] Nada é mais estressante que os ventos perenes da destruição criativa. O Vale do Silício é, sem dúvida, um lugar vibrante para trabalhar; mas eu diria que, até agora, seus encantos com estância para lua-de-mel não foi de modo reconhecido."
A minha cachorrinha passou dez anos comigo, e espero que mais dez anos ainda sejam possíveis, mas os efeitos da destruição criativa que passou em minha vida e de milhares de pessoas nesses anos é irreversível. Não há como se voltar atrás e a paisagem de um campo verde, com uma casinha de paredes brancas e telhado vermelho não é mais possível. O que guia a mente é o poder e o status, que, como dizia um amigo da Opus Dei: "- para depois encerrarmos num canto da lagoa e voltarmos a pescar"... buscamos tanto suporte, tanto status e poder, para chegarmos a idade de 70 anos para desfrutar o que temos hoje, saudosos dos velhos tempos da escassez...
Feliz Aniversário.
Assim, gosto de lembrar que uma cidade sofre transformações. Algumas partes dela se transformam e ficam mais modernas, mas não quer dizer que as partes antigas da mesma tenham perdido a graça. É como em Veneza. Transcrevo, para isso, as próprias palavras do Greenspan sobre o processo de destruição criativa em nossas vidas:
"E, então, chegamos a Veneza. Por mais necessária que seja a destruição criativa para a melhoria do padrão de vida material, não é à toa que alguns dos lugares mais atraentes do mundo são aqueles que menos mudaram ao longo dos séculos. Eu nunca tinha visitado a cidade e, como tantos outros viajantes antes de mim, fiquei absolutamente encantado. Nossa idéia era passear e fazer coisas absolutamente espontâneas. E, embora isso seja difícil quando se viaja com uma equipe de seguranças, não ficamos muito longe do nosso intuito. Comemos em cafés ao ar livre, fizemos compras, visitamos igrejas e fomos ao velho gueto judeu.
Durante séculos, a cidade-Estado de Veneza foi o centro do mundo comercial, ligando a Europa Ocidental ao Império Bizantino e ao resto do mundo conhecido. Depois do Renascimento, as rotas comerciais se deslocaram para o Atlântico e Veneza decaiu como potência marítima. No entanto, durante todo o século XVIII, Veneza continuou sendo a cidade mais sofisticada da Europa, centro da literatura, da arquitetura e das artes. "Então, que novidades há no Riato?", trecho famoso de O Mercador de Veneza, referindo-se ao centro comercial da cidade, ainda tange vibrante corda cosmopolita.
Hoje, o distrito de Rialto mantém a mesma aparência de quando os comerciantes descarregavam partidas de seda e de especiarias procedentes do Oriente. Pode-se dizer o mesmo dos esplêndidos palácios renascentistas, da Praça de São Marcos e de dezaenas de outras atrações. Não fossem as lanchas motorizadas - as vaporetti - dir-se-ia que se está no século XVII ou no século XVIII.
Enquanto passeávamos por um dos canais, o economista que se continha dentro de mim finalmente levou a pergunta. Perguntei a Andrea: "Qual será o valor agregado produzido nessa cidade?"
"Você está fazendo a pergunta errada", respondeu, e soltou uma risada.
"Mas toda essa cidade é um museu. Imagina o quanto custaria manter tudo isso."
Andrea parou e olhou para mim. "Você devia estar admirado como tudo isso é maravilhoso."
Evidentemente minha esposa estava certa. Mas a conversa serviu para cristalizar algo que havia meses eu ruminava num canto da mente.
Veneza, percebi, é a antítese da destruição criativa. ela existe para valorizar o passado - não para criar o futuro. [...] A popularidade de Veneza representa um dos pólos de um conflito da natureza humana: a luta entre o desejo de aumentar o bem-estar e o desejo de rejeitar a mudança e o estresse dela decorrentes."
Depois em passagem posterior, ele traça uma das mais belas frases, enaltecendo todo o caráter ruim das mudanças que ocorrem na frugalidade do dia-a-dia das pessoas, buscando status e poder, mas se esquecendo das pequenas coisas, do bucólico, do pastoril, da inocência, apelando para sempre um padrão de vida duro e metódico das grandes cidades cosmopolitas:
"[...] Nada é mais estressante que os ventos perenes da destruição criativa. O Vale do Silício é, sem dúvida, um lugar vibrante para trabalhar; mas eu diria que, até agora, seus encantos com estância para lua-de-mel não foi de modo reconhecido."
A minha cachorrinha passou dez anos comigo, e espero que mais dez anos ainda sejam possíveis, mas os efeitos da destruição criativa que passou em minha vida e de milhares de pessoas nesses anos é irreversível. Não há como se voltar atrás e a paisagem de um campo verde, com uma casinha de paredes brancas e telhado vermelho não é mais possível. O que guia a mente é o poder e o status, que, como dizia um amigo da Opus Dei: "- para depois encerrarmos num canto da lagoa e voltarmos a pescar"... buscamos tanto suporte, tanto status e poder, para chegarmos a idade de 70 anos para desfrutar o que temos hoje, saudosos dos velhos tempos da escassez...
Feliz Aniversário.



