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Thursday, January 10, 2008

Aniversário de minha cachorra

Hoje a cachorra daqui faz 10 anos. Em 1998, ela nascia, e eu começava meu ensino médio. Tanta coisa veio nesses dez anos. Tanta coisa se construiu e se destruiu durante esse período. Isso me faz lembrar da destruição criativa de Schumpeter. Não que seja adepto, mas eu concordo nesse ponto. As coisas no mundo e na vivência das pessoas se constroem e depois se destroem para outras coisas mais modernas serem postas nos lugares de antes. É juízo de valor dizer que o telefone é mais bonito e rápido que o telégrafo. Alguns podem acreditar que as coisas antigas eram melhores que as atuais, como os saudosistas.

Assim, gosto de lembrar que uma cidade sofre transformações. Algumas partes dela se transformam e ficam mais modernas, mas não quer dizer que as partes antigas da mesma tenham perdido a graça. É como em Veneza. Transcrevo, para isso, as próprias palavras do Greenspan sobre o processo de destruição criativa em nossas vidas:

"E, então, chegamos a Veneza. Por mais necessária que seja a destruição criativa para a melhoria do padrão de vida material, não é à toa que alguns dos lugares mais atraentes do mundo são aqueles que menos mudaram ao longo dos séculos. Eu nunca tinha visitado a cidade e, como tantos outros viajantes antes de mim, fiquei absolutamente encantado. Nossa idéia era passear e fazer coisas absolutamente espontâneas. E, embora isso seja difícil quando se viaja com uma equipe de seguranças, não ficamos muito longe do nosso intuito. Comemos em cafés ao ar livre, fizemos compras, visitamos igrejas e fomos ao velho gueto judeu.

Durante séculos, a cidade-Estado de Veneza foi o centro do mundo comercial, ligando a Europa Ocidental ao Império Bizantino e ao resto do mundo conhecido. Depois do Renascimento, as rotas comerciais se deslocaram para o Atlântico e Veneza decaiu como potência marítima. No entanto, durante todo o século XVIII, Veneza continuou sendo a cidade mais sofisticada da Europa, centro da literatura, da arquitetura e das artes. "Então, que novidades há no Riato?", trecho famoso de O Mercador de Veneza, referindo-se ao centro comercial da cidade, ainda tange vibrante corda cosmopolita.

Hoje, o distrito de Rialto mantém a mesma aparência de quando os comerciantes descarregavam partidas de seda e de especiarias procedentes do Oriente. Pode-se dizer o mesmo dos esplêndidos palácios renascentistas, da Praça de São Marcos e de dezaenas de outras atrações. Não fossem as lanchas motorizadas - as vaporetti - dir-se-ia que se está no século XVII ou no século XVIII.

Enquanto passeávamos por um dos canais, o economista que se continha dentro de mim finalmente levou a pergunta. Perguntei a Andrea: "Qual será o valor agregado produzido nessa cidade?"

"Você está fazendo a pergunta errada", respondeu, e soltou uma risada.

"Mas toda essa cidade é um museu. Imagina o quanto custaria manter tudo isso."

Andrea parou e olhou para mim. "Você devia estar admirado como tudo isso é maravilhoso."

Evidentemente minha esposa estava certa. Mas a conversa serviu para cristalizar algo que havia meses eu ruminava num canto da mente.

Veneza, percebi, é a antítese da destruição criativa. ela existe para valorizar o passado - não para criar o futuro. [...] A popularidade de Veneza representa um dos pólos de um conflito da natureza humana: a luta entre o desejo de aumentar o bem-estar e o desejo de rejeitar a mudança e o estresse dela decorrentes."

Depois em passagem posterior, ele traça uma das mais belas frases, enaltecendo todo o caráter ruim das mudanças que ocorrem na frugalidade do dia-a-dia das pessoas, buscando status e poder, mas se esquecendo das pequenas coisas, do bucólico, do pastoril, da inocência, apelando para sempre um padrão de vida duro e metódico das grandes cidades cosmopolitas:

"[...] Nada é mais estressante que os ventos perenes da destruição criativa. O Vale do Silício é, sem dúvida, um lugar vibrante para trabalhar; mas eu diria que, até agora, seus encantos com estância para lua-de-mel não foi de modo reconhecido."

A minha cachorrinha passou dez anos comigo, e espero que mais dez anos ainda sejam possíveis, mas os efeitos da destruição criativa que passou em minha vida e de milhares de pessoas nesses anos é irreversível. Não há como se voltar atrás e a paisagem de um campo verde, com uma casinha de paredes brancas e telhado vermelho não é mais possível. O que guia a mente é o poder e o status, que, como dizia um amigo da Opus Dei: "- para depois encerrarmos num canto da lagoa e voltarmos a pescar"... buscamos tanto suporte, tanto status e poder, para chegarmos a idade de 70 anos para desfrutar o que temos hoje, saudosos dos velhos tempos da escassez...

Feliz Aniversário.

Wednesday, December 05, 2007

Pequeno pássaro


Era uma quarta. E do alto de meu telhado, aquele que emcobre minha varanda, um ser cai. Ele é pequeno. Voa baixo. Incomoda alguns que dormem após o almoço, na rede. Eu, deito-me na sala, na tapete. Escuto o pedido de ajuda. Ignoro. Volto aos meus pensamentos, minhas preocupações. Todos saem para trabalhar. Fico em casa. Escuto o pedido de ajuda. Mais uma vez. Levanto-me. Debatendo-se no chão, um pequeno pássaro. Pequeno mesmo. Com seu vôo pequeno, rasteiro, passeia sobre a varanda. Tento pegá-lo e consigo. Berro. Berro para ver que consegui pegá-lo. Minha imrã chega e vê, toma de minhas mãos e começa a cuidar dele. Põe numa caixa furada, de papelão, com papa e começa a criá-lo. São quatro dias. Quatro dias de paixão, pouco, realmente pouco. Os cuidados não são suficientes. No sábado, fazendo o almoço, não escuto mais o seu pedido de ajuda. Atendo o telefone, volto a cozinhar.

Minha irmã chega. Abre uma aba da caixa e depois outra. Nota que naquele ninhozinho que armara para aconchegar os dois filhotes, sim, dois filhotes, pois o segundo também fora abandonado pela mãe, no ninho que havia no meu telhado. Ela tomou os dois para criar, deu nome a ambos, Juvenal e Joaquim. Juvenal era sempre mais arisco, não deixava abrir o bico para tomar a papa na seringa; Joaquim aceitava com menor resistência.

Mas quando olhou aquele ninho, como dizia, eles não mais se mexiam. Estavam duros. Ela grita. Aproximo-me. Passo a mão sobre sua cabeça, abraço-a. Até eu, sem muito sentimento, sem muito a entender o que significava aquilo tudo, sinto a dor de minha irmã.

No jardim de casa, eles são enterrados.

Monday, November 12, 2007

Raios!!

RAIIIOOSS!!!

Fui convidado pra uma tal de suruba,
Não pudia ir, Maria foi no meu lugar
Depois de uma semana ela voltou pra casa,
Toda arregaçada não podia nem sentar.

Quando vi aquilo fiquei assustado,
Maria chorando começou a me explicar.
Daí então eu fiquei aliviado,
E dei graças a Deus porque ela foi no meu lugar

Roda, roda e vira, solta a roda e vem
Me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém
Roda, roda e vira, solta a roda e vem
Neste raio de suruba, já me passaram a mão na bunda,
E ainda não comi ninguém!
[Mamonas Assassinas, Vira-vira]



RAIIIIOOSS!!!

Quem nunca ouviu essa música, pode atirar a primeira pedra. Bom, pelo meu conservadorismo excessivo, eu não gostava de Mamonas Assassinas. Sim, eu era diferente demais, por isso, ganhei destaque na minha quinta série. Mas se era o único a demonstrar que não gostava, era um dos poucos a demonstrar que cantava... Bem, mas isso é pretexto para dizer que um raio quase acertou minha casa. Sim, quase. Será um sinal do além?! Será que há mais surpresas?! Será que devo apostar na mega-sena?! Será que um raio não cai no mesmo local?!

Bom, o fato é que um raio passou raspando pelo meu telhado, e atingiu uma árvore, do outro lado da rua! Não, não tinha nenhum carro, não tinha ninguém atravessando, e fazia, segundos os relatos de minha mãe, um grande e gigantesco roda-moinho, daqueles que às vezes visitam a casa do Mickey Mouse todo início de ano.

Aliás, diga-se de passagem que o Mickey é muito mais macho que rato. Por que?! Pensa só: imagina se um furacão passa pela sua casa... o que você faria. Bem, deixe-me advinhar: você correria para o porão e se esconderia, se não, até mesmo, você fugiria para longe, evitando um desastre de como aconteceu em Nova Orleans, com o furacão Katrina, que o desgraçado do Bush filho não teve coragem de socorrer na hora certa, porque é um incopetente, e que a Lousiania tenha Jazz e que o estado do Texas e os texanos tenham muita raiva por isso.

Mas deixemos a política interna americana para eles, e voltemos para o Mickey. Ele jamais fugiria da Disney, não porque é um rato, nem porque o Walt pôs ele lá, mas, acima de tudo, é porque ele é macho pra cacete! Ele não largaria a Minnie, não largaria o Pluto, nem o Pato Donald, sequer o Pateta e o chato do Zé Carioca.

E sabe porque?! Porque o Mickey é um porco capitalista que eu gosto! Ele gosta do dinheiro que as criancinhas deixam lá, e gosta da família que ele criou lá. Eu sou fã do Mickey, acho que ele deveria concorrer nas próximas eleições para o governo do Estado local, a Flórida, desbancando o Bush irmão; e isso daria certo, pois o Mickey, como toda a indústria cinematográfica, deve ser Democrata.

Bem, o safado do Mickey tem ainda um futuro promissor, e, suponho eu, na ingenuidade de meus pensamentos, que ele pode se casar, envelhecer um pouco, por a Disney para um bom assessor administrar e tocar o negócio; talvez a Minnie tenha senso empreendedor e consiga gerar dividendos para a campanha e ainda sim o Mickey pode chegar a Casa Blanca.

Tomara que ele não dê uma puladinha da cerca e se aproveite de ser democrata e de estar na casa Blanca para pegar alguma estagiária e por tudo a perder. Mas acho que ele não chega longa não, porque é burro e tem mal serve para cobaia de laboratório de psicologia. Eu mesmo já tentei chutar a bunda dele e dar uma lambada nele, mas não deu; aquele porco-capitalista é forte, igual o papai-noel, mas deste, eu cuido noutro post...

Bem, tirando o Mickey, os americanos e o papai Noel (por enquanto...) dessa fucking story, minha casa perdeu algumas telhas, amanhã chega os pedreiros para arrumar. Diga-se de passagem, as chuvas aqui dessa cidade estão varrendo tudo, até os telhados do Pier... sim, a alguns dias isso aconteceu...

Aliás, falando em Papai Noel, o Natal vem chegando... o que vou pedir?! Conto noutra estória...





[Mickey na arte de Andy Warhol, o criador do por-art; visão da árvore destruída, assim que cheguei em casa a noite. Crônicas da semana, agora aqui no NTDN]