Aqui é o meu país
Nos seios da minha amada
Nos olhos da perdiz
Na lua, na invernada
Nas filhas estradas de vias que vão
Do céu ao coração
Aqui é o meu país
De sonhos em cabimento
Aqui sou Passarim
Que as penas estão no vento
Por isso aprendi a cantar
Voar, voar, voar...
[Ivan Lins & Victor Martins - Aqui É O meu país]

[A decolagem de nosso avião em Orly, Paris]
Ahhh... Paris... tudo começara ali. O encontro, o namoro, o casamento, e as primeiras brigas... eu estava feliz por estar ali, pois apesar de todos os meus traumas terem sidos gerados ali, eu conseguia superá-los. É como domar os maus espíritos numa época em que só existe a fé, como nas cruzadas... os mals gerados pelos traumas e complexos são nossas doenças de hoje, elas não tem remédio a não ser a terapia - método pouco eficaz...
Chegamos pelo RER, tomamos o metropolitano para atingir Orly. Nas margens da Bd. de L'Europe, ficamos instalados numa espelunca de quarta categoria. O quarto ficava num prédio com banheiro central, por andar. Não havia banheiros individuais por apartamento - uma coisa comum aos apartamentos europeus tradicionais. A porta, um tanto puída, era ainda forte; junto aos móveis de jacarandá: um armário alto, de uns 2,10 m; uma biblioteca que reunia alguns exemplares de Proust e Sheakspeare, em francês, claro; e uma escrivanhia, que reunia grandes papeladas de luz, água e condomínio, além do aluguel. Enquanto vistoriava o apartamento com Katherine, Rubens acertava com o conciergie do prédio. Apesar de ter dormido a viagem toda, chegamos às 2h da madrugada no apartamento e estava exausto, não tinha tempo sequer para observar muito o movimentado aeorporto de Orly, dentro de Paris.
Dormi. Amanhã pela manhã, tínhamos que comprar as passagens que Rubens esquecera, o que foi um grande problema. Horas na fila de duas companhias, a brasileira Varig e a francesa Air France. Enquanto Katherine ficava na fila, fui a janela observar o pátio do aeroporto e notar os novíssimos Lockheed L-188 Electra americanos da Varig e Air France; os já quase-aposentados Douglas DC-6 da American Airlines, juntamente com os DC-7 da Pan Am. Não haviam aviões de turbina naquela época, apenas hélices. No máximo, existia o chamado turbo-hélice, uma combinação de hélice e turbina para o vôo. Apenas em outubro desse mesmo ano que a American Airlines faria o primeiro vôo de Paris a Nova Iorque com um dos aparelhos mais modernos e promissores do mundo em termos de aviação, o Boeing 707...
Chega a vez de Katherine na fila. Tomo a frente e peço três passagens num Electra da Varig, com escala em Recife e não no Rio, como queria! Ela discutiu comigo por uns instantes que desejava observar o Rio, nem que fosse por cima da cidade. Não quis. Tinha meus motivos. Sempre gostei de São Paulo. E assim foi. Ficamos esperando nas confortáveis poltronas o sábado inteiro; eu arrumando os papeis na minha pasta, os de Katherine, os de Rubens e Clement sobre minha mulher e sobre Bartolomeu... encontrei aquele papel, li, vi as iniciais novamente, C.V.M., uma carta de Bartolomeu para ela... li rapidamente, pois o nosso vôo, às 1h30 da manhã foi anunciado em inglês...
- Atention, misters to the flight 1807 of Varig Airlines, present yourselves to the gate 7 to check-in, please.
Depois do check-in e da gentileza incomum das brasileiras comissárias, embarcamos nas poltronas..., e tinha cerca de 100 passageiros no vôo, para uma aeronave que comportava 127. O vôo foi tranquilo. Pousamos em Recife.
Chegamos pelo RER, tomamos o metropolitano para atingir Orly. Nas margens da Bd. de L'Europe, ficamos instalados numa espelunca de quarta categoria. O quarto ficava num prédio com banheiro central, por andar. Não havia banheiros individuais por apartamento - uma coisa comum aos apartamentos europeus tradicionais. A porta, um tanto puída, era ainda forte; junto aos móveis de jacarandá: um armário alto, de uns 2,10 m; uma biblioteca que reunia alguns exemplares de Proust e Sheakspeare, em francês, claro; e uma escrivanhia, que reunia grandes papeladas de luz, água e condomínio, além do aluguel. Enquanto vistoriava o apartamento com Katherine, Rubens acertava com o conciergie do prédio. Apesar de ter dormido a viagem toda, chegamos às 2h da madrugada no apartamento e estava exausto, não tinha tempo sequer para observar muito o movimentado aeorporto de Orly, dentro de Paris.
Dormi. Amanhã pela manhã, tínhamos que comprar as passagens que Rubens esquecera, o que foi um grande problema. Horas na fila de duas companhias, a brasileira Varig e a francesa Air France. Enquanto Katherine ficava na fila, fui a janela observar o pátio do aeroporto e notar os novíssimos Lockheed L-188 Electra americanos da Varig e Air France; os já quase-aposentados Douglas DC-6 da American Airlines, juntamente com os DC-7 da Pan Am. Não haviam aviões de turbina naquela época, apenas hélices. No máximo, existia o chamado turbo-hélice, uma combinação de hélice e turbina para o vôo. Apenas em outubro desse mesmo ano que a American Airlines faria o primeiro vôo de Paris a Nova Iorque com um dos aparelhos mais modernos e promissores do mundo em termos de aviação, o Boeing 707...
Chega a vez de Katherine na fila. Tomo a frente e peço três passagens num Electra da Varig, com escala em Recife e não no Rio, como queria! Ela discutiu comigo por uns instantes que desejava observar o Rio, nem que fosse por cima da cidade. Não quis. Tinha meus motivos. Sempre gostei de São Paulo. E assim foi. Ficamos esperando nas confortáveis poltronas o sábado inteiro; eu arrumando os papeis na minha pasta, os de Katherine, os de Rubens e Clement sobre minha mulher e sobre Bartolomeu... encontrei aquele papel, li, vi as iniciais novamente, C.V.M., uma carta de Bartolomeu para ela... li rapidamente, pois o nosso vôo, às 1h30 da manhã foi anunciado em inglês...
- Atention, misters to the flight 1807 of Varig Airlines, present yourselves to the gate 7 to check-in, please.
Depois do check-in e da gentileza incomum das brasileiras comissárias, embarcamos nas poltronas..., e tinha cerca de 100 passageiros no vôo, para uma aeronave que comportava 127. O vôo foi tranquilo. Pousamos em Recife.

[Agora, de DC-3 para Sampa]
Tivemos problemas para a escala, foi-nos oferecido um vôo da Varig num DC-3 para São Paulo, aceitamos. O DC-3 foi um dos principais aviões que determinaram a vitória aliada na Segunda Guerra e Katherine sabia disso, ao discursar sobre... lembrou que aquele dia 26 de maio de 1958 era também comemorado o Memorial Day, o dia dos americanos para os mortos durante a Guerra Civil americana, sim a do E o Vento levou...... contou que sua mãe rezava muito para o pai dela estar vivo, rezava e acendia velas nesse dia para ele, depois da vitória dos EUA e Grã-Bretanha sobre a Alemanha Nazista... dormi um pouco durante o vôo.
Rubens continuou a conversa, queria saber mais sobre Katherine, e conseguiu... estava muito interessado nela, desde o primeiro olhar, mas pouco demostrava. Queria se informar antes.
- Nunca conheceu seu pai?!
- Nunca, minha mãe fala muito pouco sobre ele, acredito que tenha me posto num colégio interno a fim de eu não perguntar sobre ele...
- Teve muitos namorados?! Você namora algum deles hoje?!
- Não, não muitos. Sou pacata e recatada. Tive várias decepções. Busquei homens diversos que não me adaptaram, talvez por que não tenham tido os mesmos ideais de meus pais, possivelmente, Leonard, como profundo conhecedor da Psicologia bem disse sobre... - continuei com os meus olhos fechados, fingindo dormir, enquanto ela me seduzia para a conversa...
- Nossa, mas que compicação!
- Sim, minha vida é complicada.
- Não me referia a isso: a nossa vida só é complicada porque nós a complicamos. Aqui nós estamos, tentanto resolver um problema seu, buscar a pessoa que você diz amar... - Rubens era manipulador, sempre gostei de seus jogos de conquistar as minhas amigas...
- Certo, estou tentando acreditar nisso e agradeço desde já o carinho e a atenção dispensada a mim e aos meus objetivos... mas a que se referia, então?!
- A sua mãe, ela deve ser muito complicada...
- Ah, sim, ela é... bastante.
- Ela parece com você?!
- Bastante, deixe-me mostrar... veja nessa foto, com Gene Kelly...
- Uau, ela conheceu Gene?!
- Sim, ela quase dirigiu alguns musicais com ele na Broadway...
- Que bom... como ela se chama mesmo?!
= Christine Mond, adoro ela, chamava ela de CVM; ela chama-me de imperatriz russa...
Nesse momento, eu parei de escutar o que quer que fosse que estavam discutindo, lembrei-me da carta de Bartolomeu a C.M.V, veio-me a mente o texto completo:
"Monte-Carlo, 18 de Maio de 1958
C.V.M.,
Obrigado por enviar minha Princesa, ela é linda..."
Numa outra mensagem, que também li depois, para conferir o que estava pensando, já no toilete da aeronave, dizia:
"Monte-Carlo, 10 de Maio de 1958
Amor,
Você me destrói com essas suas palavras dizendo-me que me quer e não me quer... a única coisa que desejo é estar bem longe, mas também não consigo... tudo para que olho é seu rosto que lembro e isso torna-me fraco diante do maior obstáculo que é você... és minha sereia, és algo me atentando... que me impede de dobrar o Cabo...
Mas a única coisa que desejo é saber da minha Imperatriz russa..."
As datas, as palavras diziam tudo o que suspeitava ao ter ouvido aquelas palavras a respeito do nome da sua mãe e do carinhoso apelido... mesmo antes de conferir essa última carta... eu, fingindo estar dormindo, não consegui fingi minha emoção, uma lágrima escorre do meu rosto, atravessando minhas maçãs, minha barba que crescera depois da fuga do hospital, e pingando, de um dos cabelos de meu cavanhaque, na minha blusa azul social... abrindo uma mancha escura, úmida na minha gola, espalhando-se, umedecendo aquela pequena parte de minha gola... uma gota num mar azul, uma gota num oceano azul... não somos nada...
Rubens continuou a conversa, queria saber mais sobre Katherine, e conseguiu... estava muito interessado nela, desde o primeiro olhar, mas pouco demostrava. Queria se informar antes.
- Nunca conheceu seu pai?!
- Nunca, minha mãe fala muito pouco sobre ele, acredito que tenha me posto num colégio interno a fim de eu não perguntar sobre ele...
- Teve muitos namorados?! Você namora algum deles hoje?!
- Não, não muitos. Sou pacata e recatada. Tive várias decepções. Busquei homens diversos que não me adaptaram, talvez por que não tenham tido os mesmos ideais de meus pais, possivelmente, Leonard, como profundo conhecedor da Psicologia bem disse sobre... - continuei com os meus olhos fechados, fingindo dormir, enquanto ela me seduzia para a conversa...
- Nossa, mas que compicação!
- Sim, minha vida é complicada.
- Não me referia a isso: a nossa vida só é complicada porque nós a complicamos. Aqui nós estamos, tentanto resolver um problema seu, buscar a pessoa que você diz amar... - Rubens era manipulador, sempre gostei de seus jogos de conquistar as minhas amigas...
- Certo, estou tentando acreditar nisso e agradeço desde já o carinho e a atenção dispensada a mim e aos meus objetivos... mas a que se referia, então?!
- A sua mãe, ela deve ser muito complicada...
- Ah, sim, ela é... bastante.
- Ela parece com você?!
- Bastante, deixe-me mostrar... veja nessa foto, com Gene Kelly...
- Uau, ela conheceu Gene?!
- Sim, ela quase dirigiu alguns musicais com ele na Broadway...
- Que bom... como ela se chama mesmo?!
= Christine Mond, adoro ela, chamava ela de CVM; ela chama-me de imperatriz russa...
Nesse momento, eu parei de escutar o que quer que fosse que estavam discutindo, lembrei-me da carta de Bartolomeu a C.M.V, veio-me a mente o texto completo:
"Monte-Carlo, 18 de Maio de 1958
C.V.M.,
Obrigado por enviar minha Princesa, ela é linda..."
Numa outra mensagem, que também li depois, para conferir o que estava pensando, já no toilete da aeronave, dizia:
"Monte-Carlo, 10 de Maio de 1958
Amor,
Você me destrói com essas suas palavras dizendo-me que me quer e não me quer... a única coisa que desejo é estar bem longe, mas também não consigo... tudo para que olho é seu rosto que lembro e isso torna-me fraco diante do maior obstáculo que é você... és minha sereia, és algo me atentando... que me impede de dobrar o Cabo...
Mas a única coisa que desejo é saber da minha Imperatriz russa..."
As datas, as palavras diziam tudo o que suspeitava ao ter ouvido aquelas palavras a respeito do nome da sua mãe e do carinhoso apelido... mesmo antes de conferir essa última carta... eu, fingindo estar dormindo, não consegui fingi minha emoção, uma lágrima escorre do meu rosto, atravessando minhas maçãs, minha barba que crescera depois da fuga do hospital, e pingando, de um dos cabelos de meu cavanhaque, na minha blusa azul social... abrindo uma mancha escura, úmida na minha gola, espalhando-se, umedecendo aquela pequena parte de minha gola... uma gota num mar azul, uma gota num oceano azul... não somos nada...
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