- Note, Sr!
- O quê?! - Perguntava o realista.
- Nas suas prosas, nas suas poesias, o romantismo está sempre presente. Mesmo que para simplesmente criticá-lo. Os Srs falam de romances gauches, falam de poesias sobre as estrelas, sobre a Via Láctea, sobre vasos gregos! Tem razão para tudo isso?! A sua métrica, a sua forma irrita-nos na poesia! O seu calculismo, seu sarcarsmo a nossa sociedade irrita-nos na prosa! Não tem noção o Sr disso.
- Exatamente! - retrucou o parnasiano. Falo sim de galáxias, falo sim da Língua Portuguesa e de vasos gregos. Até da Vitória de Samotrácia! Mas o Sr tem de entender que, decerto, critico a sociedade em que me insiro. Os Srs tentaram, em vão, exaltar a nação, cairam em depressão e tentaram, na poesia libertária, exaltar até a livre servidão de nossa nação. Essa em que se assenta nossa bela economia escravocrata!
- E eu não tenho culpa! - Dissera o prosador realista. Quem começou tudo isso foram os franceses, Flaubert, decerto. A sua prosa contaminou uma sociedade que os Srs forjaram! Vejam só! A sua 'Senhora Aurélia' fora uma grande farsante! Que mulher existia assim em nossa sociedade?! Tudo uma farsa! Que diga Machado! Os casamentos são apenas contratos, não se há amor, apenas uma união de dotes e riquezas. Não existe união de indigena e colonizador. Tudo farsa...
- O quê?! - Inrompe o romântico. Nada do que falas é verdade, meu caro. Há ainda o amor, há ainda líricas que exaltam um conteúdo e não meramente forma, pobre parnasiano!!! Deveras enxergar isso! Deveras enxergar que nossa sociedade não pode se sustentar na escravidão, que devemos focar nos interesses nacionais e não meramente seguir tendências européias a que os Srs seguem!!!
- O que falas?! O nosso Flaubert está para nós, assim como Goethe está para vocês. Não há originalidade no que dizes!!! - Protesta o realista.
- Sim, mas a tendência que seguistes fora apenas a de criticar a sociedade, ressaltar os seus podres e não apresentar suas partes boas. Nós exaltamos as partes boas, o nacionalismo, a pátria, a liberdade.
- A falsa liberdade. A liberdade consiste em descrever fidedignamente o ambiente em que nos inserimos e não criar ilusões!
- Ilusões?! Achas que tudo o que descreves é verdade?! Achas que tudo é adultério?! Achas que tudo é essa falsa paixão que nos submete?! Esse amor que apenas serve para fechar a idéia de seus livros?! Acho que não...
Nesse momento, na sala nobre onde debatiam os defensores das escolas e movimentos literários, chega um visitante. Trajado de forma diferente dos demais, falando um português bem abrasileirado, pouco se importando com os tratamentos com os demais... Puxa a cadeira, inverte-a e senta de forma não-usual à sala de estar, próxima a mesa de centro da mesma. Os presentes olham com estranheza a forma de andar e os modos do mesmo. Começam a cochichar... baixo... e o visitante inrompe numa só palavra:
- Pô, dá pra parar com essa discussão tola?! Românticos, vocês são bobos. Não existe o amor que vocês descrevem, nem a pessoa amada, nem a nação... a sua poesia é importada, sua prosa, não-verossimil. Chega disso! Parnasiano, por favor! Que porcaria de métrica e forma que exalta?! É apenas um exercício de dicionário?! De gramática?! Não precisamos disso. Realista, por que esse nome?! Acha você que descreve as coisas tal como elas são?! Emprestou do movimento artistico apenas?! Acha que se diferenciam do romântico quando inserem pessoas cheias de problemas e limitações?! Vocês apenas fogem para o outro lado da régua, caricaturizam um ser humano para atrair audiência nos folhetins, tal como os românticos... exercício literário!
Precisamos de uma prosa e poesias nacionais, como a nossa da Semana!!! Isso sim!!! Uma revolução completa, que não apenas nega a escola anterior, mas que destrói todas as que existiram antes e sugere a sociedade algo realmente novo! Mas vocês foram úteis! Demasiadamente, para dar motivo a nossa festa! Demorou um pouco, mas vocês nos ensinaram que não é o que escrevem que é o que querem dizer, mas sim imitar o que vem de fora, negar uns aos outros, suas entrelinhas realmente nos ofuscaram durante todo esse tempo!!! Os movimentos de avant-garde nos ajudaram a entender tudo isso... agora realmente somos livres para fazer o que quisermos com as palavras e os pensamentos, sem se preocupar com a forma, com a métrica, ou ainda com as críticas ou odes à sociedade... viva o modernismo!!!
[Portrait of Eduard Kosmack by Egon Schiele, 1910]
