In the town they're searching for us ev'rywhere
but we never will be found...
Band on the run, Band on the run...
[Band on the Run, Paul McCartney]
... ao baixar-me a fim de ler as iniciais ao fim do documento, ouço a voz de Rubens, desesperado, com muitos e muitos papeis entrando pela porta de meu quarto, fugindo da segurança, tropeça no fio que alimentava os aparelhos de medição cardiaca e todos os papeis voam em meu colo... e se misturam... o que poderia ser descoberto com rapidez, agora, Rubens fizera atrasar a minha sabedoria a cerca da verdadeira situação...
- Desculpa, meu amigo, aqui estão mais papeis sobre Emmanuelle, Clement enviou para eu entregar-te, estou fugindo da segurança, estou fora do...
- HORÁRIO DE VISITA. Queria o Sr acompanhar os seguranças!
O guarda do andar falava em tom taxativo para Rubens... que teve de ir. Aquela bagunça demorou muito tempo para ser limpa. Era quase horário de almoço, não tinha horário de visita na quarta-feira. Fiquei só analisando os papeis, tentei catar alguns sobre a cama, forçava um pouco minha flexão em meu ventre e a costela doía ainda, os ligamentos estavam doloridos ainda... continuei a forçá-los, a me estender para pegar os papeis sobre o chão, catei um, que acreditava ser de Bartolomeu, abri, quase com a cara no chão, pelo meu estendimento, e vi as seguintes letras:
"Emmmanuelle,
You're a sex pot girl that I've seen, a perfect bitch that I've got in Cotê D'azur; your stamp bitch, you'll always have all my secrets in the CIA, I'll give all if you be mime, only mime! And tell this to a crickhold husband!
John Smile Newton"
Cai no chão de desgosto de ler aquilo... alguns dos fios que me ligavam aos demais aparelhos se soltaram de meu peito, o que fez chamar a atenção da equipe de plantão de quarta... pensaram que estava indo, sem motivos, mas indo... na realidade, cai em loucura ao ler aquilo, não aturava que minha mulher tivesse me traído ou que um canalha desses falasse disso dela. Talvez seja comum aos homens de boa índole: não querer que suas 'mulheres' sejam insultadas, maltratadas por vagabundos quaisquer... queria saber quem era John Smile... Clement jamais me diria, teria que descobrir sozinho...
* * * * * * *
Passei o restante da quarta sedado e na quinta-feira acordei num divã do Hospital. Enviaram-me um psiquiatra para me analisar, a pedido de Clement. Dissera ele, Clement, que Bartolomeu fora localizado no Brasil, no interior do Estado de São Paulo; mas que não devia me preocupar... Lady Katherine ficara fora da estória, afastaram ela de mim. O meu único contato era Rubens. Apenas ele seria capaz de diblar o front e me fazer conexão com o mundo externo. E ele conseguiu...
Não piorei devido a queda, mas enloqueci, e o Psiquiatra me dizia isso... a sorte era que a minha loucura era a de vingança de pelo menos encontrar John Smile. Passei o dia 22 me revelando para uma pessoa que dizia saber Psicologia. Fingi entender as regras do jogo... contei algumas mentiras.
Rubens, de alguma forma, ficou sabendo do ocorrido, aliás, fora ele que fez a bagunça e deixara mil papeis para serem lidos por mim. A sorte é que consegui colocar os mais importantes numa sacola perto da maca. Rubens conseguiu entrar no meu quarto na noite de quinta... conversamos... expus a minha situação: teria que passar por sessões de terapia por sete dias corridos, o que atrasaria meus planos! Quais?! De encontrar com Bartolomeu e levar Lady Kathy comigo... precisava mais do que nunca da ajuda de Rubens.
- Fugiremos!
- O quê?! Ficou maluco?! Como eu tiro você daqui desses Hospital?!
- Roupa suja...
- Ahã?!
- Há um container de roupa suja que passa por aqui na sexta, amanhã. Você entra disfarçado de funcionário do hospital... está vendo aquela sacola ali?! Pegue-a.
- Uma roupa de funcionário, ou melhor, funcionária?! Todo mundo vai saber que não me chamo Elianne...
- Tire o bordado em casa, sei lá, faça o possível. Entro no container de roupas com você me levando... pegue algumas roupas antes, nos quartos vizinhos, apenas para disfarçar. Despistamos o motorista do carro da lavanderia, e vamos pegar Lady Katherine. Com o carro de serviço, conseguimos atingir Nice em algumas horas e de lá, vamos de trem para Paris. Compre passagens com aquele seu amigo em Paris para o Rio de Janeiro, teremos que fazer escala lá, antes de ir para São Paulo capital...
- Você é louco, completamente... não posso retirar você daqui dessa forma, não dará certo!
- Dará sim, observei todos esses detalhes depois da desgastante sessão de terapia, se não quiser fazer isso por mim, faça por Lady Katherine, ela precisa de ajuda...
- Vou tentar...
- Não tente, faça! Nós temos poucos segundos em vida para decidir boas ações, tome essa como boa e vamos ver o que acontece, faça valer a pena!
- Ok...
Ele tinha saído pela porta, mas tinha entrado por outro quarto, pela janela, a fim de conversar comigo... se meu plano não era inteligente; o dele não era mesmo! Todo mundo devia ver um homem escalando o primeiro andar do Centre Hopitalier de Monaco...
Ficamos combinados assim... arrumei minhas coisas e me preparei para partir amanhã pela manhã... achava que estava bom para caminhadas, talvez menos para corridas, mas amanhã era o dia da verdade...
* * * * * * *
Tudo começou de forma diferente. É impressionante como o que combinamos nunca dá certo! Foi assim. Rubens entra no horário de visita do Hospital, eu estava arrumado e me espanto com tamanha cara de pau de não estar vestido de funcionário!
- O que aconteceu?! - Perguntei.
- Cale-se. - Disse-me. Fechou as persianas para a janela de fora e para o pequeno vidro que dava para o corredor do Hospital. Trocou-se. Entrou no quarto, logo, depois, a enfermeira. Ela diz para me arrumar para a terapia, pois uma cadeira-de-rodas estava a chegar para me levar parao divã do Dr. Hamilton. Aceno positivamente, ela sai da sala. Começo a reclamar de Rubens: "não vai dar certo..."
- Cala a boca, volto logo. - Então, ele traz, no lugar do container, uma cadeira-de-rodas... não sei como, mas ele conseguiu... me carrega até um quarto no térreo, onde o bendito container estava... ele me põe lá. Durante a descida do elevador, uma criança me observa atentamente. Tenho sangue doce para as crianças, tal como aquela vez que estivera em Marselha e na descida do elevador, uma criança tenta falar comigo... dessa vez, ela dá um sorriso e provavelmente achava estranho eu estar naquela cadeira de rodinhas... No dito quarto, enquando Rubens voltava a se trocar para por a roupa de funcionário da lavanderia, atrás da divisória existente no quarto, chega um guarda... eu estava dentro do container, com a tampa fechada, ele abre - eu sabia que ia acontecer isso... ele arregala os olhos quando me vê, se aproxima e fico bem quieto... plaft! acerto o rosto dele em cheio, há tempos não faço isso... tiramos a roupa dele, deixando-o de roupa de baixo... por que?! bem, o que mais poderia ser valioso que ter uma roupa de policial e ainda tê-lo nú... sabiámos que ele colaboraria conosco não indo a lugar nenhum...
Rubens me leva a lavanderia. Chega com o container perto da perua que estava estacionada no subsolo do Hospital, na traseira. O motorista salta da cabina. Abre o container, olha para mim, eu dou um tchau, ele se vira para Rubens e ele o acerta. Colocamos ele no container e esse num quarto escuro do subsolo. Tomamos o veículo e saimos do Hospital.
Não sabia, mas Rubens tinha tudo isso em mente. Conseguiu planejar isso com destreza.
- Planejou tudo isso?!
- Sim, eu planejei... acha-me burro?!
- Não, não, eu não sei porque você sempre me surpreende.
- Claro. A surpresa não advém apenas do fato de subestimarmos as pessoas, mas vem de não esperarmos isso. Às vezes, quando não esperamos, nós mesmos somos os burros de não termos pensado isso antes... - olhou para mim, enquanto dirigia numa risada irônica... Rubens era agora um parceiro e tanto nessa nova aventura.
Saimos do Boulevard Charles III, tomamos o Boulevard Rainier III e finalmente a Rue Grimaldi. Pela Avenue de La Costa, chegamos ao Café Paris, onde ficava o Hotel Paris, onde Lady Katherine estava. Como Rubens preparara tudo, ela apenas aguardou a nossa chegada. Saimos de Mônaco e tomamos La Provençale, a auto-estrada que dava a Nice. Durante o caminho, passamos por uma batida policial, o que deixou-nos muito nervosos dado que não estávamos preparados para uma frustação em nossos planos. Mas nada aconteceu.
Chegamos em Nice e tomamos o trem de superfície em direção a Paris, ainda na sexta-feira; mas só chegamos no sábado. Nosso vôo estava marcado para segunda, dia 26 de maio; mas o amigo de Rubens acabou não marcando nada! No trem, dormi a viagem toda enquanto Rubens tentava algo com aquela pobre Srta, sim, pobre, mal esperava o que o futuro lhe reservava... aquele papel que devia ter separado quando Rubens entrava no meu quarto, tropeçando, e misturando tudo, também definiria tudo... pena não ter aberto ele antes...
Mas pouco importava, éramos um bando em fuga, era a aventura de nossas vidas ali acontecendo, não tínhamos The Beatles nem o Sir Paul McCartney antes do álbum de 1973, mas essa era a música nossa...
Stuck inside these four walls, sent inside forever,
Never seeing no one nice again like you,
Mama you, mama you.
If I ever get out of here,
Thought of giving it all away
To a registered charity.
All I need is a pint a day
If I ever get out of here.
Well, the rain exploded with a mighty crash as we fell into the sun,
And the first one said to the second one there I hope youre having fun.
Band on the run, band on the run.
And the jailer man and sailor sam were searching every one
For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run
Well, the undertaker drew a heavy sigh seeing no one else had come,
And a bell was ringing in the village square for the rabbits on the run.
Band on the run, band on the run.
And the jailer man and sailor sam, were searching every one
For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run
Well, the night was falling as the desert world began to settle down.
In the town theyre searching for us every where, but we never w ill be found.
Band on the run, band on the run
And the county judge, who held a grudge
Will search for evermore
For the band on the run, band on the run, band on the run, band on the run
[Band on the Run, Paul McCartney & The Wings, do álbum de mesmo nome, 1973]

[Mapa de Mônaco e o Hotel Paris. A fuga estava armada por Rubens. Guardei esse mapa mesmo não vendo a corrida e ganhado o prêmio, o que serviu para comprar as passagens da Air France para o Brasil. Pelo menos, era essa a expectativa... Fonte: Google Maps]